Depois das tempestades, a bonança introspectiva de Earl Sweatshirt

Estou numa altura estranha. Não digo isto com a habitual tristeza com que costumo pintar os meus textos, mas sim com um certo senso – ou vá, pseudo esperança – que, ao virar da esquina, não haja só merda. Por mais fumo que inale deste mundo a arder, talvez consiga chegar a um sítio onde possa pousar esta cachimónia e aproveitar um ou outro suspiro assim sem grande caso. E quem lê, pergunta muito bem o que raio é que isto tem a ver sobre o que irei falar em seguida. Assumo-me narciso nesse sentido e confesso que inicialmente a ideia de escrever este texto surgiu pelo sentimento comummente apelidado pelo acrónimo anglosaxónico FOMO (fear of missing out) que senti por não conseguir ir ao concerto de Earl Sweatshirt no passado dia 20 de fevereiro, no Lisboa ao Vivo.

Porém, como disse, isso foi inicialmente. De há umas semanas para cá, ciente que não ia ver ao vivo pela terceira vez o rapper estadunidense, tenho revisitado o seu mais recente álbum Live Laugh Love, lançado em agosto de 2025. Por mais que coce a parte de trás da cabeça para tentar escarafunchar o que raio se passava comigo no verão transato, não consigo encontrar razões para o facto de eu não ter contemplado o disco com o mesmo carinho que o faço agora. A resposta, não concisa, tão pouco objetiva e descritiva, talvez até passe um pouco pelo que falei no início. Saber que por cima até da mais densa e lúgubre nuvem há raios de sol e que esses, apesar de correrem o risco de não serem vistos, estão lá. Quer queiramos, quer não, é uma realização que quando interiorizada e tomada como meta, pode até ter alguns frutos. E, se há exemplo que demonstra que tais raios de sol são reais e podem de facto reluzir sobre alguém por mais força que a penumbra tente exercer, é o caso de Thebe Neruda Kgositsile. Earl Sweatshirt.

Não querendo entrar em pormenores sobre a carreira e vida de Earl Sweatshirt, até porque essa está bem documentada pela Internet fora, é com um sorriso que se experiencia cada audição deste seu quinto álbum de estúdio a solo. Contudo, não deixa de ser essencial dar um retrospecto à sua discografia para se perceber o troféu que é Live, Laugh, Love.

Tal acontece porque falamos de um rapper que, desde cedo, envergou uma translucência emocional na sua caneta, um peso elefante de existir às costas, uma alma atormentada mesmo quando tudo em seu redor explodia de cores e humor – que este, ainda assim, também conseguia incorporar na sua música. Falamos da culminância rebelde de jovens rappers famintos que fizeram do digital o seu recreio na primeira metade da década passada, os mui-influentes Odd Future. Ao lado de nomes como Tyler, The Creator, o comandante do coletivo, e Frank Ocean, Earl partilha o pódio dos que mais sucesso viriam a ter de um grupo que marcou qualquer pupilo que se tenha entretido pelas lides digitais dos ritmos e poesia nos primeiros anos da década de 2010. Apesar disso, Earl, com apenas 16 anos na altura, acabou enviado pela sua mãe para um internato em Samoa na altura em que os seus compinchas aproveitavam o sucesso do grupo.

Filho de uma académica e de um poeta, o seu contexto familiar viria a ser um traço constante nas suas reflexões. Volvido à sua Califórnia, foi pouco depois de regressar ao coletivo que se estreou nos longa-duração com o seminal Doris, lançado em 2013. Nesse álbum, escuta-se um jovem talentoso, elástico em temáticas, de caneta melancólica, mas também sórdida e capaz de veemente abordar instrumentais assombrados por graves maquiavélicos, provenientes de nomes como The Neptunes, The Alchemist ou de uns promissores BADBADNOTGOOD. A abordagem musical de Earl e a sua interação com os instrumentais também revelam que, desde o início, o rapper sempre foi um senhor dos ritmos para lá da poesia. Com uma lista de convidados de luxo como os compinchas supracitados dos Odd Future, Vince Staples, Mac Miller ou RZA, Doris deixou-nos com malhas intemporais como “Hive”, “Chum” ou “Molasses”. Apesar da ausência de pressão comercial que caiu sobre Earl, o sucesso do disco posicionou-o como uma das vozes mais curiosas do hip-hop abstrato, nicho do género que Earl praticamente figurou enquanto porta-estandarte da nova geração. I Don’t Like Shit, I Don’t Go Outside, o seu segundo disco lançado em 2015, é um precursor estético da estreia, mas, como o próprio nome indica, com uma dosagem depressiva mais assente e beats menos corpulentos mas mais escuros. Foi também por volta desta altura que começou a minha “relação” com o rapper.

Digo relação não pela mera associação da faceta relacional e unilateral de apreciar a música de um artista, mas sim pelo carinho que foi crescendo em mim com o tempo perante a música e persona de Earl Sweatshirt. À medida que os discos avançavam, Earl amadureceu. Conversou com os seus demónios, lidou com eles, cresceu. Cresceu ele e a sua música. Isso é algo que, de certa forma, partilho com ele. Se Earl Sweatshirt fez música para tentar lidar com as suas mossas, muitos encontraram nela refúgio. Eu fui um desses. Descobri-o através da onda dos “Type Beats” do Youtube – é favor não questionar muito o porquê de eu andar à procura de beats aos 13 anos – e desde aí nunca mais o larguei. Tais laços fortaleceram-se quando, após a morte do seu pai, Earl entregou o seu magnum opus: Some Rap Songs. Corria o ano de 2018.

No que continuo a considerar dos melhores anos de música da última década, em especial no hip hop, Sweatshirt debruça–se sobre luto e tenta encapsular os seus fantasmas em 24 minutos de instrumentais embriagados de loops, estruturalmente despreocupados e submersos em efeitos. Com a entrega mais sóbria até então – contradizendo as constantes reflexões do seu consumo de substâncias -, Earl entrega a esferográfica mais rasgante. Faz das tripas coração e, cabisbaixo mas com um senso de que à frente não há-de ser pior que o que já foi, despedaça-se em 15 momentos que perfazem uma experiência holística que não tem comparação quando se mergulha desde as “imprecise words” que se ouvem no sample de James Baldwin na inaugural “Shattered Dreams” até à estridência solarenga das guitarras de “Riot!” – reinterpretação samplificada de uma música do seu tio.

É em Some Rap Songs que se encontra a minha malha favorita da sua autoria, “The Mint”, com o amigo, rapper, produtor e skater Navy Blue. Uma das suas valências é a simplicidade com que este arranha a poesia, inventando cadências, intercalando–se com o instrumental como este bem entende, proferindo cada palavra como se fosse a única talhada numa parede. Em “The Mint”, escuta-se uma moleza na sua voz como quem se arrasta por um mundo que não lhe sorri. Earl é direto a falar sobre isso e não esconde. Assume que tem saudades de viver, discute a sua autoconsciência e como encontrou refúgio em substâncias, fala da relação que tem com a sua família. Enfim, trata o microfone por tu e não se bajula com grandes orquestras de voz ou instrumento. Somente samples bem ornamentados, com melodias soul, funk intercaladas com referências de pop culture. A faixa é a melhor amostra de Some Rap Songs e das melhores amostras da estética e construto que Earl trouxe ao hip hop contemporâneo.

Contudo, na sua carreira pós-Some Rap Songs, parece que há um novo Earl. Como se este seu disco tivesse sido um processo de exorcização dos seus males, um objeto terapêutico que rogou o que tanto o atormentou por tanto tempo. Sente-se uma maior ligeireza no peso que este denota nas suas canções desde então, não deixando de ser introspectivo e melancólico, mas divertindo-se mais com as suas criações. Em 2019, demonstrou-nos isso no despreocupado EP FEET OF CLAY, especialmente com o sucesso meme East” – hoje em dia momento de mosh pit nos seus concertos -, em que Thebe prova que consegue realmente rimar por cima de qualquer som. Seguem-se três anos com algumas colaborações e em 2022 dá-se uma mudança na estética do seu som. Em Sick!, abraça beats mais abrasivos – oiça-se “2010” -, reforça os 808s, mas não muda a postura nonchalant devido à facilidade com que rabisca barras e funde o seu estilo cabisbaixo e submerso a um som mais próximo daquilo que tanto tem figurado nos cenários que se aproximam mais do trap, como na música que carrega o nome do disco ou em “Titanic”, sem deixar de nos brindar com a idiossincrasia dos seus instrumentais arritmados (drumless).

Foi também em 2022 que tive a oportunidade de o ver ao vivo, no Primavera Sound, naquilo que eu considero um dos meus concertos favoritos, apesar de reconhecer que não houve tanta espetacularidade como noutros tantos. Saí bem mais cedo de Gorillaz – haja prioridades – para chegar a uma audiência bem robusta para um concerto às 2 da manhã, estupefacta em insenso e com Black Noi$e a apimentar o PA com sons que iam da technada ao trap. Ao som de “Riot!”, entrou em palco Earl Sweatshirt a rir-se da receção calorosa por parte do público português, que celebrava o seu aparecimento como se de uma divindade se tratasse – bem, para quem leve o hip-hop alternativo como religião, com certeza que Earl é santo digno de ser canonizado. A quantidade de vezes que revi, sorrindo tanto que as orelhas até se afastam, o vídeo do começo do seu concerto não é saudável, porque o que acontece sempre é que me transporto para um momento em que conheci um quasi-amigo que tanto me amparou. E lá estava ele, sem grande preocupação em dar espetáculo, a declamar até os versos que não eram dele. Via-se que estava ali por trabalho, mas caiu-lhe a máscara quando findado o seu concerto e já saído do palco – com os técnicos do palco já a prepararem-se para guardar o seu equipamento – a multidão ficou largos minutos a entoar o seu nome. Em resposta, regressou para um último momento em palco. Um ajuste e pelo PA colocou a irromper “LOVE YOU BETTER”, do Future. Foi um momento de comunhão para encerrar um capítulo para tantos jovens fãs de rap que finalmente presenciaram os versos que tanto alento deram através dos auscultadores ao longo dos anos.

De volta à sua fase pós-Some Rap Songs, nota-se que houve aventuras artísticas consequentes de uma mudança de espírito na sua vida. Veja-se o que este faz em faixas como “BAD FRUIT”, com Jean Dawson, ou as incursões trap em que este mergulhou, tanto no seu autêntico banger “Making the Bands”, como nas engraçadíssimas “Words2LiveBy” (de El Cousteau), e “Real hiphop” (de Niontay). Mas mesmo no seu registo mais reconhecível, como na colaboração titânica com o importantíssimo The Alchemist em VOIR DIRE, figura um Earl mais realizado, melhor relacionado consigo mesmo e focado numa lírica que demonstra o musculoso engenho rimático que este possui. Porém, e voltando ao início de toda esta tertúlia de caracteres de um processador de texto detido pelos cabrões da big tech, é com um sorriso ainda mais rasgado que aquele que brotei quando vi Earl ao vivo que me detenho sempre que me meto a ouvir Live Laugh Love. Porquê? Porque o Earl está feliz e eu, coincidentemente, não ando tão triste.

Em Live Laugh Love, adornado pela descoberta desses tais raios de sol com o nascimento dos seus filhos e constituição de uma família com uma parceira amorosa, Earl percebeu que não é capaz de consertar o seu passado nem de apagar o fogo do mundo a arder. Todavia, olha para o que construiu e, por sua vez, percebe que há muito onde ainda pode construir para conseguir aproveitar esse tal sol que a maior parte das vezes parece apenas fruto de algo profético. Há quem diga que o disco se trata do outro lado da moeda valiosa que foi Some Rap Songs. É compreensível. É o projeto cuja identidade sonora mais se aproxima de Some Rap Songs, e tematicamente, é o total inverso desse álbum. De certa forma, Live Laugh Love é a celebração de um “finalmente”. Nunca ouvimos o rapper – à parte de toda a sua personalidade e faceta cómica que sempre deteve em vídeos, sketches e entrevistas – tão animado e feliz por cá estar. Nunca deixando a sua introspecção e autoanálise de lado, como se escuta em “FORGE”, é notório logo nos primeiros instantes de “gsw vs sac” que Earl parece estar a sorrir até a rimar. É mesmo tempo de celebrar e de viver após tanto tempo em que não foi capaz de sentir que era capaz de tal coisa. Earl sorri e ama porque sabe que tem um lugar à sua espera onde encontrar e depositar estas coisas. É isso que confessa em “Live”, que até conta com uma referência lusófona com a vinheta utilizada no Brasil para os jogos do Mundial de Futebol desde os anos 60.

Vou finalizar, até porque não tenho muito mais para dizer e quero, tal como o Earl, ir viver a vida. Para isso, tenho de sair deste computador, mas antes queria apontar aquela que é, compreensivelmente, a música que tem tido mais sucesso do disco, a belíssima “TOURMALINE”. O senhor que não costuma enveredar pelos refrões entrega uma daquelas melodias que fica aprisionada a entoar por todo o crânio. É a sua música mais alegre. Uma ode a este seu momento de plenitude e culminar de uma jornada que começou há décadas. Uma turmalina, de facto, brilhante e reluzente tal como um sol depois da tempestade. Não há como ficar indiferente.

Num mundo que cada vez mais corrobora o distópico, são preciso utopias. Por mais foleiro que isto possa soar, o amor é uma utopia. O simples é uma utopia. E o pleno é também uma utopia. Será que é possível lá chegar? Não faço ideia. Sou demasiado pessimista para ter estas conversas. O que sei é que o sol está lá. E talvez, só isso, seja motivo para lutar por ele. A ver se então vivemos mais, rimos mais e amamos mais.


Nascido e criado em Faro, divide o seu coração entre as suas duas grandes paixões, o cinema e a música. Aspirante a cientista da comunicação, já passou pelo Espalha-Factos onde foi um dos autores do À Escuta. Conseguem apanhá-lo em festivais de música e em cineclubes!
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O gajo está feliz pá! É tempo de viver, rir e amar.

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