Deixarmos estender as mini-férias de inverno tornou inevitável que todo um mundo tivesse acontecido entretanto—infelizmente, não necessariamente no melhor sentido. É verdade que a hibernação a que esta altura do ano nos convida (mais aquele vale de nada entre Natal e Reis em que todos os dias parecem simultaneamente domingos e quartas-feiras) submerge tudo numa espécie de não-realidade, um sonho febril do qual acordamos estremunhados sem termos a certeza se dissemos mesmo aquilo, fomos mesmo ali.
Uma baixa significativa neste mês de pausa da Playback foi a morte algo silenciosa e tranquila dos canais de música da MTV. Ainda que a marca estivesse moribunda há pelo menos uma boa década, o simbolismo de ver os fôlegos teimosos da MTV Music, MTV 90s, MTV Dance, e por aí fora irem subitamente a preto bateu como uma eutanásia anunciada que, apesar de misericordiosa, enfiou um pequeno punhal no coração de toda uma geração. Para quem, como eu, passou pela MTV a dada altura da sua vida (no meu caso, uns bons aninhos na MTV Portugal durante os semi-gloriosos inícios dos ’10s), o desligar das máquinas fez certamente verter uma lágrima solitária ao reparar que a equipa encarregue da ingrata tarefa escolheu “Video Killed the Radio Star” para a despedida do canal principal. Haja algum alívio quando um final confirma que tudo volta sempre ao início.
Ano novo, vida nova, sempre ouvimos os mais velhos dizer. Mas o que fazer quando entramos nele já cansados, com poucas esperanças de que nos traga melhorias ou soluções? Como comentava com um amigo nos primeiros dias de 2026, a nossa obrigação é seguir em frente de cabeça erguida, até porque entregar as armas à partida é nada mais nada menos do que deixá-los vencer. A resistência faz-se de alegria e de resiliência, e se for preciso desassociar de vez em quando para manter a sanidade, que seja nesse inebriar ímpar que a música patrocina.

