Conhecemos Teresa Castro, primeiro, como integrante de bandas como os Mighty Sands ou os Savage Ohms. Depois, conhecemo-la como a encantadora de serpentes do deserto, agora transformada em ninfa da floresta encantada. É sob o nome de Calcutá que a compositora e multi-instrumentista lisboeta se dá a conhecer, e no início de 2026, lança o seu primeiro longa-duração: Soon After Dawn (uma edição Ovo Estrelado).

Quase dez anos depois do seu primeiro EP, Over Night, a música e vida de Calcutá transformaram-se. Muito mudou – e não só por causa da pandemia. Experiências com teatro e artes performativas tornaram-se a norma da sua vida, e um novo ciclo de estudos abriu-lhe as portas a uma nova cidade: o Porto. Assim, as paisagens fantasmagóricas e desérticas das canções do seu primeiro lançamento transformaram-se em encantamentos florestais assentes no momento do presente. Faixas que ecoam a vida, canções que nos dão vida. É um dos mais belos registos discográficos lançados neste país em 2026 – disso não haja dúvida.

Capa Soon After Dawn
Capa Soon After Dawn

Antes de mais uma série de concertos, a Playback falou com a artista sobre este seu álbum de estreia.

Na “Eterno Retorno” dizes que sentes uma palpitação aí dentro, e sinto que essa palpitação surge ao longo do álbum. Que palpitação é essa que vai batendo ao longo deste Soon After Dawn?

[Risos] Na realidade, quando escrevi essa parte da letra, essa palpitação era algo real. Não era uma metáfora. Estava a passar por um momento de stress na minha vida e isso causou-me arritmias. Então, a letra surgiu daí. Mas se tentar olhar de outra forma para o que essa palpitação significa, ela representa a minha vontade de fazer, cantar, e levar a minha música para as pessoas. Ou seja, representa a minha forma de me exprimir.

Na crítica que o Vítor Rua assinou no Rimas e Batidas, ele disse que a música deste Soon After Dawn funcionava “menos como objeto e mais como estado”. Que estado de espírito representa este álbum?

É um estado de espírito que procura encontrar a luz, e que está tranquilo com essa procura. Ou seja, não representa nenhum desespero.

Achas que nos encontramos numa crise de espiritualidade?

Talvez. Vivemos num mundo hiperconectado, mas que, paradoxalmente, cria em nós uma desconexão muito grande. Não só uns com os outros, mas também com o meio ambiente e com nós próprios. Portanto, é importante que existam práticas que nos permitam restabelecer essas conexões. Acho que podemos falar de espiritualidade dessa forma. A maneira como eu faço música parte muito dessa procura de conexão e de criação de um lugar seguro para poder sentir e pensar em gestos meditativos. As repetições e as camadas das canções representam mais essa intensidade do momento do que uma continuidade ao longo do tempo. É uma coisa mais do agora, do presente.

Esta ideia de reconexão tem sido algo que tem surgido como ponto fulcral de discussões nos últimos tempos. O Panda Bear e o Sonic Boom lançaram agora um disco [A ? of WHEN] que saiu só em formato físico. Tens de ir à procura dele para o escutar. Que papel pode ter a música na recuperação dessa presença que está há muito desaparecida?

É um gesto que nos permite desacelerar, não é? Ir a um concerto, ouvir música em casa com amigos, são experiências que te devem permitir estar em tempo presente sem estares sempre a filmar ou a tirar fotografias com o telefone. Acho que a música pode proporcionar esse tipo de experiências. A ideia do Panda Bear e do Sonic Boom é super fixe. Eu utilizei o Spotify durante imenso tempo, mas depois comecei a perceber que a forma como ouvia e me relacionava com a música mudou. Então, deixei de utilizar o Spotify e, agora, não utilizo qualquer plataforma de streaming para ouvir e descobrir música. Ao usar essas plataformas, senti que não estava a criar relação com nada. Ouvia uma música e gostava, guardava-a numa lista, e assim ficava lá. Não me lembrava de nada, e ainda estava à mercê do que os algoritmos recomendavam. Era cíclico, vicioso. Agora, estou num registo diferente. Alguém me fala de uma banda, e anoto nas notas do meu telefone para ouvir quando conseguir. Tenho uma lista só para isso. Temos de voltar a dar oportunidade às recomendações dos outros, à música selecionada por pessoas, às rádios, em vez de serem estas plataformas e os seus algoritmos a ditar o que ouves.

As plataformas de streaming, apesar de enganarem com a promessa de poderes ouvir toda a música alguma vez feita, na realidade comodificaram completamente a relação que temos com a música. Até a própria ideia de gosto – as recomendações que o Spotify e outras plataformas do género te dão é o teu próprio gosto a ser regurgitado para ti de volta. Não há nada de novo ali. Só querem que fiques preso nelas mais tempo para prosseguirem com o verdadeiro modelo de negócio deles: os nossos dados e a retenção da nossa atenção.

Sim. Comecei a dar por mim a ficar mesmo confusa com algumas das recomendações do Spotify. E não era eu a escolher, não é? Era sempre as mesmas coisas. Fartei-me. Agora que já passou algum tempo desde que deixei de utilizar plataformas de streaming, sinto que tenho outro tipo de relação com a música. Parece que estou a agir mais de acordo com o que era antes, em que a pessoa tinha de ir à Internet procurar as bandas e descobrir a partir dessa ação.

No teu primeiro EP [Over Night] está muito presente a ideia do deserto norte-americano estilo Paris Texas. No Soon After Dawn, essa ideia já se encontra mais distante, mas sinto que o deserto ainda te impacta. Como é que essas primeiras experiências de Calcutá influenciaram este teu primeiro álbum?

No primeiro EP, estava mesmo envolvida nessa ideia do deserto norte-americano. Aquelas paisagens divididas entre planícies e montanhas, pelas viagens a cavalo, o calor, e o mistério. Como se existisse algo mais a ocorrer, mais escondido, subliminal. Neste álbum, esse imaginário já não está tão presente porque, ao longo do tempo, as minhas ideias mudaram. O Soon After Dawn representa uma paisagem mais interior e emocional. E visualmente, para mim, isso não representa nada. É só uma experiência emocional que depois é traduzida através da música. Eu ainda gosto muito do Over Night, mesmo que já tenha sido lançado há quase dez anos. Era uma pessoa diferente na altura, mas acho que consegui transmitir aquilo que ouvia na altura e que queria tentar representar através da minha música. Mostrou o que podia ser uma paisagem de Calcutá. É um projeto com muita guitarra, coisa que no Soon After Dawn não está tão presente. Claro que ainda tem guitarra, mas há outras coisas. A “Mountain Valley” só tem voz e sintetizadores, por exemplo. E é engraçado, porque há muitas pessoas que escutam o álbum e dizem que foram transportadas para sítios físicos. Uma floresta ou uma montanha. Sítios bonitos, recheados de natureza.

Por acaso também pensei nessa relação do disco com a natureza. Não sei se foi premeditada ou não…

Não foi. Não pensei em nada disso quando estava a fazer o disco. Fica mesmo aberto à interpretação das pessoas. Gosto disso, gosto que as pessoas sejam levadas para sítios que me surpreendem quando me contam sobre isso. Porque cada pessoa tem a sua forma de sentir. Isso, para mim, é muito importante.

E o disco continua a ser bastante psicadélico.

Sim, sem dúvida. O psicadélico aqui vem da repetição e de alguns usos de drones e delays para fazer texturas. É um outro tipo de linguagem.

Fotografia: Rui Palma
Fotografia: Rui Palma
Falas de repetição e isso lembrou-me que senti que no teu primeiro EP, havia um momento ou outro que me lembraram krautrock.

Eu adoro krautrock. A “Over Night” foi feita a pensar em krautrock. Tem ritmo motorik. Acho que no Soon After Dawn, não existe algo assim, mas existem momentos de repetição, como a bateria da “Run Come Rally”, que nos levam para um sítio diferente – mais tribal. É uma música bastante psicadélica, diria. A “Wet Grass” também, pelo trabalho das vozes e das texturas.

A “Run Come Rally” é uma versão.

É uma canção do Dadawah, do álbum Peace and Love. Comecei a trabalhar nessa versão com a minha guitarra em 2018, quando descobri esse álbum e fiquei logo maravilhada e viciada. Quis descobrir uma forma de tocar a linha de baixo dessa canção com a minha guitarra. Foi uma tarde inteira a mexer os dedos até encontrar o padrão certo – o drone repetitivo que se escuta na canção. Mas depois passei bastante tempo a terminar a canção, que só foi concluída com a ajuda do Luís Barros na bateria, e com várias camadas de outros instrumentos que adicionei. Acho que ficou uma peça mesmo bonita.

Nestes últimos anos saíste de Lisboa e foste viver para o Porto, onde regressaste aos estudos na Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo [ESMAE]. Como é que esse período de mudança inspirou a criação deste álbum?

Já andava para fazer este disco há algum tempo. Mas com a pandemia fiquei, tal como muitos músicos, com a vida em stand-by. Deixei de poder dar concertos e decidi que ia terminar o meu curso em Belas Artes que estava por acabar há dez anos por causa da vida de música. Acabei por gostar tanto de voltar a estudar que decidi fazer um mestrado na ESMAE, e mudei-me para o Porto. No Porto, voltei a conectar-me com o Luís Barros, que tocou bateria no álbum e já me tinha ajudado com o EP na altura. Esse momento de reconexão foi uma das coisas que me inspirou. Outra coisa que me inspirou foi ter conhecido o Cláudio Tavares, que foi quem gravou o álbum e misturou. Adorei estar no estúdio dele e gostei muito de trabalhar com ele. Foi no Porto onde também conheci o Miguel Almeida, que foi responsável pelo design da capa do disco. Ou seja, no Porto ocorreu um conjunto de acontecimentos que me ajudaram a juntar as peças todas para fazer este álbum. Até mesmo o clima da cidade – acho que isso também ajudou [risos].

O Cláudio Tavares, além de tocar em projetos como Glockenwise ou COLINAS, é alguém que tem uma ligação às artes performativas, uma área onde estiveste também envolvida nos últimos anos. Essa experiência em comum influenciou de alguma maneira o vosso trabalho em conjunto para este disco?

Sem dúvida. O Cláudio é uma pessoa com muito bom gosto, tanto a nível musical como de escolhas de produção. Ele tem muitos instrumentos à disposição no estúdio dele, e ele trabalha as ideias de uma forma que não é totalitária. Ou seja, não impõe nada. Isso é algo de louvar num produtor, que tem de ter o discernimento de saber qual o lugar dele. Senti-me sempre confortável para fazer aquilo que queria e chegar à visão que queria para as canções e para o álbum. Acho que trabalhamos muito bem juntos, e gostava de voltar a trabalhar com ele no futuro. Não ficamos presos mil anos a tratar das misturas ou a gravar coisas. Tudo decorreu rapidamente e acho que ele conseguiu capturar mesmo bem o momento que pretendia.

Na entrevista que concedeste ao Público, falaste da importância da viola campanula para este disco. Como é que momentos de descoberta como esse influenciaram o teu processo de criação?

Quando aparece uma ideia diferente, tens de estar pronta para a receber. Nesse sentido, quando a Catarina Marques – ela é violetista – convidou-me para tocar com ela num concerto em Vila Nova de Milfontes, ela disse-me que tinha um instrumento novo e que o íamos experimentar. Era uma campanula, que é basicamente uma mistura entre um violoncelo e uma viola de arco, e que também tem quatro cordas. Tem um som incrível. Quando ouvi o som que fazia, quis logo ter aquilo no meu disco. Misturado com o harmónio, aquilo transportou-me para um tempo distante, antigo, meio Idade Média. Consegues ouvir monges a passar em silêncio dentro de um convento. Foi incrível que a Catarina participasse no álbum a tocar esse instrumento. Foi muito significativo essa ajuda e esse momento.

Antes de lançares o teu primeiro EP enquanto Calcutá, estiveste envolvida em bandas ligadas à Spring Toast Records, como os Mighty Sands ou as Savage Ohms. Era um tempo de boom em Lisboa para a cena alternativa, com muitas salas e editoras pequenas a ocuparem essas salas para fazerem coisas acontecer. Mesmo vivendo no Porto agora, como vês a transformação que ocorreu na cidade de Lisboa ao longo destes últimos dez anos?

Eu saí de Lisboa em 2019 para fazer uma residência em Madrid, e estive entre as duas cidades durante um período. Depois, pronto, aconteceu a pandemia, e acabei a ir viver para o Porto. Ou seja, acabei por me desligar um pouco do que se estava a passar em Lisboa. Agora, do que sei e do que vejo, há mesmo muitos espaços que fecharam e era onde essas editoras faziam os seus eventos. Isso fez com que algumas dessas editoras e coletivos também desaparecessem. Não sei exatamente que editoras existem agora em Lisboa, mas no Porto sinto que ainda existem muitos espaços pequenos que permitem a coletivos de pessoas mais novas e de bandas que estão a começar fazerem as suas atividades. Isso é muito importante. Em Lisboa, não sei. A malta queixa-se, e com razão, que os espaços vão fechando de seguida, sem serem substituídos. E onde é que a malta que quer começar projetos vai poder fazer a sua cena daqui para a frente?

Lançaste o Soon After Dawn em janeiro e, desde aí, já o apresentaste várias vezes ao vivo. Como foi preparar esses concertos e como é transportar as canções deste disco para o palco?

A preparação para os concertos começou a ser feita antes de janeiro, porque os concertos de apresentação foram logo nos finais desse mês – e já com banda. Estou com o Luís Barros na bateria, a Maria Amaro no contrabaixo e voz, e eu toco guitarra, harmónio e eletrónicas. Têm corrido bastante bem estes primeiros meses de concertos, não vou mentir. O feedback tem sido muito positivo. De vez em quando, toco a solo ainda. É um formato que me dá muito gosto fazer e que tem a sua própria linguagem intensa. Neste fim de semana demos um concerto, em banda, em Marvão, no festival Benefício de Marvão, organizado pela Ovo Estrelado, onde tocamos no final da noite para a comunidade local e para muita gente que veio de Lisboa ao evento. Foi muito fixe. Gosto imenso de tocar com a minha banda e espero que venham ver os nossos próximos concertos [risos].

Calcutá apresenta Soon After Dawn este sábado, no Festival Extremo, em Braga. A entrada é gratuita.

Fotografia de destaque: Rui Palma

Cucujanense de gema, lisboeta por necessidade. Concluiu um curso de engenharia, mas lá se lembrou que era no jornalismo musical e na comunicação onde estava a sua vocação. Escreveu no Bandcamp Daily, Stereogum, The Guardian, Comunidade Cultura e Arte, Shifter, A Cabine e Público, foi outrora co-criador e autor da rubrica À Escuta, no Espalha-Factos, e atualmente assina textos no Rimas e Batidas e, claro está, na Playback, onde é um dos fundadores e editores.
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