O DESABROCHAR DOS LÍRIOS
“Preciso de mais tempo para concretizar as promessas que fiz quando o mundo andava mais devagar”. Esta é uma frase escrita por Justin Sullivan, inglês, vivo, vocalista e letrista de uma banda de nome New Model Army.
De facto, o mundo acelerou e por essa razão vai aumentando o gap geracional. Quando não somos a novidade, passamos rapidamente ao clube muito pouco restrito dos ultrapassados. Os meios-termos são apenas uma curta porta de passagem. Mas qual é a pressa? Essa apenas nos retira capacidade para refletirmos cada passo que damos, e sem essa reflexão passamos a ir apenas para onde os outros vão. Seguir o rebanho e não ficar para trás, pois “ficar para trás” será visto como uma demonstração de fraqueza. Desacelerar significa, sem dúvida, afastar-nos da linha da frente, mas e se essa linha da frente se estiver a direcionar a passo rápido para o abismo? Desacelerar passa, assim, a ser um ato de cautela e acima de tudo de resistência. Sim, desacelerar… de-sa-ce-le-rar. Deixar que a nossa linha de reflexão se estenda para não termos de processar muita informação num muito curto espaço de tempo. Contrariar ativamente a superestimulação que nos empurra para a ditadura da constante procura.
Em 2010, numa peça de teatro japonês (Teatro Noh), a primeira ação dessa peça começa com um guerreiro a atravessar uma pequena ponte de uns 5 metros de comprimento. Leva aproximadamente 15 minutos até chegar ao outro extremo da ponte. Passos muito lentos e um corpo que se desloca a uma velocidade que nos permite reparar em todos os pequenos detalhes. A plateia (eu incluído) assistiu em silêncio e pacientemente ao avançar lento dos movimentos daquele corpo, enquanto analisava pormenores do complexo fato de estilo “Samurai” com o vagaroso contorcer dos seus panejamentos, e aos detalhes de uma máscara com cinco séculos e que seria também, só por si, um dos destaques desta apresentação.
O folheto que foi dado aos espectadores explicava o contexto da peça dizendo apenas que os lírios estariam a desabrochar e parecia que todos nós acompanhávamos lentamente o desabrochar dos lírios, um exercício de contemplação muito satisfatório e ao mesmo tempo quase doloroso para seres dependentes da aceleração do dia a dia. Quando este guerreiro finalmente chega ao seu destino, anunciado com o toque de um pequeno sino, todos expirámos o ar que esteve retido nos pulmões durante esses 15 minutos e esse foi também o som que ressoou pela sala nesse momento. Parecia que tínhamos ficado exaustos com tal exercício de contemplação.
A peça continuou, mantendo uma cadência que abria espaço para o ressoar demorado dos sinos e onde os poucos diálogos eram expressos com palavras que pareciam ser ditas letra a letra. Foi uma experiência forte e reveladora. No cinema minimal podemos ter planos longos e com pouca ação, o que nos permite uma análise detalhada do enquadramento.
Na música, em algumas ocasiões, ensaiam-se peças em velocidades mais lentas para poderem ser devidamente interiorizadas e compreendidas e só depois se aumenta a velocidade para, supostamente, podermos acertar o passo com os tempos em que vivemos. Resumindo, esta aceleração compromete a nossa capacidade de análise, quanto a isso parece não haver dúvidas, e basta vermos o mundo que temos em 2026 para reafirmarmos essa constatação.
Estamos a andar rápido demais e sem tempo para refletir sobre as consequências das nossas ações! Vamos ter de fazer um exercício contrário ao nosso ímpeto natural de desenvolvimento e forçar uma desaceleração que nos permita refletir sobre as más decisões e afinar a estratégia de forma a tentarmos encontrar o equilíbrio necessário para uma sociedade mais justa.
Se calhar já vamos tarde demais para levar a cabo esta desaceleração, e a nossa sociedade como está montada seguirá desnorteada e sem travões, travões esses que terão sido habilmente comprometidos por encomenda; sim, haverá sempre alguém a esfregar as mãos de contentamento com o desnorte geral da nossa sociedade, pois quando alguns choram, outros vendem lenços. Boa viagem!
Trovoada é o mais recente longa-duração d’O Gajo, projeto a solo de João Morais. A 23 de abril, O Gajo celebra dez anos de carreira com um concerto a acontecer no B.Leza, em Lisboa. Podes escutar Trovoada abaixo e podes adquirir bilhetes para o concerto no B.Leza aqui.

