Milhanas na Casa da Criatividade: um poema visual

Silêncio. Que se vai cantar o fado. Mas não é o fado dito tradicional. É o fado à la Milhanas. Ora a soar tradicional, ora a soar moderno. Canções com um sabor melancólico mas que, ao mesmo tempo, trazem um conforto inexplicável. Canções que nos atormentam pela sua bruta honestidade mas que, ao mesmo tempo, aquecem o nosso coração como o sol de verão nos aquece o corpo. O mundo está cada vez mais perigoso e sombrio, mas as canções de Carolina Milhanas oferecem-nos uma réstia de esperança. Juntas formam um autorretrato profundo construído a partir de experiências e memórias, tanto da própria como daqueles que a rodeiam. De longas noites em claro, entre anseios inconscientes e inquietações impacientes, nascem canções que emocionam e dão vida a gerações.

Na noite de 16 de fevereiro, a Casa da Criatividade [S. João da Madeira, Aveiro] transformou-se num santuário musical onde Milhanas, uma das figuras mais essenciais na música portuguesa contemporânea, apresentou o seu álbum de estreia, De Sombra A Sombra. Sempre pensei neste disco enquanto prova de que a arte – neste caso, a música – é sinónimo de salvação e refúgio. Depois de o ouvir, pela primeira vez, ao vivo, as minhas teorias foram totalmente comprovadas. 

No entanto, não é com nenhum dos seus temas que abre este concerto, mas sim com uma versão intensa de “Na Ponta do Cabo” de Fausto (ah, produzida originalmente, em 1994, pelo seu pai, Vítor Milhanas). Não é a única que traz consigo. Ouvem-se ainda versões de Gilberto Gil, Valter Lobo e Camané, algumas das suas maiores referências (como já nos disse em conversa). Se há alguém que tem uma destreza única em transformar canções que não são suas em verdadeiras expressões pessoais é ela, graças à profunda emoção que infunde e transmite ao evocar cada palavra. A isto é que eu chamo de uma intérprete completa, porra.

Mas fale-se sobre De Sombra A Sombra ao vivo. Arrepio-me dos pés à cabeça sempre que revivo mentalmente este concerto. Fez-se acompanhar por Manuel Oliveira (piano), José Baptista (guitarra), Marco Reis (guitarra), Zé Ganchinho (baixo) e Guilherme Melo (bateria) que levaram para palco uma sinfonia rica em nuances. Mesmo assim, é Milhanas que conduz este espetáculo do início ao fim. Sim, chamo-lhe de espetáculo, porque definitivamente assim o foi. Uma combinação leve de música e humor, com pitadas de stand-up pelo meio.

“Sempre Que Te Vejo”, “Eu De Prosa” e “Roubar Um Corpo” deixaram-me completamente petrificada, não sei explicar-vos o porquê, é algo que só se sente. “Mãe” e “No Meu Perdão”, num formato acústico, acompanhada somente por Manuel Oliveira ao piano, levaram possivelmente algumas pessoas a não conter as lágrimas (aqui a vossa escriba, inclusive). “De Sombra A Sombra”, “Sã” e “Só A Mim” fizeram-me perder o fôlego, por momentos. “Mundo” converteu-se num abraço sonoro. “Mais Que Ao Sol” serviu para soltar umas gargalhadas com Milhanas a mostrar os seus dotes para a dança juntamente com uma espectadora que chamou ao palco (quem esteve presente, sabe que a D. Mena marcou efetivamente esta noite!). Pelo meio, uma canção nova (“Quero Decorar”), talvez uma das canções de amor mais bonitas que alguma vez ouvi na minha vida. Aqui, os seus olhos não esconderam as emoções à flor da pele. Que bonito é ser-se vulnerável; obrigada por mostrares isso, Milhanas. “Ser artista é saber ser-se vulnerável”, não mentiu. Houve ainda espaço para receber Rita Rocha. Juntas, entrelaçaram as vozes em “Corpo De Mulher”, tema que Milhanas levou ao Festival da Canção, e “Mais Ou Menos Isto”, primeiro single de Rita Rocha. Que bom foi testemunhar a intimidade entre estas duas artistas que provam que a música portuguesa, no feminino, está (mais que) viva e de boa saúde.

O concerto podia ter terminado por ali. Mas não, as palmas e os assobios imploravam por mais e Milhanas regressou para mais um tema. De novo, escutou-se “Mundo” mas, desta vez, o público foi o derradeiro protagonista. Tudo em coro, que emocionante foi. Uma sala quase cheia. Uma mistura de gerações. Milhanas deixou, sem dúvida alguma, uma marca permanente na alma de todos os que testemunharam a sua magia naquele palco.

Ora, não se deixem enganar pelos seus vinte e um anos de idade. Estamos a falar de uma artista com uma maturidade gigantesca. Cada palavra é delicadamente tratada, dando-nos a oportunidade de sentir e vivenciar as histórias como se fossem parte de nós. E a sua voz emerge na medida exata do que a música demanda, com a sensibilidade que apenas os grandes intérpretes possuem. Que sorte temos em tê-la.

Hoje celebramos o Dia da Mulher e, por isso, este concerto ganha uma relevância ainda mais profunda. Olho para o palco enquanto um microcosmos representativo da luta feminina pela expressão autêntica, pela igualdade e pela celebração da diversidade. Milhanas inspirou tudo e todos, tornando cada nota e movimento uma afirmação de autonomia e resistência. A sua arte transcende o palco, fundindo-se com a realidade das mulheres que continuam a desafiar limites e a traçar os seus próprios caminhos. Que a sua música continue a ecoar por aí fora, alimentando a chama da igualdade e inspirando uma nova geração de mulheres a fazerem ouvir as suas vozes, celebrando a autenticidade de cada uma.

Viva a Música.

Viva a Milhanas.

Viva as Mulheres.

Nascida e criada em Aveiro, mas com a Covilhã sempre no coração, cidade que a acolheu durante os seus estudos superiores. Já passou pelo Gerador, e pelo Espalha-Factos, onde se tornou coautora da rubrica À Escuta. Uma melómana sem conserto, sempre com auscultadores nos ouvidos e a tentar ser jornalista.
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Profundidade emocional.

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