Os Militarie Gun não precisam de espaço, precisam de calor

Quarta-feira. Chuva. Concerto de punk hardcore. Casa da Música? Quatro conceitos que, ditos em conjunto, não parecem encaixar muito bem.

A malta da do Primavera Sound Tours/Picnic Produções não deve ter pensado o mesmo quando marcaram, para o dia 21 de janeiro, o concerto dos Militarie Gun, banda norte-americana de punk hardcore, na emblemática sala portuense. Vindos de Los Angeles, os Militarie Gun formaram-se em 2020, em pleno contexto pandémico, e vieram ao Porto estrear a digressão de apresentação do seu álbum mais recente, God Save the Gun.

Quando saí de casa para ver o concerto, não conseguia parar de pensar: estou mesmo curioso para ver o que vai sair daqui. Estamos a falar de um concerto punk na Casa da Música a uma quarta-feira. Quem é que vai aparecer? Há assim tanta gente interessada nesta nova vaga de punk-hardcore com contornos pop? O hardcore mais acessível de que falo associo, obviamente, aos Turnstile, a banda que trouxe o hardcore para o “mainstream” nos últimos anos. Mas isto não era um concerto dos Turnstile. Era dos Militarie Gun. Uma banda conhecida dentro deste universo, mas ainda consideravelmente menos mediática. Resta então questionar: será o crescimento da popularidade do hardcore um fenómeno isolado, ancorado a um nome específico, ou estaremos a assistir ao início de uma pequena revolução?

Quando entrei na sala da Casa da Música, fui apanhado de surpresa. Não pela fraca afluência, porque para isso já estava mais ou menos preparado, mas pelo ambiente. No meio do público havia mesas e pessoas sentadas à sua volta, como se se tratasse de um concerto de jazz de fundo. Viam-se senhoras de idade, claramente ali porque confiam cegamente na programação da Casa da Música e, na linha da frente, meia dúzia de punks de olhos em chamas, a salivar por ação. Sentia-se principalmente uma energia na sala de que pouca gente conhecia verdadeiramente o que se ia ver.

Fotografia: Rafael Farias

Quando entrei na sala da Casa da Música, fui apanhado de surpresa. Não pela fraca afluência, porque para isso já estava mais ou menos preparado, mas pelo ambiente. No meio do público havia mesas e pessoas sentadas à sua volta, como se se tratasse de um concerto de jazz de fundo. Viam-se senhoras de idade, claramente ali porque confiam cegamente na programação da Casa da Música e, na linha da frente, meia dúzia de punks de olhos em chamas, a salivar por ação. Sentia-se principalmente uma energia na sala de que pouca gente conhecia verdadeiramente o que se ia ver.

Quando Ian Shelton, vocalista da banda, subiu ao palco, encarou imediatamente um desafio: a energia na sala estava morta. À frente do palco encontrava-se um vazio desconfortável e no ar pairava uma tensão estranha, quase constrangedora, como se qualquer movimento mais brusco fosse socialmente desaprovado. A pergunta impunha-se ainda mais: quem é que decidiu programar esta banda para a Casa da Música? Ainda assim, Shelton não se mostrou desanimado. Olhou em frente, analisou o terreno que pisava e aceitou que ia ser preciso trabalhar para arrancar uma reação a quem quer que seja. Abriram o concerto com “Bad Idea”, a música mais pujante e orelhuda do novo disco, e com alguma insistência o público começou lentamente a aquecer enquanto cantava o refrão orelhudo desta música – “B-A-D I-D-E-A”.

A formação, composta ainda por William Acuña (guitarra), Waylon Trim (baixo), David Stalsworth (bateria) e Kevin Kiley (guitarra), deixou toda a responsabilidade de interação com o público nas mãos do vocalista, mexendo-se um pouco mas sem terem qualquer interação ou quase cruzar de olhar. A tarefa de representar a banda naquela sala caiu completamente sobre Ian Shelton. Sem papas na língua, chamou o público mais para a frente e não apresentou medo da fraca adesão.

Ian não fez pedidos exagerados, nada de mosh pits ou violência gratuita e leu bem a sala. Entre músicas como Fill Me With Paint” e “Very High” pediu um saltinho aqui e acolá ou braços a baloiçar no ar. Aos poucos, as pessoas lá se chegaram para a beira do palco e, já na terceira música, era visível um público mais animado e mais recetivo aos pedidos do vocalista. Lá para o meio do concerto até saltos já havia. Muito pequeninos e no lugar, mas já havia qualquer coisa.  As músicas eram energéticas e caso o concerto estivesse mais recheado de público, de certeza que teria sido um ótimo cardio. Os breakdowns eram bons e os riffs, embora simples, funcionavam muito bem nas músicas.

Por muito que eu não seja particularmente fã da vertente mais pop da banda, era impossível negar os pedidos de salto em temas como “Kick” e “Will Logic”, ou até mesmo cantar as letras. Dou especial ênfase ao refrão “If I kicked you in the face, I’m sorry / But I would do it again”, que realmente foi uma enorme pena não poder cantar num mosh ao pontapé. As letras eram cativantes e acima de tudo, muito orelhudas, mas por vezes demasiado próximas do emo (na minha opinião). Nada de errado com isso, pois cria uma tensão entre o peso da música dos Militarie Gun e os traumas e a vulnerabilidade expressa em algumas canções da banda. O que talvez soou mais “fora” foi a postura por vezes exagerada de Ian Shelton ao mencionar que a banda era anti-mainstream e que o público era muito especial por ser do hardcore. O que há de anti-mainstream em tocar em festivais como o Primavera Sound?

Um dos momentos mais inesperados da noite aconteceu quando Ian Shelton pegou numa guitarra acústica, quebrando momentaneamente a intensidade do concerto com a música “Daydream”. Embora fosse uma música muito diferente das restantes tocadas ao longo do concerto, acabou por ser um bom momento de respiração. Por outro lado, quebrou também a qualidade do concerto, já que, neste momento mais calmo, se cometeram alguns pregos por parte da banda.

Fotografia: Rafael Farias
Fotografia: Rafael Farias

O final do concerto foi um explodir de emoções. Quando anunciam que faltam apenas duas músicas para o fim, chega o momento de ouvir “Do It Faster”, a faixa mais conhecida da banda. Ouve-se uma batida que marca a libertação oficial do público fã da banda do constrangimento. Cerca de cinco pessoas fizeram aquilo que ansiavam fazer desde o início do concerto: crowdsurf. Foi quase um milagre ninguém ter partido a cabeça, já que apenas um grupo muito reduzido se juntou para tentar garantir que esta brincadeira fosse possível. Inicialmente, houve ali um grande susto, porque ninguém estava à espera que houvesse corajosos para tal, mas, assim que aquele precedente se abriu, não havia retorno. Mais algumas pessoas se juntaram e montou-se um crowdsurf mais ou menos organizado. Para fechar o concerto, voltaram a tocar “Bad Idea” e, desta vez sim, o público já estava finalmente recetivo para se mexer como talvez devesse ter feito desde o início. Ian juntou-se aos corajosos e terminou o concerto nos braços do público, proferindo as palavras: “Nunca tive tanto medo de fazer crowdsurf”.

No fim de contas, este foi um concerto que pedia menos espaço e mais pessoas. Mesmo para quem não conhece a banda, é inegável que os Militarie Gun são intensos e cheios de energia – energia essa que passou grande parte da noite à procura de um sítio onde se libertar. A Casa da Música é de facto uma excelente sala, cheia de prestígio e com um excelente som mas, com toda a sua imponência e formalidade implícita, revelou-se um obstáculo constante a essa libertação. Uma banda de hardcore como esta precisa de proximidade, de calor humano e de um público comprimido contra o palco. Um espaço como o Mouco ou até o Maus Hábitos teria servido muito melhor os propósitos da banda e, muito provavelmente, ter-nos-ia permitido contar uma história completamente diferente desta noite chuvosa no Porto. Ainda assim, no meio do desconforto e da inadequação do espaço, ficou provado que os Militarie Gun têm o que é preciso. Só faltou o sítio certo para o mostrar.

Filho do rock, do doom e de todos os géneros musicais que nos façam abanar as ancas e a cabeça, reside em Braga onde estuda engenharia. Poderão encontrá-lo em qualquer cave onde haja barulho e em qualquer local onde haja cerveja a preços abaixo da média.

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