Carte Blanche a IBSXJAUR

Sobrevivi a um naufrágio

Estava num barco, uma espécie de barcaça, com pessoas próximas. O rio era inquieto, imprevisível. Passávamos por trechos onde a água parecia abrir-se, formando fendas profundas e inesperadas, quase engolindo-nos. O barco tremia, rangia, e cada movimento da corrente provocava ondas enormes que nos atingiam de lado, ameaçando desequilibrar-nos. O medo era físico–o frio da água a tocar os pés, o vento que cortava o rosto, a tensão nos músculos a cada sacudida–e ao mesmo tempo mental: cada pensamento sobre “e se alguém não sobreviver?” ampliava o pânico.

Ao chegar a uma eclusa, ninguém amarrou o barco. E ele afundou. Na água, o caos era absoluto: gritos, braços que se agitavam, corpos que desapareciam e reapareciam, a corrente tentando engolir-nos. Por um instante, senti que tudo se iria dissolver. Mas, estranhamente, o meu cérebro entrou em modo de sobrevivência. Sem pânico. Uma clareza quase fria tomou conta de mim. Flutuava, observava, analisava todas as possibilidades. Cada impulso era medido, cada gesto calculado, mas ao mesmo tempo intuitivo, instintivo.

Foi então que vi alguém: ao longe, um homem forte, puxava as pessoas da eclusa com facilidade surpreendente. Aproximar-me dele foi um esforço enorme, contra a corrente e contra o medo, mas quando finalmente agarrou meu braço, senti uma força inesperada e segura. Ele não falava, não instruía; ele só me impulsionou, e de repente, parecia que eu voava e flutuava ao mesmo tempo, num equilíbrio impossível entre vulnerabilidade e segurança.

Depois, alcancei uma zona onde outros se aguentavam, nadavam por terra firme. Sobrevivi. Não sei como, mas sobrevivi.

Mais tarde, olhei para as notícias e vi que anunciavam nossa morte coletiva. Meu telefone vibrava sem parar: mensagens do meu irmão, da minha mãe, de conhecidos, pessoas com quem não falo há muitos anos, todos querendo confirmar se era verdade. Não respondi. Estava viva, mas paralisada pelo trauma. Não conseguia falar. Sentia a ausência de alguns, e o desaparecimento gradual de outros da minha memória. Entre eles, o meu namorado, aos poucos, tudo sobre ele foi desaparecendo, a cara, a voz, será que ele existiu?

Não voltei a contactar ninguém. Nem a minha família, nem as pessoas da vida de “antes”. Não por esquecimento, nem por raiva, primeiro porque não conseguia lidar com o trauma, depois porque achei que estávamos melhor assim. Saber que me acreditavam morta criava um espaço estranho, quase indecente, mas profundamente libertador. Ninguém esperava nada de mim. Nenhuma presença, nenhuma força, nenhuma resposta. Pela primeira vez, eu não devia nada a ninguém. Esconder que tinha sobrevivido não foi um acto de fuga, mas de sobrevivência prolongada. Se voltasse a falar, se dissesse “estou viva”, tudo regressaria com isso: as expectativas, as responsabilidades, a necessidade de ser quem sempre fui para os outros. Carreguei culpa, claro. Uma culpa surda, persistente.

E então, conheci alguém. Era epicurista, alegre, quase excessivamente vivo. Não me pedia nada, não precisava que eu fosse alguém, que justificasse minha existência ou
sobrevivência. Estava ali, pleno, pleno de calor humano. Aprendi a respirar de novo. A sentir o corpo sem tensão, o coração sem culpa, a rir sem razão. Ele não era um salvador; era um guia, uma permissão viva para ser livre. Permiti-me sentir que, finalmente, sobreviver sem dever mais nada era suficiente. Não se tratava apenas de estar viva, tratava-se de não mais ser uma obrigação, de existir sem papel a desempenhar, sem peso a carregar.

Ao acordar, percebi que este sonho não falava de morte. Falava de responsabilidade.

Durante muito tempo, fui uma presença estável quando tudo à volta vacila. Não por heroísmo, mas por hábito. Porque alguém tinha de o fazer. E, pouco a pouco, essa responsabilidade silenciosa tornou‑se peso. Não fazia barulho, não pedia atenção, mas consumia-me por dentro, como água a entrar lentamente no casco.

O sonho mostrou-me uma verdade desconfortável: às vezes, ser indispensável é uma forma lenta de afogamento. Não há gesto dramático, não há queda brusca, apenas a certeza de que não existe espaço para falhar, desaparecer ou simplesmente parar.

No sonho, o mundo acreditava que eu tinha morrido. E esse equívoco libertava-me. Não porque eu desejasse desaparecer, mas porque, pela primeira vez, ninguém podia exigir que eu estivesse presente, forte, disponível. O silêncio deixava de ser ausência e tornava-se fronteira. A culpa existia, mas era uma culpa diferente. Menos violenta do que a de continuar a existir apenas para sustentar os outros.

Este sonho marcou-me profundamente. Não como um aviso, mas como um espelho. Inspirou-me a escrever uma canção (que prometo partilhar um dia), porque algumas histórias não se resolvem com palavras; pedem música para continuar a respirar.

Criar, para mim, é isto.
Transformar aquilo que quase me dissolveu em algo partilhável.
Dar ritmo, voz e forma ao que antes era apenas água revolta.

IBSXJAUR é uma dupla de música electrónica de Vila Real. Em 2025, a Cuca Monga publicou SANITY, o seu álbum de estreia. Pode ser escutado abaixo.

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