Não sei se alguma vez fizeram este exercício, mas desafio-vos a pensar em quantas guitarristas conhecem que dão a cara pela música portuguesa. Vieram-me à cabeça algumas. Lembro-me de Marta Pereira da Costa, que levou as doces melodias da guitarra portuguesa até ao icónico cenário de escritório do programa Tiny Desk, da NPR; da Inóspita, que, para além de ter um papel preponderante no indie português, tem produzido discos em nome próprio, onde a exploração da guitarra elétrica vai para além da sua vertente acústica, envolvendo também a sua dimensão tecnológica; e, por fim, de Mariana Rosa, ex-guitarrista das Anarchicks, que demonstrava um virtuosismo hipnótico nos seus leads e solos.
A verdade, porém, é que não é fácil uma mulher assumir-se como guitarrista. Mas, parece que esta barreira está a ruir. Decidimos reunir dois e novos exemplos: Beatriz Madruga, guitarrista com um forte domínio do ecossistema jazzístico e clássico, tem um disco lançado chamado Oxalá, um portfólio do campo sonoro da artista. Marta Fonseca, responsável por pôr à prova a música clássica em novos espaços e contextos, nomeadamente no mais esperado disco da A Sul, que irá sair no final deste mês de fevereiro, mas também no projeto ISTO NÃO É UM RECITAL.
Esta conversa vem não só demonstrar que a guitarra voltou a ter uma relevância fulcral na produção de novos sons – até aqui voltamos ao analógico -, como também levantar o pó da guitarra clássica e do jazz, dando-lhe um novo propósito no contexto da música pop alternativa. É uma conversa onde se sente um grande amor pelo instrumento e respeito pelo género, mas é também um espaço de exposição de frustrações e inseguranças.
[Marta Fonseca] Hoje acordei, estava a nevar, e estou neste momento a olhar para uma estrada coberta de neve. Estou em Amsterdão. E tu também estudaste em Groningen, ou não?
[Beatriz Madruga] Certo.
[Marta] Eu estive a fazer o meu trabalho de casa! [Risos]
[Beatriz] Estudei em Groningen. Estive lá durante seis anos. Quase sete, se contarmos com o período on and off que estive lá.
[Marta] Mas porquê seis anos? Estiveste a fazer a licenciatura?
[Beatriz] Sim. Na verdade, fiquei lá mais tempo, porque a licenciatura são quatro anos, mas perdi dois anos por causa de uma lesão que tive no braço. Aliás, foi por um triz que não acabei a licenciatura. Foi daquelas situações assim mesmo…
[Marta] Mas a lesão teve a ver com a guitarra?
[Beatriz] Foi um mix, por acaso. Eu já tinha tido, especialmente quando estudava clássico, uma tendinite. Na altura em que tocava em recitais. As coisas pioraram durante o meu período em Portugal, quando fui tirar sangue. A enfermeira espetou mal a agulha e acertou no nervo.
[Marta] Ai! Estás a gozar? Mano, isso é tão grave.
[Beatriz] Durante algum tempo, quando esticava o braço, dava-me um choque. Os médicos disseram-me que não haveria repercussões nenhumas e continuei a tocar. Eu não sentia propriamente uma dor quando tocava, era mais quando fazia um movimento específico. Dois, três meses começou a desvanecer, e eu comecei a tocar mais. Até que uma vez, senti uma dor que não conseguia esticar mesmo o braço e comecei a ficar com outros sintomas. Eu fiquei com uma lesão do nervo com dor neuropática. E fiquei sem tocar durante dois anos. Por isso, voltei para Portugal.
[Marta] A sério? Mas se não te tivesses lesionado, achas que tinhas ficado?
[Beatriz] Sim, porque a Holanda conquistou-me mesmo muito. Não sei, há uma certa vibe diferente. E eu dava-me bem aí. Também acho que a qualidade de vida é diferente, não sei.
[Marta] Sim, sim.
[Beatriz] Porque sinto que, por exemplo, se fores estudante e tiveres um part-time, consegues basicamente sobreviver a fazer alguns concertos, a trabalhar pouquinhas horas e, ainda assim, tens qualidade de vida. E fazer projetos em Groningen, Amesterdão e Roterdão, são coisas completamente diferentes. Mas Groningen é… digo sempre que é Espinho dos Países Baixos.
[Marta] Porquê? [Risos]
[Beatriz] É uma cidadezinha cheia de estudantes, malta internacional e velhotes nos parques.
[Marta] Exato, exato. Acolhe-te super bem, não é?
[Beatriz] E os meus vizinhos tinham grupos de WhatsApp por cada quarteirão para os gatos.
[Marta] Para os gatos irem brincar juntos?
[Beatriz] Quando perdessem um de vista, os vizinhos mandavam uma foto a dizer: “está aqui o Chico, está aqui o não sei quantos”.
[Marta] Por acaso, tive uma experiência parecida porque eu só agora que estou a viver em Amesterdão, mas eu fiz a licenciatura em Maastricht. Se calhar até é mais pequena que Groningen, nem sei. E é mesmo uma aldeia. As vibes são incríveis. Também são só estudantes, ou seja, é um bocado a mesma cena.
[Beatriz] Eu tive muitos colegas a irem para lá também e é fortíssima a guitarra clássica. [Marta] Acho que quando não estás assim numa grande capital notas as áreas que trazem as pessoas para lá. Em Maastricht, havia muita guitarra e classe de violino. Havia também uns sopros muito fortes. Mas depois vens para Amsterdão ou Roterdão e é tudo fortíssimo e tu ficas: “What the fuck?”. Eu estive em Groningen no festival Dutch Guitar Foundation. Estive lá há três anos, acho eu. Cheguei a ir duas vezes. Até fui fazer uma masterclass uma vez porque eles organizam boas coisas para a guitarra e com luthiers em Groningen.
[Marta] Sim, é incrível.
[Beatriz] Eu não sei em que ano é que tu foste, mas chegaste a apanhar a Sabrina Vlaškalić?
[Marta] Não. Também sei da história. Tu estiveste a estudar jazz, não foi?
[Beatriz] Exato, estudei jazz. Só que a maior parte dos meus colegas de lá portugueses eram todos guitarristas e eram todos guitarristas do clássico. Eu era a única rapariga e portuguesa na parte do jazz. Mas eu continuava a andar super bem e obviamente a Sabrina é uma super inspiração para mim. E eu nunca tive aulas com ela. Tive algumas aulas soltas com a Kristina Vårlid que é quem está à frente do Dutch Guitar Foundation, e como eu escrevia para a guitarra clássica, muitas vezes ia ter com ela e pedia-lhe ajuda. Fun fact: na verdade, fui viver para a casa dela quando ela saiu.
[Marta] No way.
[Beatriz] Sim, ela vivia com três raparigas e eu estava à procura de casa e ela mandou-me mensagem a dizer: “Olha, eu acho que tu te vais encontrar imenso nesta casa”.
[Marta] Lindo.
[Beatriz] [Risos] Mas sim, eu pedia-lhe ajuda às vezes para as minhas composições. Eu estudei guitarra clássica, mas obviamente quando tu mudas o mindset e vais para o jazz, começas só a tocar guitarra elétrica. Por isso, tive que fazer um bocadinho essa separação a certa altura, tive de tomar um bocadinho uma decisão e dedicar-me só ao jazz. O que foi sempre uma coisa super difícil para mim porque, não quero dizer que não era boa o suficiente para estar no clássico, mas parecia que não me interessava a 100% pelo clássico nem a 100% pelo jazz. Era sempre ali um bocadinho um mix dos dois. Sabia que era a junção destes dois que ia criar a linguagem para fazer o que eu queria.
[Marta] Claro, claro. Na verdade, há muito assunto aqui nesta coisa. Eu sinto que esta conversa vai ser sempre: clássico, não clássico. Mas ya, eu apanhei a Kristina, durante os primeiros anos em que ela se tornou a professora principal, ou seja, conheci um bocado a classe toda de guitarristas portugueses. Acho que nessa fase já só havia um porque acho que depois aquilo começou um bocado a morrer. Essa coisa dos guitarristas portugueses começaram a ir embora desde que a Sabrina… Pronto. E já só estava lá o João…
[Beatriz] João Grilo?
[Marta] Exatamente. Portanto, conheci-o na altura. Mas pronto, é uma cidade fofa. É assim tipo uma mini Amesterdão. Com canais e não sei o quê.
[Beatriz] Aquilo é mesmo altamente. Mas tinha algumas coisas no departamento de jazz com que não me identificava. Mas acho que eles acabaram por conseguir chamar muita malta internacional para um sítio muito pequeno. E de repente eles conseguem fazer aquilo funcionar.
[Marta] Claro.
[Beatriz] Acho isso também super fascinante, esse ambiente multicultural em que toda a gente também tem tanta bagagem. Especialmente estando num curso como o de jazz em que, de repente, tínhamos esse registo de professores americanos virem todas as semanas. E aquilo era fixe porque estava ali a trabalhar com músicos que são lendas do jazz mesmo, ou colaboraram com as lendas do jazz. Mas, ao mesmo tempo, também podias entrar ali um bocadinho naquela coisa do preach. É um bocado perigoso esse registo de masterclass. Às vezes, eles chegam e é tipo: “Agora vais fazer isto desta maneira e não sei o quê”. E “vais estudar isto” ou “This is the way”. Enquanto que a malta ficava focada naquilo, depois vinha outra e mudava o método. Como é que funciona isso no conservatório aí?
[Marta] Por acaso, eles até têm bastantes masterclasses. Maastricht não tinha tanto. Mas eu acho que isso no jazz é capaz de acontecer mais. Porque, normalmente, a masterclass no clássico é sempre masterclass de guitarra. Tens o professor de guitarra, o guitarrista que vem e é só guitarristas no público. Mas no jazz é muito: “Olha este percussionista que não sei de onde é”. De repente, tens tipo malta de todos os instrumentos a querer ir ver porque o pessoal quer sempre ver um bocado de tudo. No jazz há mais isso, sinto. É uma linguagem mais transversal para todos os instrumentos de alguma forma. Isto para dizer que não é uma coisa que acontece todas as semanas, pelo menos que eu vá. Mas há professores a ir lá, de certeza, todas as semanas, porque há várias coisas a acontecer. E depois da guitarra, em específico, tens de dois em dois meses um professor a vir. Para mim o que eu retiro mais é de dentro da escola. A possibilidade que há de todas as disciplinas que dá para fazer e a abertura também que eles dão principalmente no mestrado de eu poder construir o meu próprio mestrado. Foi muito por isso que eu vim para cá fazer mestrado. Ou seja, o meu mestrado é em guitarra clássica, mas estou a fazer disciplinas por todo o lado. Tenho um segundo instrumento no jazz. Estou a fazer canto jazz. Este período da minha vida é muito para estar a fazer tudo e aproveitar o máximo possível do conservatório. Eles também incentivam muito a colaborar com o pessoal dos departamentos todos.
[Beatriz] Altamente. Vi que tu estás a publicar algumas coisas em nome do ISTO NÃO É UM RECITAL, que é um projeto teu.
[Marta] Sim. É um projeto que surgiu há um ano, juntamente com uma grande amiga, que não tem nada a ver com música, mas faz um monte de coisas no teatro, na cenografia e escrita, que é a Beatriz Catarino. Percebemos que estávamos numa fase de sair do clássico e fazermos outras. Partindo daí começámos a apontar defeitos ao clássico. Então ISTO NÃO É UM RECITAL é um concerto que tem como objetivo trazer a música clássica a novos públicos e a novos espaços, onde normalmente isso não acontece. Normalmente é em contextos mais formais e, por isso, desconstruimos algumas tradições do recital clássico tradicional. Na verdade, este projeto faz parte da minha tese de mestrado. Todos os concertos são uma pesquisa onde eu experimento coisas diferentes com o público e vejo o que é que resulta, o que é que não resulta, o que realmente faz sentido nas tradições e o que já não faz, ou para mim não faz.
[Beatriz] Incrível. Estou muito curiosa, quero muito ver-te a tocar ao vivo. Aliás, quando o Matilde me disse que ia conversar contigo foi no Festival Emergente e o meu primeiro pensamento quando eu saí do palco foi: “Onde é que está a minha cerveja? Preciso de uma cerveja e de um cigarro”. E eu fui. A Matilde e a Malva estavam a falar e eu passei só que estava tipo overwhelmed, porque inclusive tinha atirado um tote bag para cima de uma miúda no final do concerto.
[Marta] [Risos] Momento rockstar.
[Beatriz] E, de repente, a Matilde disse-me: “Eu adorava pôr-te a conversar com a Marta” e eu: “Marta Fonseca? Sim! Quero imenso falar com ela.”
[Marta] [Risos] Sinto que podíamos estar seis horas ou seis dias só a falar sobre o quanto odiamos o clássico, mas ao mesmo tempo adoramos. Tenho mesmo algumas coisas que te quero perguntar. Como é que foi a tua transição para o jazz? Sempre tocaste jazz?
[Beatriz] Bem, eu fiz primeiro clássico. Eu toco guitarra desde os 5 anos, sempre clássico, e aos 10 anos descobri o Jimi Hendrix e implorei e chorei todos os dias ao pai por uma guitarra elétrica. Fui falar com o meu professor e ele disse: “não, porque vai estragar a técnica”.
[Marta] Ugh, claro.
[Beatriz] E eu não tive uma guitarra elétrica até aos 19 anos. Obviamente já tinha outros interesses. Já ouvia géneros de música diferentes, mas isso nunca foi um entrave no meu percurso com o clássico, porque sempre gostei muito de guitarra clássica, e é verdade que essa é a minha grande paixão. Senão não tinha capacidade para fazer uma licenciatura em clássico. O turning point para mim não foi bem descobrir o jazz, foi ter começado a compor, porque, quando estava já no sétimo ou oitavo ano, tinha um professor super fixe que é o Eduardo Baltazar que sempre me incentivou a escrever e a descobrir outras músicas e a experimentar outros instrumentos. Aos 13 anos comecei a escrever as minhas próprias peças porque não queria tocar certos estudos. Ia para casa e começava a escrever.
[Marta] Era outra pergunta que queria fazer: tu quando compões escreves na partitura ou tens outros métodos de composição?
[Beatriz] Não. I’m a procrastinator [risos].
[Marta] Claro, todos nós somos. Por isso é que estou a perguntar. Estava a achar demasiado perfeito está tudo escrito.
[Beatriz] Mas é engraçado fazeres essa pergunta porque, por exemplo, quando tinha 13/14 anos escrevia tudo, mas quase como um meio de comunicação para chegar à aula e mostrar ao meu professor. Não queria simplesmente chegar lá e dizer: “Professor, escrevi esta peça” e depois analisávamos. Foi aí que comecei a aprender mais harmonia. Depois quando comecei no jazz, ainda quando estava em clássico, comecei a ter aulas com o Nuno Ferreira no Stop. Havia a Big Band lá em Espinho, que era uma opcional, e eu fiz as opcionais todas de jazz. Depois, durante um ano, fui para Coimbra. Isto com 16/17 anos. Quando estava na Big Band, não estava propriamente a estudar improvisação, estava a estudar mais tudo o que fosse Big Band related music que é também uma das minhas grandes paixões.
[Marta] A guitarra em si é uma Big Band num instrumento.
[Beatriz] Exato. Faz super sentido também estas duas paixões paralelas. Acho que a maior parte das canções do meu disco está escrita [em partitura] exceto a que dá nome ao álbum que é “Oxalá”. Foi a última que escrevi. Quando acabei de escrever, fez-me logo sentido e fui gravar. Nunca gravei um álbum a pensar que o ia tocar ao vivo ou fazer grande coisa. O meu grande propósito ao gravar o álbum era documentar o que tinha escrito entre os 13 e os 23 anos.
[Marta] Ter um portfólio, sim. Gosto bastante do teu álbum, tinha ido ouvir antes desta entrevista e é uma referência para mim, sem dúvida.
[Beatriz] Obrigada! [Risos]
[Marta] Lá está, temos tantas semelhanças que consigo sentir que aquilo que tu queres passar no teu álbum, consegue passar para mim. Acho que percebes o que estou a dizer. Voltando à composição, como é o teu método?
[Beatriz] Tenho métodos diferentes. No álbum todo, houve músicas escritas de formas completamente diferentes. Há uma que se chama “Tasset”, que foi a primeira que eu escrevi quando tinha 13 anos, e acho que essa foi a mais livre, tanto que depois experimentei tocá-la num contexto de trio guitarra elétrica, bateria e baixo mesmo por causa disso porque não há bem uma estrutura. Algumas foram mais: sentar, tocar e as músicas aparecem, e depois há outras que acho que o método já foi diferente. A “Moa” até enviei para a competição do Dutch Guitar Foundation e foi a Kristine e o meu professor de jazz que me ajudaram também a escrever a partitura. Essa já foi algo mais a puxar um conhecimento harmónico. Tinha a melodia, sabia que queria fazer algo mais melódico, sabia bem a cor. Sabia que tinha de ser algo escuro. A partir daí fui construindo harmonicamente a música, e nessa música dá para ver também esse cross-genre, que é mesmo clássico e jazz. É aquele cliché das tercinas da guitarra clássica, que mais parece um estudo, mas também tens a densidade harmónica do jazz. Como estive parada dois anos, estive só a produzir, ou seja, continuei a escrever e a trabalhar com o Ableton. O meu processo pode ser também gravar qualquer coisa e trazer para casa, montar, pôr acordes por cima e deixar a música fluir. Ultimamente, não ando a pensar muito. Não me apetece pensar [risos]. Mas também estou curiosa por saber qual foi o processo de trabalhar com A Sul? Ou seja, estou a tocar pela primeira vez num contexto assim, mais pop, com a Malva. E é engraçado porque ela mostrou umas músicas do poros (2025) e depois começamos a trabalhar as músicas para tocá-las em trio. E isso também foi um processo, tipo, bem interessante. Tipo, diferente de tudo o que eu tinha feito. E eu vejo que tu tens partes mesmo de guitarra. Ou seja, gostava de saber se é algo que está escrito também ou se é algo que tu sabes a harmonia que está a passar e vais tocando.
[Marta] Boa pergunta. Só para dar um bocado de contexto, porque foi muito random a forma como nós nos conhecemos e como nós começámos a trabalhar juntas. Fui parar a um concerto dela, sem sequer saber quem ela era, porque fui ver um concerto de outro amigo meu, o Francisco Fontes, e ela estava a tocar também com ele nesse concerto. Gostei imenso do trabalho dela. Logo depois, segui-a no Instagram e vice-versa. Apesar de na altura estivesse só a tocar clássica, começámos a trocar umas mensagens onde partilhamos inspirações e ideias. Então, mandei assim para o ar se um dia podíamos tocar qualquer coisa. Aquele flirt de trabalho. Ela acabou por me mandar uma mensagem passado uns meses com esta ideia muito concreta: “Quero que tu componhas arranjos das minhas músicas do álbum que estou a fazer, para tocarmos ao vivo”. Inicialmente era para fazermos um ou outro concerto no inverno do novo álbum que ela ia lançar, só que depois correu super bem e acabei por fazer mais arranjos, quase para as músicas todas do álbum. Começámos a tocar ao vivo e depois nunca mais parámos, basicamente. Ela já lançou dois singles, acho que foi um, dois ou três. E agora vai lançar o álbum a 27 de fevereiro. Estou muito excitada. A nível do que eu fiz: ela mandou umas demos muito simples, só voz e guitarra a acompanhar com os acordes. Peguei naquilo com total liberdade. A única indicação que ela me deu foi que queria a presença do clássico na música porque queria fazer mesmo um concerto intimista em que a guitarra é uma coisa muito presente. Portanto, tentei trazer técnicas de guitarra clássica para aquelas músicas. Não há nada escrito, porque nunca escrevo, mas gostava de escrever mais. Porque quando escreves, acabas por ter mais ideias ou, pelo menos, acabas por pôr uma intenção naquilo que compões, que não existe se estiveres só a tocar. Então, gosto da ideia de fazer um bocado dos dois. Foi à base de decorar, gravar e depois nos concertos, acabo por improvisar um bocado. Nunca escrevo porque sempre tive a tendência para decorar tudo muito rapidamente, à primeira. Nunca li com partitura e nunca toco com partitura, mesmo quando era criança, porque eu era preguiçosa para ir sequer buscar a partitura e meter à frente da estante. Na composição também é muito isso. Tenho uma ideia, toco-a e depois estou ali e lembro-me e gravo.
[Beatriz] A primeira vez que ouvi o projeto, estava no Instagram e vi, e fiquei chocada, porque, na verdade, deu-me a sensação que a guitarra está de volta, sabes? A guitarra está no seu revival e é tão bom ouvir músicos como tu. Pessoas que vêm do clássico que também se estão a juntar. Antes da entrevista começar eu e a Matilde estávamos a falar do Salvador Sobral, que tem a influência do jazz, e esta colaboração com a Luísa Sobral também que vem da Berklee, e depois transpõem isso para este meio e é super bonito. Estás a fazer jus ao instrumento. E eu adoro os arranjos e a forma como tu tocas mesmo.
[Marta] Incrível!
[Beatriz] Estava curiosa sobre esse processo, porque, sendo que estás a ter aulas de jazz, estás também a ter provavelmente uma boa harmonia por causa da improvisação.
[Marta] A minha relação com o jazz é uma mistura de admiração, medo e onde é que isto vai parar. Nunca tive propriamente aulas de jazz de forma mais intencional. A maioria do meu conhecimento de jazz vem da curiosidade. Mais recentemente, tive umas aulas de guitarra jazz, pela primeira vez, mas foram só três aulas. Mas logo aquelas três aulas chegaram para perceber como é que funciona a coisa. Como tenho sempre muitos amigos no jazz, foi muito através de tocar com pessoas, de compor com pessoas, de conversar, de perguntar e de experimentar e de ouvir muito. Sempre ouvi muito jazz, portanto sempre tive curiosidade. Quero imenso investir mais porque não gosto de estar nesta posição de querer fazer, mas não fazer. Mas pronto, não há tempo para tudo.
[Beatriz] Também sinto muito medo e muita admiração pelo jazz. Foi uma das relações mais tóxicas da minha vida.
[Marta] A sério? Mais do que o clássico?
[Beatriz] Sim. Muito mais, muito mais. Acho que também é uma pressão diferente. Eu fui a primeira guitarrista mulher da classe de jazz em não sei quantos anos. Durante os meus primeiros dois anos, a maior parte das pessoas achavam que eu era cantora.
[Marta] Ah, claro.
[Beatriz] Não, eu não sou cantora, sou mesmo guitarrista e eles dizem, ah mas cantas?
[Marta] Eia bem. Mas estamos no The Voice ou o quê?
[Beatriz] Então também tinha sempre de me provar. Por acaso, já cantei. Depende do nível de álcool no sangue. Se tiver uma boa garrafa de branco hei-de cantar.
[Marta] Ok, ok! [Risos]
[Beatriz] Achei bom. Também faço karaoke de vez em quando [risos].
[Marta] Lindo, adoro, adoro. Adoro. Por acaso eu gosto de cantar, mas não gosto muito de karaoke.
[Beatriz] Entendo, entendo. Eu acho que o karaoke não é nem para cantar nem para ouvir.
[Marta] Exato. Não é para nada. E tu compões só para guitarra?
[Beatriz] Já compus para outros instrumentos. Aliás, quando estava a fazer a licenciatura, fiz também aulas de composição e arranjos e fiquei muito obcecada especialmente naquela fase em que não estava bem a tocar. Adoro a música e toda a tradição da orquestra de jazz. Ou seja, escrevi para outros instrumentos mas nunca escrevi, por exemplo, uma peça de guitarra e flauta. Gostava imenso de fazer isso.
[Marta] Ou seja, há alguma coisa que tu gostasses de fazer dentro do teu percurso musical que não fizeste?
[Beatriz] Um álbum de música ambient.
[Marta] Ok, let’s go ambient.
[Beatriz] Sem dúvida, é um álbum mais de composições e colaborações, mas sempre na música instrumental. Não tenho grande desejo, nem de começar a cantar, nem de escrever. A minha relação com palavras é complicadíssima, eu expresso-me muito mal. Já passei muito por essa frustração e decidi mesmo dizer que não.
[Marta] Mas hoje está a correr bem não? Eu acho que sim.
[Beatriz] Ah! [Risos] Quando digo expressão com palavras, eu falo de tentar passar as minhas ideias. Eu adoro falar, um outro problema meu é não parar de falar. Eu sou uma yapper.
[Marta] Pois, eu também, por isso é que isto podia ter horas e horas.
[Beatriz] Por curiosidade também, quais são os objetivos que tu vês a nível musical para ti?
[Marta] É difícil responder, porque querer fazer tudo é o meu maior problema. Tenho muitas colaborações, muitas coisas já a acontecer. Tenho uma fome enorme de fazer tudo, não só dentro da música, mas também teatro, dança, qualquer coisa que envolva estar em palco. Eu adoro estar em palco. Sinto muita vontade de explorar muita coisa, mas, em termos mais concretos, gostava muito de fazer uma espécie de portfólio da guitarra: daquilo que a guitarra tem sido para mim desde sempre. Tenho várias composições minhas, umas mais acabadas, outras menos, que gostava de fechar. Depois, estou também a entrar agora nesta coisa de cantar. Não vejo o canto como algo principal, mas gosto da ideia. Não tem de ser sempre a coisa central; é mais um instrumento. Tenho explorado bastante e componho coisas que já têm voz. E colaborar é mesmo a melhor coisa. Qualquer coisa que traga inspiração e ideias que não venham só da minha cabeça ou das minhas mãos é extremamente estimulante.
[Beatriz] É engraçado, porque disseste duas coisas em que sinto que somos completamente diferentes. Eu gosto de estar em palco, mas ao mesmo tempo sou o oposto disso. Não é que não adore colaborar, mas tenho uma certa timidez musical, e isso afeta muito o meu estar em palco. Antes do Festival Emergente, por exemplo, a Malva já devia estar completamente farta de me ouvir. Isto acontece quase sempre: dois dias antes do concerto estou em completo breakdown. No dia do concerto já ninguém me ouve e ela diz-me para ir fumar um cigarro e sair dali. Eu fico intensa, fico chata, ando de um lado para o outro a dizer que não vou conseguir, que não quero estar ali. É um stage fright pesado.
[Marta] Isso é síndrome de compositora. Acho que nisso és mais compositora do que eu.
[Beatriz] Completamente. Fico em pânico. No primeiro concerto da Malva, que foi também o meu primeiro concerto, há uns três anos, foi mesmo muito intenso. Depois continuei a fazer concertos, mas tive sempre um peso diferente. Também porque agora estou a tocar depois de um processo muito grande: foi uma mistura de reabilitação física e psicológica. Fui guitarrista a vida toda, estudei sempre nesse sentido, e cheguei a ouvir de mais de 20 médicos que tinha de mudar de carreira. Foi lutar contra a maré com muita força de vontade.
[Marta] E agora, como é que isso está?
[Beatriz] Está bem, mas tenho de ter cuidados constantes. De dois em dois meses faço fisioterapia, especialmente antes e depois de grandes concertos ou situações de stress. Tomo medicação para dor neuropática, mas um nervo demora muito tempo a recuperar. O mais importante é que já não sinto aquela dor aguda 24 horas por dia, e isso ajudou muito o meu estado de espírito. A nível técnico, sinto menos destreza.
[Marta] Achas que isso é da lesão ou do tempo em que estiveste parada?
[Beatriz] Acho que é um misto dos dois. Há uma linha que sinto que já não consigo ultrapassar, porque não posso ficar tantas horas a tocar. Isso mudou completamente a forma como estudo. Agora, tem de ser tudo muito mais minimalista e assertivo. Se quero trabalhar algo específico, tenho de planear muito bem. Estudo muitas vezes sem instrumento. Temos um piano em casa, então exploro escalas, sons, possibilidades só com a mão direita. Porque chega uma altura em que já conheces o instrumento, sabes onde está tudo. O estudo passa a ser mais mental: saber o que queres e depois concretizar com menos repetições. A resistência física diminui muito. Nos meus concertos, por exemplo, agora só faço duas músicas em guitarra clássica. Não aguento um concerto inteiro assim. Também porque há três peças tecnicamente difíceis, uma delas em sol sustenido menor com barra.
[Marta] Eu também tenho uma afinação super grave em sol sustenido.
[Beatriz] Eu tentei fazer em ré para ligar com outra música em open B, mas não gostei. Sou muito específica com tonalidades. Acho que cada tonalidade tem uma cor e uma emoção própria.
[Marta] Isso nota-se muito na escrita. Pequenas diferenças mudam tudo, e isso vem muito da formação clássica.
[Beatriz] Sem dúvida. A formação erudita está muito gravada em mim, mas depois sou mais rock’n’roll, mais suja a tocar. E tu, como te defines? O que é que tocas?
[Marta] Agora digo simplesmente que faço música instrumental. Descobri que assim as pessoas fazem menos perguntas. Se digo clássico, ficam com isso na cabeça. Se digo jazz, também não me sinto totalmente aí. Então, digo música instrumental.
[Beatriz] Essa questão da identidade é mesmo complicada. Eu também digo que sou guitarrista clássica, mas faço um bocado de tudo. E acho que esta divisão clássico/jazz é um bocado a bissexualidade da música [risos].
[Marta] Totalmente. Tenho mesmo de ir votar, mas deixo uma última pergunta: para o teu álbum, que referências tens?
[Beatriz] Víctor Herrero, Raül Refree, Yamandu Costa. Guitarristas brasileiros como Raphael Rabello e Baden Powell. E Julian Lage, sem dúvida.
[Marta] Tudo guitarristas, interessante. As minhas referências curiosamente não são tão guitarristas. Aquele álbum do Luíz Bonfá, o Introspections (1972), mega referência. Tenho muita inspiração de piano: Chick Corea, especialmente a “Children’s Song”, Bill Evans, Ryuichi Sakamoto. Tento escrever para a guitarra como se estivesse a escrever para piano. Acho que isso falta um bocado na música fora do clássico. Há um álbum incrível com obras do Sakamoto transcritas para guitarra.
[Beatriz] Tenho de ouvir isso. Vamos trocar playlists.
[Marta] Combinado. Vou enviar-te muita coisa.
Nota: Como as referências eram tão ricas, decidi deixar-vos a playlist da Beatriz Madruga. Boas escutas!

