A imortalidade pode existir através das canções – ou, pelo menos, foi isso que A Sul, nome artístico de Cláudia Sul, quis alcançar no seu primeiro álbum, QUER QUER QUER (edição: Cuca Monga), desafiando-se a escrever e compor sobre o tema que mais atormenta o ser humano: a morte. É um disco pessoal e vulnerável, um privilégio que todas e todos nós temos de poder viver em conjunto com a Cláudia, uma experiência que nos pode tocar de forma profundamente íntima. Esta história triste desdobra-se em dois atos: o primeiro, e o mais dilacerante, quando o chão nos cede repentinamente; o segundo, o desamparo e o desespero de agarrar, com toda a força e persistência de que somos capazes, as memórias que nos restam de alguém que já não está cá.
À semelhança de um globo de neve, Cláudia congela um conjunto de memórias em 12 faixas: uma casa antiga em Viseu, com um cheiro de longa vida no ar e sons que transportam qualquer um de nós à infância, àquelas tardes passadas em casa dos avós. É por intuição e pelo carinho que a artista conseguiu transformar esses momentos em gravações, peças essenciais na composição de canções tão íntimas e cruas: o coro de uma família reunida; a respiração do sono profundo de alguém que amamos tanto que já é, por si só, uma canção de embalar; os sons da rotina quotidiana; os tiques característicos de outras pessoas, capazes de projetar uma imagem nítida na nossa memória.Tudo isto habita uma sonoridade que toca no tradicional. A melodia que remete para a nostalgia, as linhas de piano pesarosas que representam o envolvimento grotesco e fantasmagórico da perda recente, as sonoridades alegres que enfatizam a ironia e a fuga à tristeza, e as harmonias profundas de um piano a solo que preenchem a sala de saudade. Um resultado construído e partilhado em família e entre amigos, como é o exemplo da guitarrista Marta Fonseca, responsável pelos arranjos de algumas das canções do disco.

Talvez a nossa morte não seja a temática que mais nos assusta, e sim a morte inesperada dos que mais amamos. A Sul soube abraçar a sua perda, ensinando-nos o valor que é em imortalidade aquilo que nos resta: as nossas memórias. A Playback teve a oportunidade de sentar-se com a artista para conversar sobre QUER QUER QUER e conhecer o seu processo.
Vou começar por recorrer à minha cábula, partilhada por pessoas do teu círculo próximo. Porque é que decidiste basear o teu disco na figura feminina da fatalidade e da violência, as Queres?
[Risos] Uau! Parabéns. Isso surgiu porque estava à procura de pequenas coisas que pudessem inspirar a minha escrita e composição, porque já sabia que queria focar-me no luto por causa dos meus avós, que marcaram este novo disco. Perdi o meu avô em 2021 e depois, no mesmo ano, a “Gin” surgiu. E depois de a lançar, estava numa fase mais em baixo e pensei: “Porque não tentar puxar mesmo pelo significado do que é o luto, o que é esta coisa de perdermos as pessoas?”. Dois anos mais tarde, o meu avô paterno começou a piorar. Ou seja, em 2021, perdi o meu avô materno e, dois anos depois, o meu avô paterno piorou de saúde. Nessa altura, decidi fazer uma residência artística em casa dos meus avós, em Viseu. Foi no caminho até Viseu que a pesquisa sobre as Queres surgiu. Estava num livro de mitologia grega. Eram umas criaturas horríveis, sangrentas, era mórbido e grotesco. Aquilo agradou-me, porque gostava de puxar por algo visualmente meio grotesco também, então sentia um alinhamento. Gostei imenso do nome, Queres, porque era uma palavra semelhante ao verbo “quer”. Essas criaturas não têm um poder próprio; elas são uma prestadoras de serviços, mas são responsáveis pela morte violenta. Ou seja, é uma hipérbole da morte violenta, cheia de sangue, e com isso fiz uma analogia sobre como perder uma pessoa que tu amas significar algo violento.
Isso quer dizer que a ideia para o disco surgiu depois de teres feito a “Gin” e a “Tela”?
Não foi bem assim, foi na residência artística que surgiu muita coisa. Eu fiz a “Tela” do início ao fim em Viseu. Só há pouco tempo é que me apercebi que essa viagem foi transformadora, quando estava a escrever o texto de apresentação do disco. Fez mesmo muita diferença ter estado com os meus avós, almoçar com eles, caminhar com eles, e ao mesmo tempo, ter o meu tempo para tentar compor.
É algo arrepiante, porque quando perdemos alguém ou estamos à beira de perder alguém, se calhar não estamos disponíveis para refletir sobre o assunto. Mas no teu caso, quiseste confrontar-te com pensamentos tão íntimos e vulneráveis. Fala-me sobre o teu processo de escrita e composição.
“Gin” foi o primeiro impacto. Não sei como é contigo, mas foi a minha primeira perda. Só aos 24 anos é que tive a minha primeira perda, e foi tudo novo. Foi horrível. Sentes-te mesmo mal e não consegues perceber muita coisa. Estás sempre em baixo, mas acho que uma ferramenta que uso bastante é defender-me com piadas, e na “Gin” nota-se que me queria divertir. Saía à noite e havia sempre um momento em que ia abaixo – o que é normal, porque o meu avô não me saía da cabeça e não me deixava beber em paz. Por isso, usei o sentido do humor para conseguir expressar esse lado mais vulnerável.
Ainda assim decidiste partilhar essa vulnerabilidade com outras pessoas na criação do disco, incluindo a família. Como é que ela te ajudou na criação do disco?
Quando eu fui até Viseu, os meus pais não sabiam, só pedi à minha avó para passar lá a semana. Eles sabiam que estava num registo de trabalho, mas não fiz nada diretamente com eles. O que eu fui fazer foi gravar algumas coisas no telemóvel, gravações de coisas nostálgicas, por exemplo, relógios antigos. Aqueles que tocam à hora certa. Captei sons que caracterizassem os meus avós e que os trouxessem para o pé de mim: gravei as caminhadas pela natureza, gravei o meu avô a dormir e sua respiração serena, que acabou por ficar no disco, numa das camadas de uma faixa.
Isso reflete muito a sonoridade que escolheste para certas canções. Estou-me a lembrar da “Metáforas”, que tem uma musicalidade mais tradicional.
No momento que estou a escolher os sons, não sei se tenho essa lógica toda. É meio intuitivo, sabe-me bem ouvir este som e escolho. Mas agora, analisando e ouvindo, foi na residência que eu fui buscar essas ideias. Por exemplo, a ideia de bailarico da aldeia, que é uma memória muito presente na minha infância. É bonito também perceber que estes processos são meio espontâneos, inconscientes, e que depois fazem sentido. Vai tudo dar ao mesmo sítio, que é o imaginário da aldeia.
Disseste na conversa com a Malva, aqui na Playback, que gostavas muito de criar uma paisagem cinematográfica, muito por causa da tua formação em cinema. Que tipo de cenário é que tu querias criar aqui, além desta cena da aldeia? Porque senti algo de fantasmagórico no disco.
Esse lado foi muito inspirado pela tal história que eu li da mitologia grega, dessas criaturas que te querem mal, e a primeira parte do disco é muito inspirada nesse lado.
Era aí onde queria chegar: como é que estruturaste o disco?
A primeira música acho que é um apanhado de tudo: “Bem-vindos ao disco”. Mas a primeira parte é mesmo dedicada ao lado das tais criaturas que te querem mal. Isto vai ser super específico, mas a primeira e a segunda parte do disco são baseadas nas diferentes formas que os meus avós morreram. O meu avô materno morreu de um dia para o outro, foi tudo muito rápido e brusco. E com o meu avô paterno, a sua saúde foi-se degradando. Fomos vendo o meu avô cada vez pior, e é tudo muito avassalador. Interessou-me explorar estas duas formas da morte se aproximar, ou seja, uma forma brusca e uma forma que tu nem dás por ela. A terceira parte é dedicada às pessoas que ficam cá a processar a perda, ou seja, é muito mais melancólico, nostálgico.
E a “Metáforas” é o ponto de viragem entre a morte violenta e a morte lenta?
A “Metáforas” é a ideia de a doença aproximar-se e tu não te dares conta. Queres saber o que significa a palavra metáfora?
Quero.
Isto vem do meu avô paterno. Quando ele estava a piorar, ele foi a uma consulta, e disse-nos que tinha metáforas na cabeça. Ele queria dizer outra coisa (metástases), mas o facto dele ter dito “metáforas” ficou muito comigo e, por isso, guardei nas notas. Mais tarde, a música surgiu e comecei a trabalhar sobre a ideia de que a doença, quando se apodera de ti, já não há nada a fazer, portanto mais vale aproveitar enquanto cá estás.
Disseste numa entrevista que a palavra “calor” tinha um outro significado. O que querias dizer com isso?
Há muita coisa que não é racional quando faço canções. Há palavras que vêm sem significado, mas que acabam por fazer sentido. O calor, neste contexto, significa que estamos a aproximar-nos de algo que vai acontecer, e é um quase, quase chegar da morte.

Estou a lembrar-me também que na conversa com a Malva disseste que tinhas uma relação amor-ódio com a escrita, mas neste disco vejo muita criatividade e identidade nas letras.
[Risos] A minha relação com a escrita tem melhorado bastante sim, interesso-me cada vez mais por escrever, mas sinto que há muita coisa não-racional no que sai escrito.
O que é que vem primeiro na composição de uma canção?
É muito mais pela melodia. Raramente a letra vem primeiro. É sempre em função da melodia, e a melodia já me sugere certas palavras. Lá está, é como se a própria melodia ditasse o que é que vai ser a palavra.
Além dessa brincadeira de palavras que mencionas, há certos momentos no disco em que sinto que há uma outra personagem, por exemplo na “Vinho de Caixa”.
Sim, estás certa. De facto, escrevi a “Vinho de Caixa” da perspetiva dos meus avós. O imaginário dessa música é a casa dos meus avós. Contexto: o meu avô era agricultor, por isso, a nossa família tinha sempre vinho feito por ele. Ele fazia e guardava no barril. Não era incrível, mas era o do meu avô. E quando ele começou a ficar pior, o vinho que foi servido à mesa foi um vinho de caixa. Ou seja, foi nesse momento que me apercebi que já não ia ter mais vinho do meu avô. Então ficou essa ideia para depois poder explorar. E na letra não quis controlar o que ia sair, até porque saiu-me logo a parte inicial do “Lava-me o Corpo, Deita-te Cedo” – isso remeteu-me para uma conversa entre os meus avós. Por isso, quis imaginar o meu avô a dizer para a minha avó “cuida de ti, porque estou a ver-te, apesar de já não estar contigo”. Outra memória presente na canção está associada ao facto do meu avô ter tocado piano. Eu digo que “o piano não me dá alento”, porque nessa semana em residência também percebi que ele sempre tocou piano e, como estava a ficar cada vez pior, já nem conseguia tocar.
Qual foi a reação da tua família ao ouvir o disco?
Acho que foi bastante bem recebido. Claro que é bastante emocional e vulnerável e o meu pai ficou muito sensibilizado por saber que as músicas são baseadas no pai dele. Mas eles estão sempre a querer saber o que estou a escrever ou a trabalhar, portanto não esperava outra coisa.
Digo isto porque sei que na “Metáforas” tu cantas em família, certo?
Sim. E posso dizer-te exatamente quando é que foi feita a gravação do coro. Foi no ano novo de 2024, na casa dos meus pais, porque nós passamos o ano novo e o Natal e fazemos um grande jantar na garagem. Montamos o karaoke e olhei para as pessoas à minha volta e tive a ideia de as gravar. Fomos todos para um anexo que converti num estúdio e gravámos.
E na “Era Farfisa”, que conversa é aquela?
Era uma conversa real. Eu estava com os meus pais no carro de regresso para casa porque tínhamos acabado de estar com o meu avô paterno. Os meus pais ligaram à minha avó para dar notícias de como tinha corrido a consulta, e eu decidi gravar, porque tenho o hábito de gravar conversas. Recomendo isto a toda a gente: gravem as vossas pessoas. É lindo teres o registo da voz das pessoas de quem gostas. Quando o meu avô materno morreu, lembrei-me de que tinha feito uma gravação com ele, uma gravação onde estamos simplesmente só a existir. E lembro-me que, quando morreu, toda a minha família me pediu essa gravação. O mais fixe é que a música que se ouve na “Era Farfisa” foi feita pelo meu pai há 25 anos. Além disso, também se ouve o tal relógio antigo. Decidi pôr muitas gravações nesse interlúdio.
A última pergunta veio da Marta Fonseca. Passo a citar: “Dirias que a tua canção “Bleba” ao vivo funciona melhor com saco de plástico, sem saco de plástico, ou quando te esqueces e tens de desenrascar um à última da hora? E qual é o saco com melhor textura?”
[Risos] Não pode ser muito macio. Tem de ter alguma profundidade para produzir mais som, mais alto.
Agora preciso de contexto [risos].
Porque quando eu toco com a Marta tocamos apenas as duas: guitarra e voz. Na canção “Bleba”, temos de arranjar outras formas de fazer percussão, e achamos que o saco de plástico podia ser uma boa ideia. E funciona mesmo! Só que, às vezes, esquecemo-nos do saco, e temos de pedir à produção.
Fotografia de destaque: Mariana Lokelani
