O aniversário de Luís Salgado, programador do Maus Hábitos, volta a afirmar-se como algo que muitos amantes de música gostariam de ter com o seu nome: a grande festa de rock. Um cartaz que cruza artistas em ascensão com nomes estabelecidos na cena musical portuguesa, num ambiente que celebra tanto a amizade como a música ao vivo. Este ano, no entanto, houve um nome que escapava a essas duas categorias: os Green Milk From The Planet Orange, banda japonesa de rock progressivo.
A banda já conhecia território nacional, tendo passado por Portugal no final de 2024. Quem esteve presente nesse concerto no Maus Hábitos (um de vários por território nacional) sabe que foi um concerto memorável. Quem não esteve, perdeu um momento de enorme intensidade, assistido por uma plateia injustamente reduzida. Esta nova passagem acabou por oferecer aos Green Milk From The Planet Orange um palco e uma moldura humana mais próximos da aura e talento que estes três colossos musicais carregam consigo.
Dead K (guitarra e voz), A (bateria) e Damo (baixo) parecem jovens, mas contam já com uma longa história na música. A banda soma mais de 25 anos de atividade e vários álbuns de estúdio, tendo lançado o seu primeiro trabalho, The Shape of Rock To Come em 2001. Na altura, Damo ainda não integrava a formação, sendo o único membro não fundador do grupo. Ao longo dos anos passaram pelo projeto mais três baixistas, até que Damo assumiu definitivamente o lugar em 2016.


Com muita estrada percorrida, tendo já feito tours pelos EUA, Europa e, obviamente Ásia, o trio continua a tocar com uma intensidade rara, onde o virtuosismo técnico convive com uma atitude punk. Uma intensidade que parece não conhecer desgaste.
No dia 31 de janeiro, às 23h, os GMFTPO subiram ao palco do Maus Hábitos. À frente deles, uma sala cheia e um público de expectativas elevadas, sustentadas maioritariamente por uma premissa simples e eficaz: uma banda japonesa de prog rock. Honestamente, isso por si só já chega para tirar alguém de casa. Pelo menos, nunca ouvi falar de uma banda japonesa de prog que fosse má.
O guitarrista e o baixista sentam-se em cadeiras de plástico e colocam-se confortáveis com os instrumentos pousados em cima das pernas, onde permaneceram durante a totalidade do concerto. Embora muitos pudessem ter ficado céticos ao ver o que aparentava ser um recital, rapidamente engoliram essas acusações quando se apercebeu que o facto de estarem sentados não funcionou como limitação, mas apenas como um detalhe irrelevante perante a intensidade do que estava a acontecer em palco. Se o facto de estarem sentados os favorece, então força.
Ora eram os riffs de Dead K a empurrar tudo para a frente, ora era Damo a segurar cada momento de respiração com o baixo, mantendo tudo coeso no meio de um caos cuidadosamente controlado. Não havia contenção no uso de efeitos, mas o que realmente se destacava era o shredding insano de todos. A sensação era a de ouvir várias músicas a acontecer dentro de uma só, como se cada tema fosse um organismo em mutação constante. Uma viagem espacial sempre carregada de impacto, antecipação e porrada.


E depois havia A. A forma como atacava pratos e peles era assustadora. Parecia que estava a ver um atleta nos Jogos Olímpicos em topo de forma. Com o cabelo a tapar-lhe o rosto, parecia uma figura quase sobrenatural atrás da bateria, a tocar a velocidades absurdas. Sabia abrandar quando era preciso, mas quando começava a acelerar tornava-se intimidante, ao ponto de nos fazer questionar se aquele físico atlético é apenas consequência de tocar bateria.
Na plateia, praticamente não havia espaço para mexer, mas também não havia razão para tal. A tensão era constante. As dinâmicas estavam sempre no ponto certo e o jogo permanente com tempos pouco convencionais dificultava qualquer tentativa de leitura rítmica fácil por parte do público. Não sobrava espaço para o corpo reagir. Restava observar e absorver.
Ao longo do concerto, a banda foi cruzando diferentes linguagens, deixando claro o quão vasto e heterogéneo é o seu repertório, oscilando entre o punk, o pós-punk e o metal mais progressivo. Os vocais de Dead K, contagiantes mesmo que tenham sido incompreendidos por grande parte do público, foram sempre bem recebidos. Talvez tivesse faltado um pouco mais de dinamismo na resposta da plateia, ao nível de palmas e gritos, mas a verdade é que a sala estava cheia, com pouca margem para movimentos. Dá para sequer mexer num Maus Hábitos completamente cheio?
Foi um concerto de pouca conversa e muito rock. Num dos raros momentos em que se dirigiu ao público, Dead K anunciou, de forma não irónica, que a próxima música seria a última e que se tratava de uma canção de prog rock com 22 minutos de duração. O tema escolhido foi “Tragedy Overground”, um verdadeiro colosso que começa em territórios abstratos e se vai construindo através de crescendos e jogos rítmicos até atingir uma catarse inesperada, marcada por refrões surpreendentemente orelhudos.
O concerto termina e resta-me apenas procurar o queixo no chão. Não foi um concerto habitual do aniversário do Salgado, geralmente marcado por grande parte do público a cantar letras ou a fazer mosh, mas foi um teste para os apreciadores de música rápida. Onde quer que toquem, é difícil imaginar que não entreguem exatamente este mesmo nível de intensidade e qualidade: sentados, fieis a si próprios e com um compromisso absoluto com a música que fazem. Foi um privilégio raro estar na presença de uma banda que, mesmo já com uma carreira com tantos anos, mantém-se fiel ao underground, soando maior do que muitos nomes que habitam palcos bem mais visíveis.
