Quem me conhece sabe que não uso serviços de streaming. Cheguei a ter uma conta de Spotify free (e que ainda existe porque não me dei ao trabalho de a apagar), mas raramente a usava a não ser na rua. Em casa, ouço principalmente a minha colecçăo de discos, ou se não souber de todo o que me apetece ouço rádio, normalmente a FIP, bem sintonizadinha na minha aparelhagem dos anos 80. Como diz o Bonança na Carte Blanche desta edição, faz-me um pouco de confusão ouvir música como quem vai às Finanças—e nem todos os ambientes externos são adequados (ou até seguros) para nos deixarmos levar como deve ser.
Isto tudo para dizer que no mês passado comprei um leitor de mp3. Vi um à venda igualzinho ao que tinha no saudoso verão de 2006, só que com ligeiramente mais capacidade (os modestos 256mb passaram a 8gb) e com algumas funcionalidades extra, e nem pensei duas vezes. Mas de resto é basicamente o mesmo que tanto me acompanhou nas idas e vindas de férias, faculdade, concertos, gravações, ensaios, e outras aventuras que tais: uma pen USB cheia de ficheiros mais ou menos organizados, que sempre gostei de pôr a tocar em modo aleatório para ser apanhada de surpresa nas minhas emoções. Afinal, a selecção é minha—gosto de tudo o que está lá dentro. Há vinte anos, estava cheia de Velvet Underground, Yeah Yeah Yeahs, Doce (!), algum David Bowie, alguma Patti Smith, a OST do Velvet Goldmine, e também coisas de bandas minhas e de amigos, por vezes ainda em formato demo, na expectativa de que essa escuta contínua me desse ideias de como arranjar e/ou produzir determinada faixa. Com a preguiça aliada a falta de tempo para estar constantemente a ripar CDs (ou a sacar música no eMule) e a mudar o que lá tinha dentro, ouvia quase sempre o mesmo. No fundo, aceitei que essa era a minha banda sonora para os momentos de deslocação no exterior, uma espécie de descanso mental através da previsibilidade que surgia como intervalo dos mil estímulos musicais que tinha em todas as áreas da minha vida. E, às vezes, nem disso precisava—tinha (e tenho) sempre um disco a rodar incessantemente dentro da minha cabeça, o que faz com que ouvir música seja ocasionalmente tão cacofónico como pôr duas faixas a tocar ao mesmo tempo.
Mas esta libertação que proclamo não é apenas da ubiquidade letárgica gerada pela hiper-conveniência. Mais do que tudo, trata-se de intencionalidade e de resistência—contra a indústria, contra a comodificação, contra o próprio sistema que parece tudo oferecer de mão beijada apenas para ocultar o facto de que não possuímos nada e alugamos tudo. Quando até a nossa relação com o que nos move se torna descartável, estamos voluntariamente a renunciar à nossa humanidade.
Isto não é uma apologia da pirataria. Mas se quiserem verdadeiramente apoiar os vossos artistas preferidos, ouçam-nos com intenção. Vão vê-los ao vivo. E se decidirem que realmente querem ter a música deles, comprem o CD, o disco, ou até o formato digital. A música certa pode mudar a vossa vida; não deixem que se torne num mero clic indiferente enquanto o algoritmo decide o que vos irá empurrar goela abaixo a seguir.

