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Editorial mais recente – Edição #68

Capa Playback #68: Extremo

No passado fim de semana, estive a ajudar com a organização de um evento na minha vila natal. Foi um dia passado a andar de um lado para o outro, a apresentar coisas em cima de palco, e a observar o comportamento dos locais. O dia terminou com dois concertos: os Mar do Norte, um bando de miúdos energéticos que estão a concluir o secundário na mesma EBS onde andei; e os Desire Haze, um conjunto de miúdos um bocadinho mais crescidos (estão na casa dos vintes), oriundos de várias localidades em torno da minha, que este ano lançaram um belo registo de shoegaze/dream pop: Not So Distant, One Day.

Pode parecer um bocadinho louco a ideia de ter um concerto de shoegaze numa espécie de arraial, mas o risco valeu a pena. Foi um lembrete que a programação cultural tem de envolver risco, especialmente nestes sítios mais pequenos, purgatórios esquecidos face à macrocefalia vigente. Numa troca de bitaites com um senhor da rádio local que me entrevistou sobre bandas locais, este contou-me que, no final da década de 90, existia um festival da juventude na sede de concelho, que dava espaço aos miúdos para tocarem e fazerem barulho. Desapareceu. As pessoas cresceram, a população ficou mais velha, e o foco deixou de ser conferir espaço à cultura jovem, mas apenas a réplicas infinitas de uma certa nostalgia para um público mais “adulto”. 

É necessário devolver os espaços públicos aos mais jovens, para serem eles a programar e a fazer coisas acontecer. Porque o futuro tem de passar por aí – a criação de espaços onde os jovens podem experimentar, conviver, sobreviver. O doom scroll não é uma condição infinita, mas sim o resultado de decisões políticas da destruição do espaço público e cultural. E alterar o curso dessa rota devia ser uma prioridade para qualquer pessoa interessada em ir além do chavão da “comunidade”. Comunidade significa pensar os espaços, notoriamente os públicos, e cedê-los – a quem quem fazer coisas com eles. Só assim a vida pode voltar a ser nossa. É necessário conquistá-la.

Uma nota final antes de abrir o período de férias da Playback: em breve, vamos ter uma surpresa para vocês. Algo que podemos indicar, para já, ser físico. Em setembro há mais. Voltaremos. Até lá.

– Miguel Rocha

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