Escrevo este texto no rescaldo de uma residência artística em Braga com o Ensemble of Other Living Beings: uma super banda, projeto da Facada Records, que conta com a participação de muitas pessoas incríveis. Vamos dar o primeiro concerto em Julho na Osso (Caldas da Rainha), e depois há umas quantas datas marcadas por aí.
Trabalhar em residência é sempre um grande privilégio porque, além da música, partilham-se histórias e visões do mundo, piadas parvas e jogos de pingue-pongue (quando há uma mesa de pingue-pongue, e neste caso havia!). Fazer música com pessoas é relacionarmo-nos com elas, de uma forma vulnerável se assim o permitirmos, e acho que ajuda à cumplicidade quando há tempo. Dividem-se refeições e pequenos relatos de vivências: uma pessoa conta uma história de desentendimento com um antigo colega de casa, outra conta uma história de uma viagem de táxi mirabolante, outra conta uma história de um desarranjo intestinal catastrófico, e por aí em diante. De alguma forma, isso influencia a música! Acho mesmo que sim!
Sinto que sou uma colecionadora de histórias. Tenho uma memória estranhamente seletiva. Pergunto vinte vezes à mesma pessoa “onde é que vives?” para depois me esquecer. Também nunca sei o que tenho para fazer em cada dia, e tenho de escrever na agenda absolutamente tudo. No entanto, lembro-me das histórias que me contam, e armazeno-as na minha memória, para depois contá-las aos amigos (claro!). Tenho sempre uma história para cada ocasião: “isso fez-me lembrar que, uma vez, a filha de um amigo da minha mãe estava no Gabão e foi raptada por um gorila…”.
No sábado, saímos de Braga em direção a Lisboa já depois do jantar, e entre histórias e jogos de “preferias” para enganar o cansaço durante a viagem, começámos a conversar sobre processos criativos e sobre como nada é nosso, tudo é reciclado. É um assunto já inúmeras vezes abordado por inúmeros artistas. Não é novidade, mas fez-me pensar: então porque é que continuamos a fazer isto? Porque é que compomos? Porque é que escrevemos? De onde vem este impulso?
Não tenho respostas, mas diria que fazer música é um pouco como contar histórias, e surge enquanto tentativa de entender o mundo (exterior) e simultaneamente enquanto desejo de nos explicarmos aos outros (interior).
Hoje fui ver um concerto do Tomé Silva à Cossoul e comovi-me especialmente quando ele cantou uma canção cuja letra consistia na repetição de “falta-me coragem / falta de coragem” enquanto tocava piano de uma forma super densa. Senti que fui transportada para dentro do próprio sentimento, como se este fosse uma entidade viva. Talvez porque me falta coragem muitas vezes, e porque ele cantou a sensação física desse sentimento. Há pessoas assim, não é? Que têm esse dom de cantar/tocar as coisas com cheiro e textura, que atravessam o tempo e o espaço, que nos conduzem do interior da barriga de uma baleia no fundo do oceano para uma cadeira dura numa sala gelada. Gosto de artistas que expõem as vísceras no palco, que conseguem exibir as contradições e ambiguidades das coisas. São as princesas dos filmes que eu quero ser quando for grande.
No processo criativo, ando sempre à procura disso: do fundo das questões, da “honestidade” (o que quer que isso seja). No entanto, questiono-me muitas vezes se ambicionar ser ouvida por um público não tem em si uma certa arrogância. Porque é que faço canções? Para quê? E, sobretudo, para quem?
Por um conjunto de fatores, alguns que nem consigo identificar, tenho em mim uma insegurança muito profunda. Ao ponto de quando alguém me faz um elogio eu achar que essa pessoa está a gozar comigo. Esta é talvez a característica que mais vezes me paralisou até agora, mas com a qual tenho vindo a lutar vigorosamente. Não sei se estou a ganhar essa batalha mas, pelo menos, tenho feito canções e estou feliz por isso (apesar das vozes dentro da minha cabeça).
A coragem, a arrogância (e o medo dela) e a insegurança são emoções ligadas ao ego. Têm em si um certo narcisismo. Mas se nada é realmente nosso, se tudo é reciclado, como falávamos na viagem de Braga-Lisboa, então suponho que tudo isto seja uma grande contradição.
“Sobra das Sobras”, o mais recente single de Orca, foi lançado no início de junho. Apneia, o novo álbum de Leonor Cabrita, irá ser lançado em breve. Escuta o single abaixo.

