Numa era onde a descoberta de música se comodoficou através de algoritmos, é necessário tentar quebrar com o status quo vigente. Partilhar aquilo que andamos a ouvir com o outro também é um ato de amor e confiança.
É isso que pretendemos fazer com estas esporádicas recomendações do que a nossa equipa anda a ouvir e a gostar. Expandir os horizontes dos ouvidos dos nossos leitores, e mostrar-lhes que há coisas que precisam de ouvir que não lhes vai ser entregado de mão beijada. Leiam e ouçam. Com amor e carinho.
sueter7 – Todo Salió Bien en la Sencilla Villa Quién

Por muito que se fale de estagnação musical, a colisão possibilitada por sites como o RateYourMusic ou o AOTY e a criatividade possível nascente de canais de Discord e de threads de discussão no Reddit profetizam, apesar de tudo, algo de novo.
Nos últimos anos, a colisão entre os elementos emocionais da música emo e da pujança de alguma eletrónica mais “digitalesca” tem dado frutos. A influência do álbum de estreia de Jane Remover (Frailty, de 2021) paira por miúdos que encontram nessa música efervescente um escape para a sua realidade. É esse o caso de sueter7, jovem argentino cujo primeira longa-duração merece ser escutado com toda a atenção. Entre o midwest emo, a pop mais barulhenta (os Sweet Trip como referência máxima) e glitches digitais, as canções de Todo Salió Bien en la Sencilla Villa Quién enchem-nos as medidas e fazem água escoar dos nossos olhos. Uma maravilha.
– Miguel Rocha
Banda Maje – Costa Sud

Apesar de ouvir italo disco ser um pouco como o Natal (quando a gente quiser), a verdade é que bate sempre duma maneira especial quando o calor aperta. Prova disso é o novo álbum do colectivo napolitano Banda Maje, Costa Sud, que regressa aos longas-durações cinco anos após uma excelente estreia chamada Ufo Bar. A receita do cocktail, essa, continua a mesma—e para quê mudar quando a fórmula é perfeita? Muito funk, muito soul, e muito afrobeat a coroar um copo que transborda de fantasia mediterrânea, uma espécie de delírio alucinatório provocado por barrigadas de gelato debaixo de 40 graus à sombra. Para consumir sem moderação de manhã, à tarde e à noite.
– Ana Leorne
Këkht Aräkh – Morning Star

Numa altura em que bandas como Agriculture são espezinhadas por metaleiros old school, nunca fez tanta falta um disco como Morning Star. Këkht Aräkh, o projeto a solo do jovem ucraniano Dmitry Marchenko não foge dos clássicos mas também não se limita aos caminhos já traçados pelos contemporâneos Deafheaven ou Alcest. Para mim, já se tornou um clássico do black metal pura e simplesmente pela excelente produção. Consegue puxar toda a sujidade de influências como Darkthrone, mas sem sacrificar a clareza dos instrumentos – nomeadamente o baixo que, neste tipo de discos, costuma ser uma autêntica nulidade.
É também um enorme “vai pó caralho” aos puristas, graças a toda a self-consciousness envolvida em envergar, de forma arrojada, uma postura de emo boy. E assume-o sem qualquer vergonha, ao ponto de trazer Bladee para uma das músicas. Se isto não suscita curiosidade, não sei o que o fará.
– Eduardo Ribeiro
My Sleeping Karma – Soma

Quando um grupo de amigos me falou dos My Sleeping Karma, pensei: “mais uma banda de stoner genérica do Sonic Blast”. Nada disso, meus caros.
Apesar das capas dos discos da banda assentarem numa estética já mais do que vista dentro do género, o som revela uma maturidade inquietante e inovadora. O chão treme com os riffs de guitarra, enquanto o baixo solidifica cada passo antes de nos elevar para planos ancestrais, onde imaginamos um elefante de seis braços a comunicar através de linguagens gestuais e a conduzir-nos lentamente para um estado de meditação.
Soma é composto por seis temas instrumentais, separados por interlúdios. E embora não exista uma única palavra cantada, a força melódica é tal que, ao fim de algumas audições, damos por nós a cantar cada passagem de cor. “Ephedra” é facilmente o ponto mais alto do álbum. Tal como as restantes faixas, constroi-se num crescendo constante, aumentando a tensão de forma paciente até desaguar numa explosão de psicadelismo lindíssima.
– Eduardo Ribeiro
Connie Converse – How Sad, How Lovely

Tal como o título indica, How Sad, How Lovely (2009) convida-nos a um estado de melancolia: imaginamo-nos num pasto aberto, com uma brisa fresca de verão a temperar o corpo. Comecem pela “Talkin’ Like You” ou pela “Trouble”, mas o disco alterna entre um estado contemplativo e uma escuta mais ativa, à procura do sarcasmo e do empoderamento que Connie Converse deixa vincado na sua escrita – deliciem-se com as letras de “Johnny’s Brother” ou “Roving Woman”.
O que torna este disco verdadeiramente único são os moldes em que foi feito. A qualidade de gravação, que alguns poderão considerar medíocre, torna as canções ainda mais especiais. É como ser convidada para um concerto intimista na cozinha: o grão no som, o eco do espaço, os amigos a opinar no final de algumas canções, os comentários da própria artista sobre o som da guitarra.
Para quem não a conhece: o maior sonho de Connie Converse era ser cantautora, mas nunca o viu concretizado. Em 1974, desapareceu, deixando apenas algumas gravações que os seus familiares resgataram e compilaram neste álbum, um registo fundamental para o folk feminino dos anos 50 e 60.
– Matilde Inês
The Angelic Process – Weighing Souls With Sand

Em semanas de incinerar pestanas dada a elevada inflamabilidade de estourar os deveres académicos em tempo limitado, a experiência musical deste vosso escriba costuma ter uns contornos bem afunilados. Devido à patologia cognitiva que lhe impossibilita concentrar-se e após anos de exploração auditiva nesse quesito, percebeu que a música que ouve neste contexto não pode ter letra, muita variação, desconstrução de ritmo ou muita cacofonia. Assim, nomes como Kali Malone ou Sunn O))) têm sido ajudas valentes.
A partir destes últimos e com a vontade de procurar novos sons que induzam essa imersão, é costume dedilhar pelos vários menus de géneros do Rate Your Music. Foi aqui que encontrei The Angelic Process e o seu terceiro e, infelizmente, último álbum. Com as catalogações de doom e drone metal a serem-lhes impostas, o estado hipnagógico a que estes conduzem faz-se através de paredes sonoras revestidas a texturas hercúleas e talhadas em barulhos doomescos donde até sobressaem influências de shoegaze. Numa dimensão sónica imperial, indo contra todos os elementos supracitados, Weighing Souls With Sand submerge-nos numa experiência quasi-rizomatica, onde os vocais estridentes e distantes, aliados às guitarras e percussões abrasivas, nos consomem ao ponto de funcionarmos em uníssono com a loucura destas composições.
– José Duarte
