O silêncio que ressuscita Zurita de Oliveira

Em plena ditadura, chegou a Portugal, sorrateiramente por influência estrangeira, o rock.

A partir de meados da década de 50 e até finais da década de 60, a crescente popularidade do movimento yé-yé moldava o rumo da sonoridade das guitarras, ritmos e letras. E quem foram os grandes protagonistas desse momento da música em Portugal? Os homens, pois claro. Exceto…  Zurita de Oliveira. Guitarrista, compositora, e vocalista, Zurita tornou-se num símbolo de resistência só pelo simples facto de subir a um plano e captar a atenção de qualquer um com o seu virtuosismo a solar.

Contudo, quem era Zurita de Oliveira? Qual a sua história e porque é que esta ficou deixada de parte, apenas encontrada por melómanos e curiosos da história da música popular portuguesa? As respostas a essas perguntas tentam ser encontradas no novo filme de Francisca Marvão: Quem Tem Medo de Zurita Oliveira?. A longa-metragem, que estreou na mais recente edição do festival IndieLisboa (secção IndieMusic), é, ao mesmo tempo, homenagem, provocação e ato de memória coletiva. Num encontro marcado pela franqueza e pelo entusiasmo de quem acredita no poder do cinema como arquivo vivo, a realizadora conversou com a Playback sobre direitos de autor desaparecidos, mortes que chegaram cedo demais e a teimosia criativa de construir uma narrativa com o que resta.

Logo à partida, dificuldades

A ideia para o filme germinou quando Francisca Marvão concluía a sua primeira longa-metragem, Ela é uma Música, um retrato da presença resistente das mulheres na história do rock português. À conversa com Ondina Pires, outrora baterista dos Pop dell’Arte, Luís Futre apresentou-lhe um single de Zurita de Oliveira: o gatilho que levaria a realizadora a mergulhar nas origens do rock feito por mulheres em Portugal. Chamar-lhe mero acaso seria um grande clichê porque, depois da ideia, surgiram vários obstáculos à realizadora.

“Tive de tratar dos direitos de autor e dos direitos conexos. Nos direitos conexos não havia registo porque a empresa e editora que detinha tudo faliu. Então, simplesmente deixaram de existir. Na questão da SPA, também não havia detentores dos direitos”, conta Francisca. Numa primeira leitura, a ausência de titularidade poderia parecer um elemento facilitador para a produção da homenagem, mas rapidamente a realidade se impôs: “Aquilo mexeu um bocado comigo, porque esta pessoa, que até consta no sistema, parece que está apagada”, comenta a realizadora. Para concluir o filme, foi necessária, sem dúvida, perseverança.

Entre campanhas de crowdfunding e trocas de mensagens com familiares (por descargo de consciência, vale a pena referir que Zurita era meia-irmã do ator Camilo de Oliveira) e amigos, a pesquisa revelou-se frustrante. Com o volume de informação que o crowdfunding gerou, Francisca admite que chegou tarde demais quando leu um e-mail da família de João Batista, baterista de Zurita: “A família ficou toda feliz porque estava a fazer um filme sobre a Zurita, mas o João Batista, o baterista, entretanto faleceu, e não o consegui apanhar.” A história passou, então, a ser contada por interposta memória dos familiares. “Muitas das pessoas que andava a pesquisar já tinham falecido e eram, com certeza, pessoas que tinham muito para contar. Mas a vontade de fazer o filme e de trazer a Zurita para o presente era tanta que, com o pouco que tínhamos, conseguimos construir uma narrativa”, confessa.

A crítica à ausência tornou-se o mote estruturante do filme. O tempo e o esquecimento foram apagando o rasto de Zurita de Oliveira, mas Francisca Marvão quis representar precisamente o inverso: não temer essa ausência e usá-la antes como provocação. “É um não-dito, ou um silêncio”, uma frase que sustenta a longa-metragem e evoca os tempos de repressão que, embora passados, parecem hoje corroer novamente o que mulheres como Zurita conquistaram. Foi a partir desse ponto que “comecei a criar também todo este imaginário.” Um imaginário que se traduz na atmosfera sombria e intimidante de certos momentos do filme e no som assertivo de tiros de caçadeira que nos inquietam. “É para tu também sentires a força de uma mulher daquela altura”, remata a realizadora.

O cinema e o seu papel unificador

Um dos pontos que Francisca Marvão quis sublinhar é que esta longa não pretende ser uma biografia. “Foi mais uma homenagem e uma reflexão sobre a visibilidade das mulheres no meio da música.” Por isso, o filme abre-se a outras vozes femininas, algumas já presentes no seu trabalho de estreia, que cantam e reinterpretam as letras de Zurita à sua maneira. “Quando estive pela primeira vez com a Paula Marcelo (atriz), disse-me que tinha umas letras inéditas escritas pela Zurita e aquilo ficou-me”.

Curiosamente, a ideia de congregar várias artistas só ganhou forma quando a realizadora viu Canção da Saudade (1964). “É uma tentativa do cinema português de mudar o paradigma dos seus géneros. Há um choque de gerações: o pai, nostálgico com as músicas mais ligeiras, e o filho com o rock. Depois de ver esse filme, e perante as letras e a escassez de informação disponível, querer dar palco às mulheres da atualidade começou a fazer todo o sentido”, explica.

No ecrã, surgem artistas como A Garota Não, TRYPAS CORASSÃO, FRIK.SÃO, Vitória & the Kalashnicoles, Mãe Bruxa (acompanhada por um coro de mulheres do campo), entre outras. O detalhe mais singular, porém, é que do processo nasceu uma banda inteiramente nova: as Zuritas Elétricas, formada por Ana Bento, Beatriz Rodrigues e Katari Heavy Machinery. Questionada sobre se o projeto poderá ter continuidade, a realizadora deixou a porta entreaberta: não tinha uma resposta definitiva, mas admitia a possibilidade de concertos em homenagem. E a verdade é que, no 1º de maio, logo após a estreia da longa-metragem no IndieLisboa, as Zuritas Elétricas subiram ao palco das Damas ao lado de Xana, dos Rádio Macau, e de Sandra Baptista (Sitiados, A Naifa). “Eu acredito muito na diversidade e em juntar várias gerações ou vários nichos, onde as pessoas se conhecem”, afirma Francisca.

Ao terminar a conversa, divagamos sobre a escassez deste tipo de encontros e sinergias entre artistas, o receio da individualização e o clichê do “nasci na geração errada” – temas que, depois de ter sido interrompida pelos injustos 45 minutos de Zoom, ficaram a matutar na minha cabeça. Zurita de Oliveira nasceu em Alcanena, a 19 de janeiro de 1931, e morreu “só” em 2015, aos 83 anos, em Moscavide. 2015 não foi assim há tanto tempo e, numa rápida pesquisa na internet, não surge nenhum obituário escrito. A memória de Zurita: esquecida. Inquieta-me a falta de valorização em preservar aquilo que poderá ser futuramente esquecido; uma história que não é contada pode ser facilmente manipulada e reescrita no futuro.

Com os fragmentos que restaram, Quem Tem Medo da Zurita de Oliveira? devolve-nos um pouco daquilo que foi a obra e a vida de uma mulher que lutou pela sua liberdade de poder divertir-se e tocar aquilo que bem lhe apeteceu em espaços que já não existem e que não podem voltar. Zurita de Oliveira: para sempre.

O filme Quem Tem Medo de Zurita de Oliveira? é exibido no domingo, dia 10 de maio, numa sessão que irá decorrer no Cinema Ideal às 19h30. Os bilhetes para essa sessão podem ser adquiridos aqui.

Matilde Inês é uma pessoa que se emociona com os pequenos pormenores. É mais provável ouvimo-la a cantar as back vocals ou solos de guitarra, do que a letra principal. Recém licenciada em Ciências da Comunicação e que, atualmente, trabalha como radialista e jornalista na Rádio Voz de Alenquer. De vez em quando, escreve aqui e ali sobre música.
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Novo filme de Francisca Marvão homenageia a intitulada “mãe” do rock português.

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