Matilde Leite não deixa nada Por Dizer

Nos últimos tempos, a música parece ter entrado numa espécie de corrida contra ela própria. Todos os dias surgem novas canções, novos artistas e novas tendências. Mas a diferença que marca os dias de hoje é que até músicas feitas por Inteligência Artificial já conseguem espaço nas rádios e nas playlists como se fossem só mais uma novidade passageira. E talvez seja precisamente aí que tudo se torna mais estranho: na ausência de uma mão humana.

Enquanto isso, há quem passe anos a tentar encontrar o seu lugar. Sem grandes apoios, sem fórmulas mágicas, sem atalhos. Só com vontade de criar algo verdadeiro e de o tornar também nosso. É nesse lado mais humano que entra Por Dizer, o álbum de estreia de Matilde Leite. Um disco que não tenta soar perfeito nem seguir tendências à força. Muito pelo contrário: soa sentido. E hoje em dia, isso acaba por ser mais raro do que devia.

Ao longo de duas mãos cheias de canções, Matilde nunca tenta esconder emoções atrás de produções exageradas ou letras demasiado difíceis de decifrar. Há uma simplicidade muito própria na forma como tudo é construído, daquelas que parecem fáceis até percebermos o quanto custa despir sentimentos desta maneira, sem filtros.

Faixas como “Sem Ti”, “Dei-te Tanto” e “Pressa” acabam por carregar alguns dos momentos mais íntimos do alinhamento, muito pela forma como deixam espaço para o silêncio e para aquilo que fica por dizer entre versos. Há qualquer coisa de muito humano no modo como estas músicas se aproximam umas das outras. E talvez isso também aconteça pelas várias mãos que passaram pelo disco ao longo do caminho, seja na escrita com Rita Onofre, iolanda e miguele, ou nos pequenos detalhes instrumentais que aparecem aqui e acolá: uma guitarra de Hugo Portugal, outra de miguele, ora um piano delicado de INÊS APENAS.

“Dias Passam” e “Postura de Atleta” acabam por levar esse lado mais emocional ainda mais longe, mas sem nunca tornar o disco pesado demais. Há sempre espaço para respirar entre uma canção e outra, mesmo quando as letras parecem carregar mais do que dizem diretamente.

Por outro lado, faixas como “Não Não”, “Medo” ou “Prefiro Viver Assim” ajudam a trazer mais leveza e dinâmica ao disco, sem nunca quebrar a identidade que Matilde constrói ao longo das nove músicas. Há mais ritmo e até uma certa sensação de libertação em alguns momentos, onde a bateria certeira de Francisco Santos surge quase como um impulso extra no meio da contenção que marca uma parte do álbum.

Mesmo “Proeza”, que abre o alinhamento, acaba por funcionar quase como uma porta de entrada para tudo aquilo que vem depois: um conjunto de canções que prefere aproximar-se devagar de quem ouve, em vez de tentar impressionar logo à primeira.

Grande parte desta identidade de Matilde também nasce da produção de miguele, que acompanha o disco do início ao fim sem nunca cair no exagero. Há uma cumplicidade evidente na forma como ambos constroem estas canções, sem nunca deixar que os arranjos ocupem espaço a mais. Também a mistura e masterização de Michael “Mic” Ferreira ajudam a dar coerência ao alinhamento, tornando a escuta fluida sem retirar fragilidade às músicas. Existe um cuidado constante em não sobrecarregar nenhuma faixa. No fim, tudo parece pensado para servir aquilo que Matilde quer dizer, mantendo sempre a voz e a escrita no centro de tudo.

Há discos que acabam no momento em que a última música termina. Por Dizer não. Fica nos espaços vazios, nas frases que regressam horas depois e naquela vontade quase involuntária de voltar ao início só para ouvir tudo outra vez com mais calma. Sem pressa de provar seja o que for, Matilde Leite estreia-se com um conjunto de canções que encontra beleza precisamente naquilo que tantas vezes tentamos esconder: a ausência, o medo, a distância, a dúvida, a fragilidade, o excesso de pensamento, as coisas que nunca chegam a ser totalmente ditas.

E o mais surpreendente em tudo isto é perceber que estamos perante um álbum de estreia. Porque, mesmo sem procurar grandes afirmações, Matilde soa sempre segura daquilo que quer — e, acima de tudo, daquilo que não quer ser. E talvez o mais bonito em Por Dizer seja isso mesmo: a forma como consegue transformar sentimentos tão pessoais em algo que, a certa altura, também passa a ser um bocadinho nosso.

Nascida e criada em Aveiro, mas com a Covilhã sempre no coração, cidade que a acolheu durante os seus estudos superiores. Já passou pelo Gerador, e pelo Espalha-Factos, onde se tornou coautora da rubrica À Escuta. Uma melómana sem conserto, sempre com auscultadores nos ouvidos e a tentar ser jornalista.
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Canções feitas sem pressa.

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