Prelude to Ecstasy e a discussão à volta das The Last Dinner Party

Sabem o sentimento de quando não querem ligar muito a uma banda, mas de repente ouvem uma música e pensam “foda-se, isto afinal é bom?”. Foi mais ou menos isso que me aconteceu com as The Last Dinner Party, banda londrina recentemente galardoada com o prémio BRITs Rising Star, confirmando Abigail Morris (voz), Lizzie Mayland (guitarra, flauta), Emily Roberts (guitarra, mandolim, flauta), Georgie Davies (baixo) e Aurora Nischevci (teclas) como novas coqueluches (mais umas) do rock britânico. Não achei grande piada aos singles mas, certo dia, quando “Nothing Matters” me irrompeu pelos ouvidos aleatoriamente, fiquei com o refrão preso na cabeça o resto do dia. “Porra”, pensei. E lá fui eu ouvir o disco delas a ver se era bom ou não.

Fico feliz por confirmar: Prelude to Ecstasy é bom! Aliás, é surpreendentemente bom. Soa a lufada de ar fresco face a muito do rock britânico atual – chega de Sprechgesang, por amor da santa – e, como se isso não fosse suficiente, a maior parte das malhas são boas canções pop. É um disco de estreia arrojado e as Last Dinner Party não têm medo de o apresentar como tal. Isto percebe-se de imediato pela faixa homónima que abre o álbum, onde se escuta apenas uma orquestra angélica e grandiosa. É um statement introdutório à magnitude e luxo das composições da banda.

O que diferencia o disco de estreia das Last Dinner Party de grande parte dos grupos de rock britânicos atuais é que estas canções soam a malhas feitas por putos do teatro. Querem drama? Prelude to Ecstasy está cheio dele – se calhar, até demais. Há tripas e sangue a voar (“Burn Alive”), relações tóxicas desfeitas (“On Your Side”), desejo e “experiência feminina” (“Feminine Urge”), temáticas queer (“Sinner”) e religião (“My Lady of Mercy”). Se as Last Dinner Party não fizerem um bom segundo disco, ao menos Prelude to Ecstasy é um excelente ensaio para passarem a fazer todas as bandas sonoras dos filmes da Emerald Fennell (Promising Young Woman, Saltburn) – desculpa Laura, mas tive de roubar a referência. O posh, o faux drama em excesso e o q.b. pretensiosismo (mencionar Leningrado mais do que uma vez numa faixa em 2024 é certamente uma escolha) já estão todos por lá.

Prelude to Ecstasy é um disco pomposo e luxuoso. Ao longo de toda a sua duração, escutam-se influências de pop barroca à la Tori Amos – notoriamente em “Burn Alive”, cujo refrão explosivo é delicioso – e todo o álbum se encontra recheado dos tais adornos orquestrais que nos remetem para artistas como Florence and the Machine, o subvalorizado Belladonna of Sadness de Alexandra Savior ou o último disco dos Arctic Monkeys (The Car), cuja influência se escuta em “Mirror”, a faixa derradeira. E o que é que liga as Last Dinner Party a estes nomes? James Ford. É ele o produtor deste longa-duração e nota-se. O seu toque de midas escuta-se em Prelude to Ecstasy, ajudando a nivelar as composições maximalistas e progressivas (escutem “Portrait of a Dead Girl”) das Last Dinner Party, mas sem nunca as tirar do centro das atenções.

Os melhores momentos de Prelude to Ecstasy são quando as Last Dinner Party estão a obedecer à máxima pop dos Franz Ferdinand: fazer canções que fazem o público “explodir de alegria”. Numa faixa como “Sinner”, com refrão dançável a lembrar Kapranos e companhia, quase conseguimos ver as bandeiras em Glastonbury a desfraldar pelo vento; em “Nothing Matters”, mistura entre indie rock britânico do início da década de 2010 com glam rock à la Queen (Emily Roberts fez de Brian May numa banda de tributo aos Queen e essa devoção escuta-se várias vezes em Prelude to Ecstasy), essas bandeiras já desfraldam pelo vento quase por default. Isto são canções para serem berradas por um público em êxtase – disso não tenham dúvidas.

Quando as Last Dinner Party abrandam, como no caso de “Beautiful Boy”, a voz de Abigail, cujo alcance vocal a transforma numa espécie de Freddie Mercury para zoomers do TikTok, consegue conquistar-nos na mesma, mas a canção rapidamente se torna olvidável fora o seu invólucro bonito. O mesmo se pode dizer sobre “On Your Side”, cujo contornos progressivos não a salvam de soar a uma faixa desinteressante de Weyes Blood. A “experiência feminina” vende mais do que nunca no pós-Billie Eilish, mas nem toda a gente vomita as suas tripas com a qualidade e emoção crua e nua de uma Olivia Rodrigo.

Muito do material de Prelude to Ecstasy foi aprimorado na estrada, durante o período em que as Last Dinner Party ganharam hype na cena londrina, por entre Windmill e bares locais. Reza a história que, pouco depois de começarem a tocar ao vivo ainda sob o nome de The Dinner Party, um vídeo de um dos seus primeiros concertos despoletou um frenesim entre editoras. Reza também a história que a forma como muitas pessoas chegaram às Last Dinner Party foi a partir de discussões online sobre se eram ou não um “produto” criado pela indústria (eu próprio participei no discourse sobre se as Last Dinner Party são industry plants, portanto também não estou isento de culpas), a partir do momento em que apareceram como uma das bandas de abertura (num slot nada carinhoso de início da tarde) para um concerto dos Rolling Stones em Hyde Park, em julho de 2022.

Como Laura Snapes perguntou na Pitchfork, será “demasiado cínico questionar se as alegações de um artista ser ou não uma industry plant servem como ferramenta de marketing perversamente útil?” “Provável”, conclui a jornalista e crítica britânica. No The Guardian, Alexis Petridis questionou algo semelhante na sua crítica a Prelude to Ecstasy. “As acusações inevitáveis de se ser uma industry plant tornaram-se parte do processo natural que acontece quando a popularidade de um artista aumenta rapidamente, semelhante ao mesmo caminho que outrora um artista fazia quando era cunhado como life-changing na imprensa semanal musical”, escreveu.

Há uma conversa a ser tida sobre as Last Dinner Party e o privilégio de se poder “fazer” arte – e o imbróglio recente em que se viram envolvidas devido a umas citações tiradas fora de contexto sobre privilégio só aumentou a urgência da discussão, tanto no Reino Unido como cá –, mas (por agora) isso vai ficar em banho-maria. Essa conversa é mais velha que o próprio tempo e, por esta altura do campeonato, já devemos saber o bê-a-bá de memória. Quem vem do privilégio, tem o acesso à cultura facilitado e, consequentemente, mais liberdade para conseguir trabalhá-la. Será que as Last Dinner Party teriam conseguido aprimorar o espetáculo ao vivo que as levou a serem assinadas pela Island Records (multinacional jamaicana que pertence Universal) se não viessem de um background privilegiado? Tenho sérias dúvidas.

Mas acima de tudo, as Last Dinner Party são um caso interessante do que o bom marketing é capaz de fazer numa banda com ideias. O seu caso é semelhante ao das Wet Leg que, curiosamente, também foram apelidadas de industry plants pela Internet e, tal como as Last Dinner Party, foram obrigadas a rejeitar publicamente essas acusações (curioso que este discurso seja sempre dirigido a mulheres, mas que o universo do indie sempre cheirou a flanela pintada de tons misóginos, isso já o sabemos).

No caso das Wet Leg, tais acusações sempre me pareceram muito estapafúrdias. Quem iria tentar fazer plant de um duo de indie rock da Ilha de Wight? Parece-me que estamos a dar” demasiado crédito a executivos” que, na sua maioria, estão obcecados com “perseguir tendências” ao invés de investir em artistas “com algo único que os distingue dos restantes”, como James Fenney afirmou no blogue Belwood Music; no caso das Wet Leg e das Last Dinner Party, essas sonoridades e estéticas não parecem tão comerciáveis a olho nu.

É bom que as pessoas questionem, mais do que nunca, a maneira como a indústria musical nos atira coisas para serem consumidas sem nos dar oportunidade de pensarmos criticamente no assunto. Numa era onde o algoritmo domina nas plataformas de streaming, a crítica deve ter esse papel – filtrar, questionar e enquadrar.  No caso das Last Dinner Party, parece haver muito para enquadrar e refletir – mesmo que a música seja boa já por si só.

As The Last Dinner Party tocam no segundo dia (7 de junho) da próxima edição do Primavera Sound PortoOs bilhetes podem ser adquiridos aqui.

Cucujanense de gema, lisboeta por necessidade. Concluiu um curso de engenharia, mas lá se lembrou que era no jornalismo musical e na comunicação onde estava a sua vocação. Escreveu no Bandcamp Daily, Stereogum, The Guardian e Público, foi outrora co-criador e autor da rubrica À Escuta, no Espalha-Factos, e atualmente assina textos no Rimas e Batidas, WhereTheMusicMeets e, claro está, na Playback.
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Muito para enquadrar e refletir.

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