Editorial #7

Passaram-lhe o microfone, que agarrou com as duas mãos. Fez uma pausa antes de falar, a cabeça baixa olhando o chão como se estivesse a dar atenção redobrada à pergunta, fixando o infinito através dumas Adidas Samba douradas. Por fim, comentou em voz baixa: “Desculpa, podes repetir a questão?” O repórter, ainda um pouco verde nestas coisas de entrevistar superestrelas, engasgou-se ao reler directamente das notas que tinha no telemóvel. De novo o silêncio revelador de premeditação, a serenidade de quem está à espera de que se lhe baixe o santo, de que a inspiração divina o guie na direcção correcta. Mas desta vez respondeu:

“Acho que esse tipo de questão já não faz muito sentido nos dias de hoje, sabes? Com todo este bombardear de novas modas, nova informação, novas tecnologias, acabamos por estar constantemente a ser empurrados para um buraco. E o problema é que nem sequer nos apercebemos disso até olharmos o buraco de perto. O que quero dizer com isto é: tornou-se tão inevitável que nos percamos em detalhes supérfluos que esquecemos o valor que algumas coisas passadas tiveram na nossa formação. Olha eu, por exemplo. Todo o meu sucesso não faria sentido sem esta força sobrenatural que me apoia e me mostra o caminho. Eu sei que sou magnífico, mas repara; a glória não é só minha. O que acontece é que já não consigo rever-me nas inconsistências que me rodeiam. No fundo, o que me importa é servir algo maior, percebes? Mas que culpa tenho eu se a vontade desse algo maior é que seja eu o escolhido? Cada um nasce para o que nasce, não posso ir contra o meu destino.”

tripeira de nascimento, parisiense por adopção. já escarafunchou muita arte, pisou muito palco, escreveu para muito sítio, e deitou muita carta. doutora em quebrar corações (e não só) e eterna electroclasher.
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