Lá no início de 2023 comecei a aventurar-me com mais atenção pelos recantos do Bandcamp e, sem grande esforço, deparei-me com um título que surgia repetidamente: Erotic Probiotic 2. Falava-se cada vez mais de Nourished by Time, alter-ego de Marcus Brown, e esse disco marcou o momento em que um jovem que fazia música à noite explodiu pela internet fora. De repente, Marcus tinha a oportunidade de largar empregos que iam desde barbeiro a instrutor de ténis, para abrir para nomes como Dry Cleaning, Toro y Moi ou Panda Bear. No ano seguinte, 2024, lança o EP Catching Chickens, com a belíssima música “Hell of a ride”, e embora menos falado do que o disco de estreia não desce de qualidade e cimenta Nourished By Time como um nome a ter-se em conta não só para o futuro como também já para o presente imediato.
Desde que ouvi Nourished by time pela primeira vez, fiquei apaixonado. Amei as canções e a composição, mas a verdadeira revelação só aconteceu quando fiz um upgrade dos meus fones. Até há menos de um ano, limitava-me aos fones com fios de 20 euros da Apple que, após cerca de seis meses de uso intenso e volume elevado, iam perdendo som até se tornarem praticamente inaudíveis, mesmo no máximo (obrigada obsolescência programada). Hoje, com uns fones bem mais decentes, sou uma pessoa bem mais feliz. E, sobretudo, consigo apreciar a produção das canções de Marcus de uma forma mais rigorosa. É aqui que Nourished by Time se destaca de forma evidente. A sua música sempre me soou a uma espécie de cruzamento entre Prince e Viper, mas no mais recente longa duração The Passionate Ones (edição: XL Recordings), essa herança aproxima-se ainda mais do primeiro, tanto na confiança como no detalhe.
Lançado em 22 de Agosto de 2025, The Passionate Ones é uma sequência quase ininterrupta de bangers. Marcus construiu um disco que pede presença total, atenção e, acima de tudo, (re)lembra porque é que a sua música é para se ouvir bem alto e de ouvido e anca atenta. “Automatic Love” dá os primeiros passos nesse delicado equilíbrio entre a maturidade e uma energia quase adolescente. Ouve-se um kick tímido e um teclado que começa a aquecer os ouvidos e, numa explosão de amor, os meus braços desenham um círculo no ar enquanto a cintura entra em movimento.
As canções lembram-me Prince precisamente por não terem medo de ser assumidamente corny. É nesse excesso emocional, no melodrama, nos suspiros bem colocados e na entrega total da voz que “Automatic Love” se torna próxima e me dá vontade de cantar versos como “Yeah, I fall down and take you, baby / ’Cause I know you’ll praise me too / A supernatural connection / With a touch of déjà-vu”. O tema soa como se fosse cantado por uma teenager no quarto, a saltar em cima da cama, a dançar sozinha, a viver tudo pela primeira vez. Em “Crazy People”, Marcus reforça ainda mais esta sensação. Para me pôr a cantar “You say you’re crazy / Crazy people”, algo que nem escrito soa bem, é preciso cantar com muito estilo e ter muito groove. Nourished by Time consegue-o.
Também há um prazer físico na forma como a produção das canções de The Passionate Ones trata os ouvidos. As camadas vocais que surgem e desaparecem, o uso preciso de drum machines e a escolha cuidada dos instrumentos. Destaca-se ainda a capacidade de Marcus fazer muito com pouco. Não é que as músicas estejam completamente abarrotadas de texturas e sons, mas nota-se que cada som que surge foi cuidadosamente pensado para elevar a canção.
Para os mais céticos das comparações com Prince, convém lembrar que Nourished by Time não é apenas um mestre do software. Marcus Brown toca vários instrumentos ao longo do disco e tem uma voz verdadeiramente impressionante. Enquanto vocalista, é dinâmico e carregado de uma maturidade cansada, com um alcance elástico que atravessa esperança e desilusão. Em faixas como “It’s Time” e “Max Potential”, essa mestria vocal torna-se ainda mais evidente, mostrando além de um bom alcance vocal, uma voz própria e característica.
Embora The Passionate Ones esteja muitas vezes ancorado no amor romântico, há um tema transversal que lhe dá outra profundidade: a luta de Marcus para chegar onde está e para reclamar algo que o capitalismo insiste em negar-lhe: a sua autonomia. As experiências cinzentas do 9-to-5 e todo o desgaste psicológico que vem com elas são pilares da sua música. Em “9 2 5”, o tema mais assumidamente anticapitalista do disco, essa tensão torna-se explícita, mas nunca resignada. Há sempre otimismo na forma como Marcus olha para o desgaste. Mesmo quando fala de dor, fá-lo como motor de transformação. “It’s okay to change your mind, I know it’s pain / But you gotta let that pain get inspired”, dispara em “Jojo” em desabafo, a equilibrar-se numa corda bamba emocional.
Em The Passionate Ones, Nourished by Time acaba por olhar tanto para o amor romântico como para o amor pela arte como forma de se salvar da opressão. Se o tempo não chega para nos nutrir, o amor acaba por fazê-lo. É essa crença que dá tanta energia ao disco e que o torna tão diferenciador: a capacidade de reconhecer a frustração do presente sem abdicar da possibilidade de algo melhor. Mesmo quando entra no território da desilusão, como em temas que funcionam quase como jams para banda sonora de corações partidos, Marcus consegue captar tanto o desencanto do momento como a necessidade de coragem para seguir em frente. É música cansada do sistema, mas nunca sem esperança.

