A minha escrita, assim como eu, vai sofrendo alterações ao longo do tempo. Estou condicionado por aquilo que acontece à minha volta para poder criar, dos gestos e detalhes que considero curiosos e despertam a obrigação em serem registados. É curioso voltar atrás e ler a tonalidade de cinzento dos diferentes tipos de lápis que fui utilizando, assim como as distintas caligrafias que sugerem a forma como me sentia enquanto escrevia, ou a minha preguiça em escrever.
Num simples caderno que dorme ao meu lado na mesa de cabeceira guardo alguns poemas, se é que lhes posso chamar assim, uns que são conhecidos nas minhas canções e outros que provavelmente não terão a oportunidade de viajar por nenhuns outros olhos. Deixo-vos três “inéditos”, esta é a minha forma de lhes dar um pouco de vida, talvez nem tudo o que escrevo tenha de ser uma canção.
Estes poemas são retirados dos rascunhos que deram forma ao meu novo disco Capotar, escrito entre 2023 e 2025 e lançado em abril deste ano.
Desequilíbrio
O desequilíbrio
Nos solavancos do autocarro
Balançamos juntos como um tudo
E mesmo assim é tão só
Nos solavancos do autocarro
Empurramos todos
Quando queremos desaparecer
O desequilíbrio das escadas rolantes
A trincarem todos os figurantes
Com dentes de aço
Que selecionam os corpos mais frágeis
As personagens menos ágeis
E fá-las desaparecer
No desequilíbrio das travagens do metro
Todos procuram uma forma de segurar
Os seus leves corpos
Todos procuram salvação
Estilhaçados
Estilhaçados os copos no soalho
Ameaçam a circulação
Em cada gota de orvalho
A nossa ferrugem esconde
O que há por trás
Os segredos estilhaçados
Não nos vão matar
Os cigarros apagados
Vão-nos denunciar
Entre prédios devolutos
Uma cintura desliza entre duas mãos
Os espiões que espiam pelos vãos
Descobrem tudo ou nada
Tudo ou nada
Os segredos estilhaçados
Não nos vão matar
Os cigarros apagados
Vão-nos denunciar
Filme
O meu ouvido ambicionava
Ouvir-te do outro lado
Do telefone debruçado
Até de manhã
Num sonho onde figuras
Como um recomeço
Eu nunca me aborreço
De te ouvir e ver-te existir
Onde estou
Podes escutar Capotar, o novo disco de Francisco Fontes, abaixo.

