E com Vida Salgada, tudo mudou para Filipe Sambado. Após uma série de EPs – Isto é coisa para não voltar a acontecer (2012); 1234 (2012); Ups…Fiz Isto Outra Vez (2014) – onde Sambado refinou, de forma progressiva, a sua escrita e abordagem à canção, Vida Salgada serviu como apogeu dessa sua primeira fase artística e como momento de transição para o que se seguiria daí para a frente no pós-Filipe Sambado & Os Acompanhantes De Luxo (2018).
Dois anos antes de Vida Salgada ser lançado em março de 2016 (faz dez anos este mês), Filipe Sambado cantou na primeira canção de 1234 (apropriadamente intitulada de “1”) o seguinte: “Não gosto de ‘tar sozinho / Não gosto nem um bocadinho”. Esse desejo de não querer viver uma “vida insossa”, como declarou à Altamont em 2016, existe em preponderância nas canções de Vida Salgada, que surgem através do embate entre a Sambado do passado (a que cresceu entre o Alentejo e o Algarve) e a que encontrou na sua terra natal, Lisboa, uma casa onde começou a vestir a sua pele como ninguém. É sobre isso que canta em “Moda”, belíssima canção que inicia o álbum: “A condição desta pele é saber que ninguém / A sente como eu nem a veste tão bem”.
“Moda” também nos introduz à sonoridade de Vida Salgada. Nas canções do primeiro longa-duração de Filipe Sambado ainda se escuta alguma da energia lo-fi (estilo Cafetra) que caracterizava o trio de EPs que precederam o álbum. Porém, em Vida Salgada, esse ruidozinho (particularmente aquele que se escuta em Ups… Fiz Isto Outra Vez) surge como um extra à distorção bem oleada que abunda em todo o disco.
Se algo define o som destas canções, são as suas camadas sonoras que nos submergem. Estas são cantigas feitas a pensar em ondas do mar, representadas através da sobreposição de sintetizadores, vozes e guitarras. Nesse sentido, Vida Salgada é um disco algo maximalista. Revela a influência que o shoegaze dos my bloody valentine (crucial para uma certa androginia que paira sobre o álbum), a dream pop dos Cocteau Twins, as experiências sonhadoras dos Beach Boys em canções como “All I Wanna Do” e “Won’t You Tell Me”, e o rock “relaxado” de Mac DeMarco e Connan Mockasin (influências bem escutáveis na caótica “Subo a Montanha” e na emocionante “Aprender e Ensinar”) tiveram em Filipe Sambado.
Essa colisão de influências faz com que as canções de Vida Salgada soem próximas de uma espécie de vaporwave apresentado em formato de canção. Se Filipe Sambado precisava de encontrar paz, as canções deste disco representam a trama de como iniciou esse processo, que só concluiria com o lançamento de Três Anos de Escorpião em Touro (2023), bem mais de meia década após o lançamento de Vida Salgada. Quando em “Talha Dourada” declarou que não tinha mais “medo de ser”, isso só pôde ocorrer porque em “Aprender e Ensinar” tinha cantado “Mas sempre que deu / Tentei ser outra pessoa / É da minha natureza”. Se a natureza de Sambado era disfarçar quem era, Vida Salgada é o álbum onde começou a despir as cores do camaleão que se havia tornado.
Contudo, a grande revelação de Vida Salgada ocorre quando enquadramos o álbum numa exploração das dinâmicas complexas entre os sítios marginais onde Filipe Sambado cresceu e a Lisboa onde acabou por fazer vida. Nesse aspeto, podemos afirmar, sem grandes dúvidas, que Vida Salgada é um disco mais “emo” do que parece à primeira vista. Pode não existir grandes gritarias ao longo do álbum (fora alguns dos coros da excelente “Nó do Peito”), mas a análise da relação “complexa de amor/ódio” que temos com os “lugares mundanos” que crescemos, como assinalou Leah Weinstein a escrever sobre os Cap’n Jazz, pioneiros do emo, está muito presente nas canções de Vida Salgada. Talvez tenha sido isso que Sambado quis dizer quando afirmou não querer viver uma vida insossa.
Parte disso deve-se, claro, ao seu passado. Sambado cresceu entre o Alentejo e o Algarve (mais concretamente, Lagos), portanto é natural que estes sítios se tenham entranhado na sua psique. Começou a rimar em Lagos (foi no hip-hop onde desenvolveu as suas primeiras experiências musicais), ainda antes da guitarra e da bateria passarem a fazer parte do seu dia-a-dia.
Porém, só em Lisboa, para onde veio aos 19 anos estudar Dramaturgia na Escola Superior de Teatro e Cinema, iria perceber como transformar aquilo que pretendia dizer nas palavras que queria (e precisava) de cantar. Sentiu o impacto da FlorCaveira, da Cafetra, e dos múltiplos coletivos/editoras (como a Spring Toast Records, editora responsável pela edição inicial de Vida Salgada, ou a Maternidade, que ajudou a fundar) e bandas (como os Cochaise, dos quais fez parte) que surgiam em cada esquina numa Lisboa efervescente entre o final da década de 2000 e o início da década de 2010. Essa Lisboa já não existe, mas a sua utopia habita, como um fantasma, alguns dos álbuns desse período. Vida Salgada é um deles.
É essa faceta “lisboeta” que representa o “outro” lado da artista. Aquela que viu n’Os Pontos Negros, nas Pega Monstro, em João Coração ou n’Os Passos Em Volta referências para entender como fazer das suas tripas coração, dos seus sentimentos palavras fortes e (crucialmente) honestas que comunicam mundos. É essa honestidade que dá vida à “inquietação”, como sinalizou Mário Lopes no Ípsilon em 2016, que se escuta ao longo de Vida Salgada. E é essa inquietação, claro, que acaba por afogar as canções de Vida Salgada num emo escapista que representa as confusões que pairavam (pairam?) pela cabeça de Filipe Sambado na busca de si a confusão geográfica, pintada pela dicotomia entre a Sambado que já lavrou “terra no campo” e lançou “redes ao mar”, e a Filipe que não podia ficar sentada porque ainda tinha tanto “para cantar”; e a busca pela sua identidade de género, já cantada em “Gaja” de Isto é coisa para não voltar a acontecer, que aparece de miudinho em faixas como “Moda” e “Tou Confuso”. Sambado precisava de saber quem era e Vida Salgada foi um disco crucial nesse percurso.
No entanto, apesar de todo este contexto ajudar a entender porque é que Vida Salgada é um grande disco, esse estatuto não seria possível de lhe ser concedido se as canções que Filipe Sambado escreveu não fossem estonteantes. Este seu indie com tanto de rock como de pop, por mais enublado (assim o descreveu Mário Lopes) e inquieto que seja, tem tanto, mas tanto, de orelhudo, que se torna impossível ignorá-lo. Os refrões, com o equilíbrio quasi-perfeito entre amargo (na letra e sentimento) e doce (nas melodias), nunca se tornam cansativos.
Talvez seja por isso que, nestes dez anos que já passei em Lisboa, encontrei tanto(s) refúgio(s) nas canções que Filipe Sambado escreveu. E é por isso que eu, como outros tantos (e que, se calhar, deviam ser mais ainda), partilhamos ainda, apesar de tudo aquilo que nos rodeia, o desejo que mais se destaca de todo o álbum: “Antes queria não viver / Do que andar a viver mal”.
Vida Salgada é celebrado com dois concertos no final de março e início de abril. A 27 de março, Sambado toca no Radioclube Agramonte, no Porto, e a 4 de abril, na Casa Capitão, em Lisboa. Os bilhetes podem ser adquiridos para as respetivas datas aqui e aqui.

