“A gente vê-se por aí”. Esta é, provavelmente, a última mensagem de uma banda que, com uma passagem relativamente curta ou, melhor dizendo, anónima, na música em Portugal e em Lisboa, nos deixou um único EP que continua a ser, para alguns, um trabalho extremamente marcante. Falamos dos GNU, trio composto por António Belo (bateria), Francisco Carvalho (baixo) e Pedro Pereira (guitarra), que surge em 2017 e lança o EP Saxo em 2020, em plena pandemia, um projeto que ainda se revela como um dos mais interessantes dos últimos anos na esfera do midwest emo e do pós-hardcore em Portugal.
Depois de um fim silencioso no final de 2023, a banda voltou a dar sinais de vida no início de 2026 com o lançamento surpresa de um segundo EP contendo músicas que ficaram engavetadas: “written pre-singularity”, como a própria banda descreveu no seu Instagram. O projeto, denominado simplesmente EP2, é um lembrete para quem os viu chegar e, depois, partir, de que os GNU poderiam ter tido um real legado no rock alternativo português. No entanto, quando o ouvimos, é impossível não sentir que é um esforço inacabado, um conjunto de músicas que foram lançadas como descarga de consciência, um pequeno miminho para quem os apoiou ao longo do seu percurso.
É apenas em Saxo, então, que conseguimos ver os contornos de um trabalho com potencial para ser comparado, de igual para igual, com alguns dos nomes mais sonantes da esfera do pós-hardcore português. Olhando os Hetta, seus conterrâneos e parceiros durante o começo dos seus respetivos percursos, ou mesmo os Adorno, embora ocupando lugares distintos no que toca às suas principais influências e linhas criativas, não é difícil notar semelhanças que o indiciam. E se os Reia Cibele são, ainda hoje, vistos como banda de culto no seio do underground musical português, podemos argumentar que os GNU sofreram, talvez, algum azar naquilo que foi o reconhecimento que ganharam ao longo do seu percurso. Não é por isso que se torna menos relevante celebrá-los agora, pouco mais de dois anos depois da sua despedida. Pelo contrário; quanto muito, torna-o ainda mais necessário. Já se passaram mesmo cinco anos desde Saxo?
Saxo é, nada mais nada menos, do que uma experiência. Ou seja, é um teste. Uma experimentação do som que poderá caber dentro das caixas do midwest emo, do hardcore ou do screamo, e do que poderá estar adjacente às mesmas (a banda seria a primeira a assumir o seu repúdio a categorizações demasiadamente deterministas). É também um teste por ser ainda um diamante em bruto, irreverente ao ponto de perder forma, um bolo alimentar de melodia, ritmo e harmonia que, embora siga um raciocínio lógico, não aparenta querer levar-nos a lado nenhum tematicamente à primeira vista. Ao mesmo tempo, acolhe no sentido figurado essa mesma palavra, através de uma imersão imunda, um poema sem palavras gritado a uma almofada, o suor coreografado de um moshpit. Saxo é uma experiência, acima de tudo, porque é difícil de descrever através da palavra.
O próprio nome do álbum torna-se, coincidentemente, representativo: quem percebe alguma coisa de carros saberá a pica que conduzir um Citroën Saxo dá, um clássico shitbox do início dos anos 2000 com aceleração suficiente para compensar a falta de potência. Este remete-nos, metaforicamente, para o espírito DIY do projeto, preenchido de entusiasmo e de uma rapidez própria da juventude, tal como o sentimento de puxar pelo primeiro carro no qual pegamos depois de tirar a carta, essa adrenalina irresponsável presente em qualquer obra artística coming-of-age alguma vez feita. Neste EP, esse sentimento transparece de forma verdadeiramente honesta e sem complexos. É a fonte de mais um binómio num projeto que se deixa definir por contrastes ao demonstrar vulnerabilidade por nunca explicitamente a ter presente, tal como um rapaz ou rapariga adolescente que internaliza a sua angústia.
Quando encontramos “Tão”, a primeira faixa do EP, rapidamente damos de caras com acelerações e desacelerações aplicadas ao riff inicial da mesma que capturam facilmente a nossa atenção. Em apenas 50 segundos, os GNU levam-nos num ritmo estonteante por estas alterações, o que poderia desvirtuar as ideias apresentadas. Ao contrário, essa esquizofrenia é capaz de transmitir uma caoticidade emocional que marca a essência contrastante do álbum e da própria experiência de ser jovem adulto.
A primeira canção do EP segue ainda uma estrutura geral que contém paralelos com as músicas seguintes, funcionando musicalmente como o típico enredo de uma história: começa com a apresentação de um motivo, que se desenvolve de encontro a uma secção mais tensa, que depois é resolvida num clímax que implicitamente nos transmite como que uma vontade de fugir ao “problema”. Essa falta de conforto em ser verdadeiramente vulnerável e permitir que a música termine numa nota mais tensa repesca um sentimento cronicamente juvenil, que torna esta canção e o projeto num todo em algo extremamente nostálgico.
Se “Tão” é uma das canções mais leves a nível emocional do curta-duração, “Bdownsmash” rege-se em definitivos pelos contornos mais gritantes do midwest emo. Embora siga uma estrutura similar à faixa que a precede, “Bdownsmash” nunca atinge o mesmo nível de êxtase, estando impregnada numa emoção agridoce difícil de identificar. Se “Tão” nos pinta um quadro que nos remete a uma ânsia veranil, ou a uma expectativa que não foi correspondida, “Bdownsmash” coloca-nos num lugar muito mais depressivo, contemplativo, de perda, o que muito se deve ao seu ritmo mais lento e arrastado. Por sua vez, “Pedrinho” é a faixa que menos aparenta querer transmitir algo, não por isso sendo menos interessante. Com o seu ênfase na velocidade e menor carga emocional, é uma boa forma de limpar o palato depois da amargura da faixa anterior (e a melhor música do EP para acompanhar com air guitar).
Chegamos, então, à fan favorite “Tostas”, a quarta das cinco canções do EP. É a faixa mais enternecedora do curta-duração e a mais orelhuda. Não lhe falta tensão para contextualizar o que é, de certa forma, uma homenagem ao local que viu o trio crescer. Há uma nostalgia notória no motivo inicial da faixa, apresentada pelo riff da guitarra, que imediatamente nos transporta para o imaginário do midwest emo à moda dos American Football, mas que não deixa de conter a marca própria dos GNU.
Tal como nas outras faixas do EP (exceto em “Bdownsmash”), não existe grande lírica presente, mas “Tostas” destaca-se por ser aquela em que esta é mais clara para o ouvinte, ou pelo menos para o ouvinte que está familiarizado com o Montijo. São duas estrofes que descrevem, de forma algo destoante à primeira vista com o resto da sonoridade da faixa, como é difícil arranjar um snack nesta cidade, com referências ao Domus Bar, ponto de encontro mítico para os montijenses, ou à Jardia, uma localidade nos arredores. É fácil de entender, no entanto, que esta é se calhar a melhor forma que os GNU encontraram de nos entregar uma ode à vida do jovem periférico, de uma cidade nas margens do centro urbano, pequena demais para aspirar a lá encontrar uma comunidade alternativa que o acolha. O Montijo, ainda assim, foi e vai dando cartas como um reduto do pós-hardcore nos arredores de Lisboa (lembrar os grandes e influentes Moe’s Implosion), o que não implica que os três músicos não pudessem ter sentido precisamente isso na sua adolescência, tal como outros jovens que, até vivendo no centro da capital do nosso país, se poderão ter sentido deslocados nos seus círculos sociais como é tão comum nessa idade. É este sentimento, de certa forma universal, que pauta o universo de Saxo e em particular de “Tostas”. Sendo a música menos experimental do EP, é também aquela que, por isso mesmo, melhor o define, ao ser a que de forma mais sóbria é capaz de captar a própria essência da banda: três amigos que tocam porque não sabem o que fazer além disso.
“Tostas” seria uma grande escolha para fechar o disco, mas temos ainda direito a “Gatafunho”, uma peça noise que faz jus ao nome, um rascunho em que apenas a guitarra se faz ouvir, contorcendo-se entre feedback e modulação em completa disforia com o resto do projeto. É quase como se a banda nos quisesse dizer que não temos direito a um final feliz, que a mesma confusão e falta de rumo juvenil ainda se faz sentir nos membros da banda. Alternativamente, até poderá ser uma interpretação da idade adulta, da realidade a intrometer-se neste mundo do teenager emo que, embora possa não ter sido feliz nessa altura, quando olha para trás, apercebe-se da sorte que tinha.
Talvez seja uma grande metáfora para EP2 este final que nos dá “Gatafunho”. Se os GNU tivessem efetivamente lançado um segundo projeto, será que o que nos entregariam iria elevar a barra estabelecida? EP2 foi apenas um soluço, uma forma de não desperdiçar trabalho, mas contém várias músicas que, nos concertos que a banda deu mais perto da sua despedida dos palcos, compunham o grosso do seu alinhamento. Com um runtime de apenas 19 minutos, Saxo não chega para preencher um set ao vivo comum. De qualquer forma, ainda se encontram hoje no YouTube vídeos de concertos ao vivo da banda em que as músicas de Saxo eram um detalhe no seu grosso. EP2 está longe de ser um disco fraco, mas não demonstra grande evolução em comparação ao que ouvimos dos GNU no seu primeiro EP. Quando fazemos as contas ao tempo entre o lançamento de Saxo e o último concerto da banda, falamos de um período mais longo que dois anos. A pergunta volta a surgir: será que sairíamos desapontados de um segundo lançamento dos GNU? Nunca obteremos uma resposta a essa pergunta, por mais curiosidade que alguns dos fãs do trio poderão ter.
Por outro lado, a promessa que a banda nos deixou ao disponibilizar EP2 concretizou-se. Temo-los “visto por aí”, nomeadamente, António Belo enquanto baterista dos já reputados clericbeast, ou Pedro Pereira nos Musgo Fusco e nos Big Lie, embora com menos visibilidade. A exceção é Francisco Carvalho, que deixou o país. Tanto os clericbeast, que atuam no mesmo espaço criativo que os GNU ocupavam, como os Musgo Fusco ou os Big Lie, que estão ainda por anunciar trabalho gravado mas que se vão apresentando por alguns palcos em Lisboa e na Margem Sul, são projetos que demonstram grande potencial. Os clericbeast, em particular, fizeram aquilo que os GNU não tiveram oportunidade de fazer: subir a fasquia estabelecida com o seu EP homónimo de 2022 por meio de Restless Dreams, além de contar com presenças internacionais e em grandes palcos do ecossistema musical alternativo português, como o festival MIL.
Há um debate muito antigo, na arte ou no desporto, sobre o que é preferível: reformar-se no auge, ou continuar até não dar mais? Também é extremamente comum a pessoa ou o grupo em questão ver-se sem escolha. Talvez seja precipitado levantar este debate para uma banda como os GNU. Lançaram um EP que, embora seja capaz de deixar marca, está longe de ser perfeito, o que é natural para um primeiro projeto. Igualmente, são um dos casos em que é dúbio se houve, efetivamente, grande oportunidade de escolha no desfecho desta história. Com um membro no estrangeiro, e já dois anos e pouco de ausência, é inútil esperar um regresso. Mas é precisamente disso que Saxo fala. Do valor da existência de um lugar, de um momento que, por mais aborrecido, triste, melancólico, ou mesmo agoniante, esteve lá, e do qual temos memória. Os GNU poderão sempre dizer que conseguiram, através da música, capturar esse sentimento.
O que podemos pedir mais? É justo deliberar que não é o projeto mais tecnicamente bem conseguido, que não é influente, ou até mesmo que, para alguns que efetivamente se depararam com eles, não lhes tocou. Mas pelo reverso da moeda, é certo que não era esse o objetivo do trio de amigos do Montijo. António Belo, Francisco Carvalho e Pedro Pereira, mesmo que não se tenham apercebido, deixaram-nos um legado: o seu. E a partir do momento em que um adolescente no seu quarto, para ele ou ela essa fortaleza que os protege do resto do mundo, descobrir de alguma forma a sua música e se sentir abraçado, eles já ganharam. E se quisermos falar de certezas, a partir do momento em que alcançaram, em espírito, alguns dos agora adultos que os descobriram em qualquer fase da sua vida, já ganharam também.

