Carte Blanche a Bonança

Não quero

Vá, até gosto de música. Tem dias. Até meto um sonzinho ou outro nos fones a passar de vez em quando. Mas só de vez em quando.

Acho que às vezes as pessoas não me levam muito a sério quando digo que não ando a ouvir assim tanta música. Juro que não é falsa humildade ou vontade de parecer diferentão. Não me apetece, e se é para mostrar que não é questão de falta de modéstia, vou até mais longe: é por amar a Arte!

Acho que esta abordagem à coisa começou a ganhar forma no verão de 2020. Estava um calor dos diabos, Covid a grassar por esse mundo fora, mas comboios da Linha de Sintra no estado de sempre – que as necessidades das pessoas não mudam por andar um bicho mau qualquer no ar. Tinha de ir a Lisboa, não faço ideia para quê, de modo que, apanhado o comboio na estação de Massamá-Barcarena, segui viagem. A carruagem estava à pinha, o Sol escaldante, as pessoas suadas, e eu ali, de fones, de óculos escuros e de máscara. Comecei a bater mal. Tudo parecia infinitamente distante e irreal, como se estar onde estava não fosse mais que algo em que simplesmente escolhi passivamente acreditar.

Claro está, nesse momento saí do matrix, tornei-me iluminado! (Mentira, tou a gozar).

Mas tive de sair aos tropeções em Queluz-Belas, que não aguentava nem mais um segundo daquilo. Tirei os óculos, tirei a máscara, tirei os fones. Fiquei a arfar num banco da estação por uns sólidos 10 minutos a ver se me recompunha. Sentia-me miserável e tive a hipótese de compreender porquê: é que eu me estava a privar de estar verdadeiramente naquele comboio.

Ok, todos os dias me calço e visto; todos os dias lavo os dentes e desde o dia em que vi o WALL·E no cinema, no longínquo verão de 2008, que meto também desodorizante antes de sair de casa (nunca hei de esquecer o trauma de cheirar mal pela primeira vez, ainda para mais com 40 graus na rua); todos os dias pego nos fones e os levo para todo o lado; nos dias de sol pego nos óculos escuros e pinto o mundo de castanho e laranja – e para mal dos meus pecados, caminhava naquele momento de máscara a respirar não o ar à minha volta, mas os humores das minhas próprias entranhas. O que é que resta do mundo em volta?

O que naquele momento percebi é o quão pouco deixamos ao acaso no nosso dia-a-dia. Epá, eu não quero que andemos todos aí a cheirar a sovaco, e por favor não me tomem por anti máscara, mas a meu ver dá para identificar a nossa necessidade de estandardizar as experiências através da observação das mais variadas coisas. Eu nunca piso o chão que piso – os meus sapatos fazem-no, aqui ou em qualquer lado do planeta. A zona dos perfumes da duty-free shop do aeroporto cheira exatamente ao mesmo que a fila de uma discoteca do Cais (tirando o cheiro a IQOS). Posso estar no topo do Monte Evereste ou em Ranholas a ouvir o Cameron Winter a gemer-me ao ouvido. Consigo comer um fantástico brunch num restaurante fantástico de brunch em Paris ou na Graça, fantástico! Perdoem o meu francês, mas que bela merda.

Comodificamos a nossa experiência – podia partir para os suspeitos do costume, a #sociedade!, o #capitalismo! e tal e tal – e, agora, volto, finalmente, ao busílis da questão: não é isso que eu quero para a minha vida e muito menos para a música.

Eu não quero consumir música. Eu quero ouvi-la com disponibilidade, com cabeça. Eu não quero andar pela rua como quem anda por casa como quem anda no ginásio como quem estuda como quem lê como quem cozinha como quem literalmente faz qualquer coisa, porque tudo se torna uma massa amorfa de tempo contínuo. Eu quero que os momentos na minha vida sejam imiscíveis porque o que neles se infiltra como denominador comum também vai roubando espaço ao que os torna únicos. Isso significa que tenho de estar preparado para passar dias, semanas ou mesmo meses (estes últimos mais pelo valor dramático) sem ouvir música, se as condições para o fazer de um modo que lhe faça justiça não surgirem. Infelizmente não temos tempo para tudo, é o que é, mas há que fazer escolhas, ou pelo menos devíamos reclamar de volta essa capacidade, ao invés de tentarmos entulhar os nossos ouvidos e embaçar os nossos sentidos para chegar aos 50 mil minutos de música ouvida num wrapped qualquer no final do ano.

No domingo passado saí de casa para apanhar um pouco de sol e subi à Graça. Passei pelo destroço do quartel-em-breve-hotel e fui ao miradouro. Um homem andava de um lado para o outro enquanto fumava um charuto com uma mão e fotografava com a outra. Uma senhora fazia uma videochamada com o telemóvel apoiado na nuca do busto da Sophia de Mello Breyner. Encostei-me ao rebordo do muro e fiquei a ruminar sobre a injustiça dessa caducidade que se manifesta através de tudo o que fazemos – e não fazemos. Escrevi num caderninho em que gostava de me sentir capaz de escrever mais:

“Acho que nunca me vou consolar com não poder observar e expressar em simultâneo. Acho cruel, para poder dizer o que em mim desperta neste momento ver os telhados de Lisboa reluzir a partir do Miradouro da Graça, ter de desviar o olhar e o pensamento daí para esta folha.”

Sabem que mais? No fundo, pronto, se calhar sou um hipócrita. Mas ao menos não estava a ouvir música.


“tão perto” é o nome do mais recente single lançado por Bonança. É a segunda antecipação de só, o seu álbum de estreia que será editado ainda durante o primeiro semestre de 2026. Escuta o single abaixo.

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