Inês Matias é uma artista multidisciplinar. É flautista, designer, cantora, produtora. Na sua música, a pluralidade destes universos reúne-se, encontra-se, floresce.
Entre a crescente paleta colorida das suas mais recentes cantigas (que inclui o excelente EP Submersa, de 2024) e a melancolia caseira dos seus primeiros lançamentos de 2021, encontramos Inês a dar cor aos seus sentimentos e aos acontecimentos da sua vida via um jazz pop diverso que tanto deve a artistas como Billie Eilish, Tom Misch, Clairo ou Jorja Smith. É música influenciada pela Internet que encontra refúgio no universo e estéticas do cosmos zoomer online.
Em 2025, descobrimos a música de Inês por sorte, e ficamos interessados. No último trimestre do ano passado, ligamos à artista radicada em Leiria, cidade fulcral para entender o seu crescimento artístico, para sabermos mais sobre o seu percurso até ao momento.
No teu mais recente single, “Abre os Olhos”, declaras que sentes a cantar. Para ti, fazer música é uma forma de afirmares o que sentes no teu dia a dia?
Sim. Eu sigo muito o que sinto e não forço nada os processos de escrita. Quando estou a sentir algo, ponho logo no papel aquilo que sinto. Nem precisa de ser coerente, porque só mais tarde é que estruturo as coisas e transformo as ideias em coisas mais bonitas. Mas por norma, tudo começa em situações pelas quais estou a passar e tento explicar o que sinto sobre elas em poemas.
Começa tudo então pelo valor sentimental da canção? Ou existe uma ideia musical à priori que é aproveitada para representar o que sentes?
Por norma, começo sempre pelas letras, mas também já aconteceu casos onde surgiu uma melodia primeiro. Depende do que me apetece, honestamente. Às vezes, há letras que evocam certas melodias, e há melodias que evocam letras.
À medida que tens lançado mais canções, as letras têm assumido cada vez mais relevância. O que escreves sofre muitas alterações ao longo do teu processo para fazeres uma canção?
Por norma, aquilo que escrevo fica igual até ao final. Escrevo estrofes soltas sobre o que sinto e às vezes unem-se. Podem não ser exatamente sobre a mesma situação, mas os sentimentos ligam-nas. Acaba tudo por fazer sentido. É como se eu tivesse um diário de mini estrofes que vou escrevendo e junto depois para fazer uma música. Há dias em que estou a sentir imenso e escrevo, escrevo, escrevo, sem parar. Quando isso acontece, a música fica logo feita na minha cabeça [risos].
Não sei se é um clichê, mas sinto que a tua música representa muito um ideal de amadurecimento, de coming of age.
Talvez [risos]. Eu tento não complicar muito e ser muito transparente naquilo que quero comunicar, mas sem dizê-lo de forma literal. Tento filosofar e construir metáforas porque é algo que me interessa muito porque gosto muito de poesia. Se calhar, por gostar bastante de poesia ajuda a que algumas coisas que escrevo saiam naturalmente.
Tens referências a nível de poesia que sentes que te impactam diretamente?
Sinto que poderia ter mais. Ainda estou a descobrir mais sobre poesia, mas gosto bastante de Fernando Pessoa. Identifiquei-me logo assim com toda a sua poesia. Lembro-me que havia um heterónimo [Alberto Caeiro] que admirava a natureza e apreciava os sentimentos mais simples. Gosto de explorar essas coisas, mas de uma forma mais contemporânea.
A natureza está muito presente na estética que apresentas nas tuas músicas – da sonoridade ao design das capas. Como vês a relação entre a natureza e as tuas músicas?
É verdade. Eu vejo paz na natureza. É como se a natureza falasse e eu sentisse emoções através dela. Eu cresci rodeada pela natureza e sempre fui uma pessoa calma [risos]. Acho que sempre fez sentido para a minha essência, então.
É interessante dizeres que és uma pessoa calma, porque há algumas canções tuas que soam bastante hiperativas [risos].
É como se estivesse dividida entre esses dois lados. Tenho o meu lado super calmo, sim, mas também tenho um lado que quer diversão e abanar o pé. Talvez esse lado seja mais influenciado pela música noturna [risos] para me divertir.
Estudaste num conservatório de artes em Leiria, uma cidade que, muito devido ao trabalho desenvolvido pela Omnichord e, ainda antes, pelo Carlos Matos, tem uma forte relação com a música alternativa. Foste influenciada de alguma forma pela cena artística da cidade?
Bem, depende… acho que o conservatório me influenciou bastante. Quer dizer, a produção musical apareceu na minha vida um bocado à toa. Estudei no conservatório, sempre gostei de cantar, mas acabei por seguir o ensino de flauta transversal. Ainda bem que o fiz, porque estudar um instrumento abre muitas portas e permite-te explorar muitas sonoridades diferentes. Quando comecei a estudar música, ainda nova, não tinha noção do que era “música” em termos mais, digamos, profundos. Depois, algo mudou. Percebi que podia transmitir emoções com a música. Podia fazer algo mais do que só tocar “bem” o meu instrumento. Podia tentar extrair as emoções de uma pauta e provocar sensações em mim e nos outros. Só mais recentemente é que comecei a experimentar produzir também, tendo por base todo o conhecimento e experiências que trouxe de trás.
Quando produzes agora, apesar de saberes tocar alguns instrumentos, é muito à base de um DAW [digital audio workstation] como o Ableton? Ou os instrumentos que utilizas para fazer as tuas músicas são “reais”?
Por acaso, até uso o FL Studio [risos]. Mas gosto de brincar com alguns instrumentos no FL Studio, sim. Gosto bastante de encontrar sons de sintetizadores que me agradem e de tentar utilizá-los para criar ambiências mais… angelicais, por assim dizer.
Acho que a canção que mais se assemelha ao que descreves é a “Biografia”.
Sim, sim. Olha, essa até surgiu por causa de um projeto da universidade [risos]. Foi nessa frase que ela apareceu.
Por acaso, acho que a flauta é um instrumento cujo som vem muito da natureza.
Sim. Acho que o meu gosto por sons mais ambientais e pela forma como uso reverbs vem muito da flauta. E mesmo quando canto, talvez há ali qualquer coisa que vem da flauta…
Apesar de fazeres muitas coisas sozinha, passaste por um período em que estavas a colaborar frequentemente com o FRANKIENB. Preferes criar sozinha ou trabalhar com outras pessoas?
Diria que é 50/50. Adoro colaborar com mais artistas porque me dá vontade de continuar a fazer música. Acho que trocar ideias e dividir processos é mais divertido. Porém, ao mesmo tempo, há aquelas músicas que são um pouco mais pessoais e melancólicas em que sinto que o processo individual faz muito mais sentido. Também há coisas que gosto de explorar mais nesse processo individual ao nível da sonoridade. Não gosto de me cingir a um só género e gosto muito de explorar as várias facetas do que pode ser a minha música.
Acho que algo que despertou a minha atenção para a tua música é sentir que está muito ligada à Internet a um nível estético. Para ti, a Internet funciona como uma ferramenta onde podes encontrar pessoas com quem colaborares com mais facilidade e descobrires música que, à partida, não terias acesso?
Sinto que a Internet me ajudou a encontrar um espaço para mim. Contudo, tenho imensas saudades de quando estudava no conservatório e estava inserida num espaço de comunidade e de partilha de processos. Adorava tocar numa banda, por exemplo, ou estar envolvida em mais processos criativos com outras pessoas.
Não sei se sentes dificuldade em encontrares pares com quem queiras colaborar desde que saíste do conservatório e/ou da faculdade… Quando tocaste no festival A Porta, tocaste sozinha não foi?
Sim. Só levei o Tiago Paiva como meu técnico de som e ele, na realidade, meteu as músicas a tocar para eu cantá-las [risos]. É difícil para mim arranjar pessoas para trabalhar comigo. Comecei sozinha e sinto que é difícil encontrar mais pessoas que partilhem os mesmos interesses que eu na minha zona. Em Leiria, sinto que consigo fazer melhor as coisas sozinha.
Há bocado, quando perguntei pela influência de Leiria na tua música, era mais por isso… Nos últimos 15 anos, é uma cidade com histórico forte na música independente devido ao impacto da Omnichord e de artistas como a Surma ou os First Breath After Coma. Porém, hoje é um sítio onde podes com facilidade encontrar outros músicos com quem possas colaborar?
Exatamente. Eu sei que esses sítios existem – ou supostamente, existem –, como as residências no espaço Serra, que são orientadas pela Omnichord. Já pensei em inscrever-me, mas as datas nunca batem certo com a minha disponibilidade. Gostava imenso de estar num sítio com pessoas da minha idade a escrever e a produzir, mas é muito complicado encontrar essas pessoas aqui sem ser nos conservatórios.
Há malta com quem te identifiques que não está em Leiria? Como falaste no Tiago Paiva, ele era da ESAD, que é nas Caldas da Rainha.
Eu andei na ESAD também. Senti que nas Caldas da Rainha consegui encontrar muitas mais pessoas dentro da minha cena, com quem me identificava. Como por exemplo, o Moisés. Nós já trabalhamos juntos, mas as cenas que fizemos estão um bocado penduradas. Identifico-me com ele porque ele também é um artista independente que faz tudo sozinho. Mas é difícil encontrar aqui na zona pessoas que estão nessa situação.
Se calhar, é também complicado porque há menos pessoas da tua faixa etária interessadas neste processo de fazer música em conjunto. Ou quem está interessado, sai de sítios como Leiria para ir para o Porto ou para Lisboa e não regressam. Além disso, também existem menos espaços físicos para as pessoas se encontrarem e partilharem interesses.
Pois, exato. Eu adorava poder continuar a tocar ao vivo, mas não queria ser só eu. Quando penso em tocar ao vivo, imagino uma banda e sinto… que ainda não estou nesse patamar. Sinto que preciso de uma banda para chegar a algum lado e não sei se estou no nível para ter uma banda – para já. Se arranjasse as pessoas, se calhar.
Além da música também tens formação em design. Essa formação impacta a tua música? Ou sentes que são duas coisas que não se interligam?
Essa pergunta é interessante. Quando faço música, imagino muitas vezes espaços e coisas visuais. Se não tivesse feito design gráfico, não sei se teria essa capacidade. Sinto que me ajudou imenso nisso, e em fazer outras partes do processo artístico. Também faço as capas das minhas músicas e no futuro, gostava também de fazer merch. Tudo isto me permite ser mais independente [risos], diga-se.
Fala-se muito do Spotify e do impacto dos algoritmos e das playlists editoriais na divulgação do trabalho musical de um artista. Tu tiveste algumas músicas tuas a serem incluídas em playlists editoriais, o que para uma artista independente e desconhecida, é curioso. Consegues observar alguma coisa na tua música que pudesse ter captado a atenção dos algoritmos para isso acontecer?
Não sei… Eu faço música porque gosto. Nem estou a pensar nisso. A minha primeira música foi lançada no Youtube e não saiu em mais lado nenhum. Não ficou mal e não tive vergonha de lançar. Há pessoas que ficam retraídas com a ideia de colocar coisas cá fora, mas eu nunca tive esse medo. Senti só que a música tinha de sair e pronto. Não importava sequer se alguém fosse ouvir. Nunca pensei que alguma coisa que lancei iria parar a uma playlist editorial do Spotify. Foi um choque. E começou tudo com a “Solução”, que fiz com o FRANKIENB. Foi também a primeira música dele que encontrou espaço em uma playlist editorial do Spotify.
Interessante. Fiz essa pergunta porque há coisas na tua música, como as cenas mais jazz pop estilo Tom Misch e os vocais sussurrados estilo Billie Eilish, e que são cenas que, aparentemente, os algoritmos do Spotify gostam de escolher para as playlists editoriais da plataforma.
É engraçado dizeres isso porque efetivamente houve uma altura em que gostava – e ainda continuo a gostar, na verdade – de Billie Eilish. E eu sempre cantei assim, mais “baixo”. Ver alguém ter sucesso a cantar assim inspirou-me também a fazer as minhas músicas. A Clairo foi outra pessoa que também me inspirou a fazer canções no quarto e a mostrá-las ao mundo.
Engraçado porque anotei a Clairo como uma possível referência devido aos teus videoclipes caseiros. É tudo muito “Pretty Girl” [risos].
Sim [risos]. Também sempre adorei R&B e jazz. Gosto muito de Amy Winehouse e de Jorja Smith, por exemplo, que também têm um lado mais pop. Ultimamente, também ando a escutar bastante neo soul. Sinto que a minha música bebe muito do que ouço e salta sempre de género para género porque gosto de várias coisas que se misturam sem eu pensar muito no assunto. É um processo inconsciente.
Em 2024, lançaste o Submersa, o teu primeiro EP. Acho curioso o título tendo em conta aquilo que foste dizendo sobre a forma como exprimes os teus pensamentos e sentimentos através da música. Não sei se, depois de transformares isso numa música, te sentes mais aliviada e menos, lá está, submersa.
É exatamente isso. A “Submersa” surgiu do encontro de várias emoções intensas devido a uma situação pela qual estava a passar. E devido à intensidade da situação, surgiram-me logo imensas estrofes, que depois se transformaram na letra da canção. Tentei construir esta narrativa de que, ya, não estou fixe, mas as coisas vão melhorar. O EP tem muito essa ideia presente, que é meio esperançosa às vezes. Às vezes, sou super melancólica, mas isso acaba por me ajudar no futuro, porque fico esperançosa. Não sei se isto faz sentido, mas na minha cabeça, faz [risos].
Em 2025, lançaste dois singles, a “Sen-Sa-Ção” e a “Abre os Olhos”. Em 2026, gostavas de lançar um disco? Ou estás à espera de que o sentimento correto te impacte?
Diria que ainda estou à espera. Não gosto de forçar as coisas. Quando tiver de ser, será.
Fotografia de destaque: madonddieu_media
