Editorial #63

Gosto de pensar que, aqui na Playback, mesmo que seja num microcosmos muito pequeno, influenciamos as pessoas a ir além da sua própria curiosidade. Pode parecer um objetivo pouco pequeno, mas num mundo onde o automático se torna a norma para a descoberta, é importante que esse nicho se mantenha vivo. 

Esta semana, muito se tem falado sobre “propaganda”, Geese, “fãs falsos” e “simulação de tendências”. Nada disto é novo – são práticas da indústria musical desde sempre. O que talvez difere aqui do passado é que não falamos de práticas levadas a cabo pelos grandes senhores do capital como a Universal, Sony ou a Warner. Não. Falamos de editoras independentes, de artistas provenientes do universo alternativo, que se prezam pela sua ética e pelos seus statements artísticos e políticos. 

O facto de que o universo alternativo está pronto a prestar-se às mesmas táticas do grande capital é sinal de que estará, provavelmente, mais que morto. O que significa apresentar uma alternativa ao sistema capitalista se a própria alternativa é capitalista? Por muito que possamos apresentar as nuances dessa discussão (que existem – a ética não paga contas), há que ter em conta a dimensão deste problema. Se todas as bandas que são aclamadas pela crítica e que “explodem” não são fenómenos orgânicos, mas sim construídos com a ajuda de algoritmos, payolas disfarçadas e campanhas de anúncios… talvez exista aqui um problema maior. 

Agências como a Wasserman (ou lá como se chama agora) contratam bandas que já contam com alguns fãs, colocam dinheiro à disposição para campanhas capazes de gerar discussões no digital, e uma nova realidade é implementada: vídeos no TikTok, comentários no Youtube, reels no Instagram, mini-entrevistas com influencers que recebem dinheiro em troca de “entrevistas” que operam não como jornalismo, mas como trabalho de relações públicas disfarçado de jornalismo. Se nada é real (máxima particularmente adequada à Internet), quão verdadeira é hoje uma cena alternativa que vive mais de hype manufacturado do que de práticas de solidariedade comunitárias? É cada um por si, ao que parece. Fuck.

Cucujanense de gema, lisboeta por necessidade. Concluiu um curso de engenharia, mas lá se lembrou que era no jornalismo musical e na comunicação onde estava a sua vocação. Escreveu no Bandcamp Daily, Stereogum, The Guardian, Comunidade Cultura e Arte, Shifter, A Cabine e Público, foi outrora co-criador e autor da rubrica À Escuta, no Espalha-Factos, e atualmente assina textos no Rimas e Batidas e, claro está, na Playback, onde é um dos fundadores e editores.
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