SER E NÃO SER
Estou a escrever este texto na primeira semana do lançamento do meu segundo disco de originais: Acordava cansada. E, inevitavelmente, tudo o que escrevo tem essa sombra ou essa nuvem a acompanhar. O título que escolhi para este disco é o nome da segunda canção do mesmo. Escrevi essa canção uns dias depois de ter entregue a minha carta de rescisão de contrato. A letra da canção fala sobre como o desgaste físico e emocional me tornou numa pessoa irreconhecível para mim própria e para quem me rodeava. E era tudo porque passei anos a acordar cansada dias seguidos. À espera de fins de semana prolongados ou dos 15 dias de férias seguidos anuais para repor energias.
A grande maioria dos meus dias de férias de 2019 a 2025 foram usados para fazer música: quer seja para fazer discos ou para dar concertos. As férias eram para trabalhar também, na realidade.
Fez há umas semanas um ano que me despedi do trabalho de escritório que tinha, e aquilo que tenho aprendido no processo de “arriscar e viver o meu sonho” e, na sua continuação, dum lançamento pensado na sua totalidade exclusivamente por mim, têm sido sobretudo estratégias para regular e integrar como uma ferramenta a solidão que sinto nesta “indústria”. Uso aspas porque chamar indústria a um sector semi-profissionalizado é uma piada.
Em 2018 quando lancei o meu primeiro single e fiquei feliz por sentir que pertencia a alguma coisa. Tinha 22 anos, estava a entrar num mundo que me deslumbrava: finalmente conheci as pessoas que, achava eu, pensavam e criavam e viviam a música de uma forma muito semelhante à minha. O deslumbramento foi algo que se desvaneceu à medida que o meu cortex pré-frontal ficou totalmente formado. A noção de perigo e da “morte sempre à espreita a pairar tão perto” (Marta Fora do Tom, “Pinga Amor”, 2025) trouxeram com elas um profundo cinismo acerca desta indústria.
Tive a infelicidade de chegar ao “indie”/”música alternativa” numa altura em que os grandes nomes já estavam definidos (e têm o seu lugar assegurado hoje). Numa altura de transição do digital pré-pandémico para o pós-pandémico. Tudo passou a acontecer online, e as ligações sociais tornaram-se mais difíceis de fazer.
Os artistas podem ser diferentes, mas se forem demasiado diferentes do que o estabelecido pelo “indie cred”, são cringe. Ou então, são sempre cringe se não tiver sido declarado na assembleia geral do indie que és “fixe”. Aos 30 anos pergunto: porque é que ainda andamos todos a tentar provar que somos fixes? Porque é que agimos como se partilhar um vídeo nosso na Internet fosse chamar o nosso bully do secundário de volta?
Posso ter ficado mais “bicho do mato” depois da pandemia, mas sinto que o networking não só é mais forçado como também é mais difícil de ser feito se não fores alguém que vem de alguma coisa que já exista. De um grupo específico. E acima de tudo se não fores minimamente consensual na assembleia indie.
É difícil precisar qual o momento exacto em que comecei a sentir que não fazia parte. É algo que viveu sempre comigo. Em terapia já consegui deslindar que vem em grande parte da maneira como era percepcionada por fugir à norma, já desde a primária. Sempre fui esquisita e foi sempre algo que ativamente tentei contrariar.
Aos 30 anos cheguei a um lugar em que entendo que a minha maior valência é mesmo estar de fora, mas navegando por dentro. Ser observadora e participante, sem praticamente qualquer tipo de participação em conveniências sociais que a indústria da música usa como moeda de troca, para nunca se chegar a profissionalizar.
Antes de me despedir do meu “trabalho a sério”, tinha o sonho de viver só da música que fazia. Tem sido uma surpresa, agora que não estou tão refém das amarras do capitalismo como estava quando vendia o meu tempo a uma empresa de transportes, perceber que não só isso é impossível como é algo que não quero para mim. E está tudo bem. A minha música deve ser algo que existe fora disso, para ser aquilo que realmente é.
Para pertencer, é preciso ser moldado, e eu não vejo aquilo que eu faço como algo que deva ser minimamente moldado. É aquilo que é, sendo sempre aquilo que não consegue ser. É, porque não consegue ser de outra forma. Tal como eu, sou música executante, mas também sou produtora. Sou cantautora, mas também misturo discos. Nunca sou nada a 100%, mas também quem é que consegue ser? Rendi-me à minha escassez existencial.
O que o não pertencer limitou em termos do possível eco sobre aquilo que crio, potenciou em ferramentas alternativas que tive de desenvolver para sobreviver se quiser “viver da minha paixão”. Não vivo dos direitos que faço na SPA das minhas canções, não tenho um público substancial para esgotar salas, para viver de fazer clubes e ganhar das bilheteiras. O eco não se faz sentir no vácuo do meu pequeno espaço desta indústria. Pode alguma coisa sequer existir no vazio? Talvez seja por isso que não pertenço. Talvez, no limite, ninguém pertença realmente a nada porque nada pertence ao vazio.
Ter sido excluída e ter saído consecutivamente de grupos da música permitiu-me desenvolver todas as competências que tenho hoje: não sendo uma coisa que queria ser, tornei-me noutra. Não pertencer fez-me poder concretizar o meu potencial paralelo, e tornar-me num projecto em continuação. Em paz com o meu não lugar, que se vai cavando enquanto não se pertence.
Escuta Acordava cansada, o novo álbum de Catarina Branco, abaixo. O disco é apresentado no próximo dia 2 de maio, na BOTA, em Lisboa. Os bilhetes podem ser adquiridos aqui.

