Os últimos concertos de David Bruno

Rute Correia e José Duarte escrevem sobre os últimos concertos de David Bruno no Coliseu do Porto e Festival F, respectivamente, que ocorreram no passado mês de setembro. Uma ode playbackiana à reforma prematura escrita a quatro mãos, dois tempos, e duas geografias.

7 de setembro – Coliseu do Porto

O último concerto de David Bruno foi a despedida merecida.

Um mês depois, a fervura daquela noite de setembro ainda aquece o coração. Continuo a guardar na cabeceira a rosa de António Bandeiras, que os meus amigos apanharam na primeira fila. 

Se é certo que o renascimento de dB como David Bruno, em 2018, deixava antever algo maior, bastava ter estado atento. Homem de talentos variados, nesse ano DB escrevia no Facebook aquele que é um dos melhores textos jamais publicados sobre a magia do lanche ajantarado.

Reviews de Tudo

Em palco, essa habilidade para nos fazer sentir em casa é um dos trunfos de David Bruno. Jogar em casa pode parecer mais fácil, mas cada verso partilhado é o reflexo de anos de trabalho, tanto tempo escondido dos holofotes, apesar de brilhar para a sua pequena multidão. Quem foi ver o seu último concerto, naquela noite suada de 7 de setembro, eram os de sempre e David Bruno sabe disso. Daí que a cada pausa entre canções, o músico se desdobre em agradecimentos infindáveis. Gratidão e humildade a jorro, porque sente e sabe que cada passo do seu sonho só existe porque teve esta companhia dedicada. De coração ao alto, berra ao infinito que sem o seu público “era uma merda”.

David Bruno é, provavelmente, um dos melhores exemplos da dificuldade de reconhecimento quando se é um artista fora da máquina. Apesar de surpreender pela positiva, é risível que a sua merecida nomeação para os Globos de Ouro tenha chegado cinco anos após o início desta jornada, um percurso com quatro álbuns editados em nome próprio (mais um em colaboração), dezenas de concertos pelo país fora, e já com uma pausa anunciada para o seu caminho a solo. Em 2012, aterrou na música nacional com [Retro]Activo. O aviso do que estava ali a nascer estava quase na abertura: o trabalho de recortes em “Onde está Gaiolin?” era tão encantador que, logo logo, uma das grandes mentes criativas da Meifumado lhe pegou para fazer o emblemático “Cara de Chewbacca”. Não tardou muito para que chegasse [Beat​]​erapia. é verdade que sempre tive uma queda por instrumentais boom bap, mas com duas pérolas deste calibre em pouco mais de seis meses, era difícil não apostar boas fichas em dB. Tive o privilégio de ser uma das primeiras pessoas que lhe deu destaque – na altura, segurava a rubrica de música nacional da rádio Oxigénio, ao lado do Tiago Santos, e, por isso, pude mostrar ambos os álbuns ao mundo. Felizmente, houve outros – uns mais dentro, outros mais fora dos circuitos de opinião – que lhe garantiram algum espaço aqui e ali, até chegar aos diários de referência.

David Bruno no Coliseu do Porto. Fotografia: Simão Costa
Mohammed da Costa e David Bruno. Fotografia: Simão Costa
David Bruno no Coliseu do Porto
David Bruno. Fotografia: Simão Costa

Não sou de Gaia, nem sequer do Norte. O meu universo de referências culturais ergueu-se primeiro entre o subúrbio lisboeta e o litoral alentejano, de onde os meus avós são naturais. Mas os caminhos que David Bruno desenha com as suas canções projetam referências tantas vezes varridas para debaixo do tapete. O Carpa, com as suas gloriosas travessas de inox, é em Gaia, mas pelo país fora todos temos os nossos locais de estimação, em que hordas de senhores de bigode se encostam ao balcão a beber finos e discutir bola, enquanto outros lambem os beiços molhados com a gema de um ovo de bitoque. A travessa de inox como símbolo de uma união cultural que extravasa a rigidez da gastronomia local, e as idiossincrasias de terras esquecidas pelos espaços de comentário da vida nacional.

Ele sabe disso e está a celebrar o sonho realizado: terminar esta etapa com pessoas com quem partilha os cenários de fundo e com outras tantas, que vieram de longe só para fazerem essa última viagem. Revisita cada um dos seus grandes êxitos e termina com o clássico “Lamborghini na roulote”, refrão que só os verdadeiros conhecem, porque nunca foi editado e só aparece em concertos (está no youtube ripada de um concerto, por um fã).

David Bruno no Coliseu do Porto.
David Bruno e Marquito no Coliseu do Porto. Fotografia: Simão Costa

E nesta noite, como em todas as boas celebrações, há de tudo: DJ set de abertura (António Bandeiras, dáme um baijo), “parabéns a você” a uma aniversariante petiz, celebrações por casamentos vindouros, refrões entoados em plenos pulmões, “GONDOMAR! GONDOMAR!”, convidados encantados (Gisela João, Marlon Brandão, Mike El Nite e Rui Reininho juntaram-se ao espectáculo), solos arrebatados (obrigada, Marquito), “GAIA! GAIA! GAIA!”, discursos emotivos, público em palco com beijinhos para todos, “demasiado gentis, vocês são demasiado gentis”, a bandeira de Gaia no palco, teclados espatifados em modo estrela de rock, uma festa sem fim, como o protagonista merecia. No dia seguinte, em Faro, foi a ressaca e já nada importa, porque o sonho foi cumprido aqui.

E se as despedidas são sempre agridoces, ao menos “fomos felizes pelo que vivemos juntos”. Obrigada, David Bruno. Cá estaremos à tua espera, quando decidires regressar.*

* Sim, bem sabemos que já está aí à porta um novo disco de Conjunto Corona. Estamos a falar a solo.

8 de setembro – Festival F, em Faro

Após partirem a mobília toda (literalmente, veja-se o que aconteceu ao pobre teclado do Mohammed) no Coliseu do Porto, foi tempo de David Bruno e a sua comitiva rumarem à capital do Algarve, para o segundo dia do Festival F. Para os mais atentos, depressa se questionou a existência deste tal concerto que estava marcado para depois do seu “último concerto”. O artista gaiense esclareceu sucintamente: “O concerto em Faro é o after”.

De facto, não se tratou de um concerto. Foi pura rambóia com umas músicas pelo meio Depois de um breve atraso, que fez as más-línguas lançar umas injúrias de que o artista tinha-se deixado ficar nas margens do Douro, ou até que já se tinha deslocado para um retiro espiritual face a este hiato na carreira a solo, eis que surge o Sr. António Bandeiras, adornado de rosas, com a missão  de embelezar o palco com o vermelho florista que espalhou pelos instrumentos. Em seguida, deu-se o que podemos chamar de “DJ set à António”. De Tony Carreira, a António Variações, passando por Toy e findando com umas jardas de europop, António Bandeiras deixou o público “top top” – como o próprio classificaria.

David Bruno no Festival F
David Bruno no Festival F. Fotografia: Duarte Drago

Agora, o prato principal. David Bruno entra e “GONDOMAR” começa logo a ser entoado em  alto e bom som pelo público. Foi o primeiro dos intermináveis e inquatificáveis cânticos entoados naquela noite de 8 de setembro. Depois, é difícil de apalavrar o que por lá se viveu. Músicas? Sim, cantaram-se umas quantas. Percorreu-se Raiashopping, foi-se até Miramar Confidencial, e até se dançou O Último Tango em Mafamude, sempre com dedicatórias a travessas de inox, emigrantes e, claro, às cidades portucalenses (e vá, Lausanne) que tanto iluminam o imaginário deste “indivíduo de Gaia que faz pela vida”. Contudo, o que acabou mesmo por marcar este after foi mesmo a interação do artista e compadres com o público (um dos pilares das performances ao vivo de dB). Descobriu-se que David Bruno não sabe onde é Ansião – pena, com certeza que ia ser fã das Festas de Ansião -, defendendo-se com o trunfo de que “Leiria não existe”. Confessou, enquanto turista gaiense em terras algarvias, que sabe muito bem o caminho para Monte Gordo e deu as suas habituais introduções categóricas antes de cada canção. Deu tempo para ainda encher umas flexões e dar um treininho de costas aos seguranças que carregaram o artista de Gaia aquando das suas migrações para a plateia.

Ao palco subiram alguns fãs e amigos de David Bruno. Primeiro, da plateia, subiu o rapper algarvio Real Punch, muito querido pelo seu público farense e que, inclusive, tem um disco produzido pelo próprio dB (GLDNSHWR). A estes, na música “Bebe & Dorme”, juntou-se um fã com o refrão dessa cantiga tatuado na perna, que António Bandeiras revelou ao público após lhe tirar as calças. Acabaram a canção todos abraçados a cantar. As ramboias da boa devem ser assim e o público gostou. Quando dB rumou à plateia, foram só abraços e abanões. Enfim, riu-se muito e tudo foi mais galhofa do que concerto.

António Bandeiras no Festival F
António Bandeiras. Fotografia: Duarte Drago
David Bruno no Festival F
Público de David Bruno no Festival F. O autor desta segunda parte do está ali do lado direito. Fotografia: Duarte Drago

Porém, e mais uma vez, isto era um after. Logo, o que queríamos, o que o público queria, era exatamente isso: galhofa. Rambóia. Festa. O popular e o trivial. E se há algo popular e trivial (apesar de musicalmente não o ser), é a música de David Bruno, que tanto se engrandece ao vivo. Mohammed (o “teclista” de dB) carburou cigarros, Marquito sensualizou os amplificadores com as suas guitarras mui-gentis e António Bandeiras fez dos seus números acrobáticos – apelidado corretamente por David, como o Spider-Man das Caxinas.

E David Bruno? Esse disse adeus. Despediu-se dos seus fãs.. Até quando? Não se sabe. Mas uma coisa é certa: não nos vamos esquecer dele, especialmente se alguma vez o vimos ao vivo.

,
O primeiro artigo que escreveu sobre música eletrónica foi para o jornal da escola. Continuou a escrever, passou por uma grande promotora, mas foi na rádio que alimentou a maior paixão. A sua voz atravessou a antena de quase uma dezena de estações, mas teve residência permanente na Oxigénio durante cerca de cinco anos. Mais tarde, fundou o Interruptor. Atualmente é uma das responsáveis pela campanha Wiki Loves Música Portuguesa.
Artigos criados 12

Artigos relacionados

Digite acima o seu termo de pesquisa e prima Enter para pesquisar. Prima ESC para cancelar.

Voltar ao topo