Terem passado seis anos desde que Ricardo Barroso, mais conhecido por bonança, lançou pela última vez um disco era um facto triste. Apesar do ocasional single e de uma aventura arrojada (e um pouco parva) chamada Playtime, sintomáticos de um pára-arranca artístico do qual padeceu bonança durante estes anos, a expectativa de um suposto primeiro longa-duração pairava no ar.

Nesta sexta-feira, 8 de maio, as dúvidas são dissipadas. Seis anos após o EP Mui Nobres Intenções (2020) ter visto a luz do dia, encontramo-nos com um bonança sozinho, acompanhado apenas pela(s) sua(s) guitarra(s) e por efeitos que aproximam as canções deste de algo semelhante ao que Luís Severo faz quando está em modo canção triste, ao que Coelho Radioactivo apresentou em Canções Mortas (2014), ou ao que Phil Elvrum canta no seu projeto Mount Eerie. é, sem dúvida, um disco muito triste e um grande disco preenchido por belíssimas canções. Tomamos café com o músico para entender todas as emoções que este canta ao longo deste seu álbum de estreia.

Capa só
Capa só
Na “Ah, Desaparecer” do teu primeiro EP [Mui Nobres Intenções] cantas: “Parece que gosto de errar”. Seis anos mais tarde, na “tão perto” deste , juras que ainda continuas a tentar. Quantos erros foram necessários para conseguires chegar às canções deste disco?

Como disseste, passaram seis anos desde o Mui Nobres Intenções. Aconteceu muita coisa. Vivi muitas experiências diferentes. Fui para Londres, voltei para Portugal – e para casa dos meus pais – e vim viver para Lisboa. Houve pessoas que entraram e, entretanto, já saíram da minha vida. E fiz muita música. O Playtime é o maior exemplo disso. Aquilo são sete horas e meia de música. Portanto, errei muito durante estes anos, mas também muitos desses erros serviram como aprendizagem.

O Playtime, onde decidiste fazer uma canção por dia ao longo de um ano, serviu como um momento de aprendizagem gigante ou de frustração?

Vou-te ser honesto. Acho que a aprendizagem foi em si uma frustração. Nasceu uma certa melancolia dessa experiência. O Playtime surgiu um pouco porque irritava-me a malta que falava do ato criativo como uma cena que claramente não o é – pelo menos, para mim. Como este momento super sagrado, uma cena super ritualística. É estúpido, estás a ver? Quis fazer um projeto que mostrasse que não é assim. Se queres fazer uma cena, faz. Se tens uma ideia, concretiza essa ideia. Por um lado, sinto que cumpri isso. Por outro, epá… concluí que se retiras a magia ao ato de criar, não sobra mesmo nada para te agarrares.

Sentiste-te cansado por tentares fazer música todos os dias?

Não digo bem cansado, mas senti-me vazio. Senti que aquilo se tornou num trabalho. Quando eu crio, gosto de criar porque existe intenção e vontade. Não quero que seja um gesto mecânico. Acho que demorei muito mais tempo a fazer este álbum porque houve qualquer coisa que ficou destruída com todo esse ano de 2022. Perdi aí uma vontade qualquer de viver.

Tudo isso ocorreu quando ainda estavas em Londres?

Não, foi entre Londres e Lisboa. Eu fui para Londres em outubro de 2021 e o exercício começou em janeiro de 2022 e durou até dezembro desse ano. Como eu voltei para Portugal em julho de 2022, o Playtime foi feito mais ou menos 50/50 entre Portugal e Inglaterra.

O que foste fazer para Londres?

Um mestrado em Popular Music Practice. O Playtime foi o meu exercício final de curso e serviu de escape a algo que eu senti com esse mestrado: que foi uma mega fantochada. Senti que o curso me estava a dar muito pouco para o que eu esperava, especialmente tendo em conta o dinheiro que os meus pais investiram para eu ir para Inglaterra. O Playtime serviu como um momento de auto-penitência para tentar justificar a mim mesmo que o curso fazia sentido e valia a pena.

Entre o lançamento do Mui Nobres Intenções e este , foste lançando vários singles. Esses singles foram canções que ficaram fora de um álbum de estreia diferente, ou foram só coisas que foste colocando cá fora para relembrar as pessoas que ainda estavas vivo?

Foi mais a segunda cena [risos]. Até fazer as canções deste disco, senti que andei muito tempo à volta das mesmas músicas. A “Cereais”, por exemplo, que saiu em 2024, já era tocada ao vivo desde 2020. Eram músicas com muito andamento e já com algum desgaste. A diferença principal da “Cereais” e da “Reflexos” para as restantes coisas que fiz é que foram as únicas canções que gravei em banda. Tudo o resto, tal como este , foi gravado a solo.

Quando penso em bonança, penso efetivamente no teu formato de banda ao vivo. Vais tocar este disco a solo ou em banda?

Para já, a solo. Sei que é estranho e, de certo modo, pode ser visto como um passo atrás. No entanto, confesso que há vários aspetos práticos e artísticos que justificam esta decisão. O que me entristece bastante são os fatores práticos. Começou a deixar-me angustiado as condições que eu conseguia para eles tocarem comigo. Eram concertos à porta que não faziam dinheiro suficiente para lhes pagar bem, eram cachês sempre como se eu fosse a solo e não com banda… Falamos de amigos meus que acreditam no projeto e que têm o gosto de investirem o seu tempo para tocarem comigo. Eu dou valor a isso, percebes? Portanto, queria mesmo fazer valer o tempo deles também. Depois, a mesma questão aplica-se ao estúdio. É mais caro e complicado gravar em banda do que só eu. Portanto, isso também pesou na decisão. Por outro lado, a nível artístico, senti que tinha de ser assim. Estive muito tempo bloqueado e sem conseguir avançar no disco que queria fazer. Depois, no ano passado, o meu amigo Lourenço Campos levou-me para o seu estúdio, que é ali na zona de Águeda, para gravarmos as cenas de um amigo que temos em comum, o Pedro Tavares. Quando acabamos de gravar as cenas dele, o Lourenço sugeriu-me ficar mais uns dias e gravar coisas minhas. Foi aí onde se iniciou o processo mais sério para conseguir concluir este álbum.

Isso foi em 2025, mas há canções deste álbum que são mais antigas que isso, não há?

Há várias delas que existem há mais tempo, sim.

Quando foram escritas foram pensadas para serem gravadas em banda ou para serem gravadas neste formato mais despido e cru?

Grande parte das ideias para estas canções foram feitas só à guitarra. A única que talvez escape a essa regra é a “pensei”, que está incluída como hidden track na versão física do álbum. As outras foram muito construídas a partir de fragmentos. Uma guitarra, uma voz, uma melodia, uma letra. No estúdio do Lourenço, houve o intuito de gravarmos o maior número de coisas diferentes possíveis porque as ideias estavam muito no ar. Algo que também concluí com todo esse processo é que não estava a dar-me a hipótese de me sentar e dar importância às minhas próprias ideias. No meio de subsistir, pagar as contas e gostar de me envolver no projeto das outras pessoas, não estava a conseguir encontrar tempo (nem vontade) para pegar nas minhas coisas. Foi por isso que essa semana em Águeda foi um ponto de viragem para este álbum. Permitiu-me começar um processo de reaprendizagem com muita coisa, mas particularmente com a minha própria criação. Em parte, também é por isso que estas são canções que acabam por ser bastante simples ao nível da composição. Dei por mim a pensar muito em acordes e progressões complicadas. Não me sentia com capacidade para entrelaçar ideias complexas. Queria apenas e só escrever canções simples.

Qual foi a primeira canção escrita para o ?

Acho que foi mesmo a “contas”, que abre o álbum. Era uma ideia solta que fiz há mais de um ano, ao contrário de grande parte das canções do disco que surgiram na reta final do álbum. E essa canção nem sequer era para fazer parte do disco. Era uma ideia perdida que sentia que não ia a lado nenhum. Contudo, quando estava a refletir sobre que canções incluir no álbum, apercebi-me que havia uma ideia de ciclo na canção e que fazia muito sentido com aquilo que queria comunicar. Não faz sentido repetir algo sabendo que o resultado vai ser o mesmo, não é? A canção comunica um pouco isso e achei que fazia sentido que ela fizesse parte do álbum e que fosse a primeira canção do .

Mas ficou um disco diferente por lançar?

Bem, acho que sim. O disco de banda com certeza ainda vai acontecer, mas se calhar não com os contornos que imaginei inicialmente. Inicialmente, esse álbum era para se chamar pelos cabelos. O conceito circulava em torno de, digamos, uma “aventura capilar” [risos]. A “pensei” vinha dessa ideia e é por isso também que está apenas incluída como hidden track no CD do . Irá ter outra vida de maneira mais “oficial” em breve. Acho que não fechei a porta totalmente a esse projeto, mas senti que era algo que tinha de ficar para outra altura. Estava a ser um entrave. Estava a ficar obcecado com o conceito que tinha para o álbum e estava a ser muito complicado materializar a visão que pretendia por causa disso.

Fotografia: Isis Goncalves
Fotografia: Isis Goncalves
Mesmo assim, sinto que existe um conceito maior aplicado a estas canções que fazem parte do . Uma ideia de relações que se perdem, de um eu que se desvanece. Também é por isso que sinto que as canções deste disco soam como soam – cruas, esparsas, etéreas. Lembra-me Mount Eerie.

[Risos] Tudo certo. Mas repetindo-me, senti mesmo que não tinha capacidade de fazer coisas mais complexas que isto. Não foi assim que fiz as minhas músicas anteriores. O que senti que mudou é que sofri um esgotamento emocional nos últimos anos. Com a criação, em primeiro lugar, e, depois, com tudo o resto. Sem espaço mental para conseguir criar, perdi-me. Também sinto que quando voltei de Londres e terminei o Playtime, achei que as coisas iam ocorrer de forma diferente. Acreditei que ia conseguir viver da música de alguma forma e percebi que isso era um problema. Não me deixava satisfeito. Isso também contribuiu para o desencantamento. Portanto, tive de encontrar algo que me desse subsistência e algum gosto. O design surgiu a partir dessa busca. Mesmo assim, senti que a minha vida começou a ser consumida pelo trabalho e, por causa disso, perdi a capacidade de momentos de lazer. Sinto que isso é algo que tenho de reaprender. Neste momento, a minha vida é só trabalhar. Quando acabar esta entrevista, vou voltar para casa e vou trabalhar na imagem de dois festivais diferentes.

Existe cada vez mais esta pressão para termos mais que um trabalho… seja por questões de conseguir pagar as contas, ou por questões mais de propósito e satisfação própria.

Pá, sim. O design, atenção, continua a ser precário. Menos precário do que a música, mas é precário na mesma. Porém, consegui encontrar um nicho que me permite subsistir. Mas tudo isto fez com que não sentisse que fosse capaz de ter gozo e prazer ao criar. Para mim, criar foi sempre uma coisa prazerosa.

Quando estiveste em Águeda, sentiste que esse prazer regressou?

Sim. Não senti pressão nenhuma durante essa semana. Foi uma experiência interessante e estranha porque fiquei no hotel da família dele [risos]. Então, não havia muito com que me preocupar. Havia o foco de gravar as músicas do Pedro ao início, mas quando ele bazou, o foco passou a ser gravar as minhas coisas. Durante essa semana, a vida foi mesmo: acordar, comer, estúdio, comer, estúdio, comer, dormir. Permitiu-me ter um foco diferente, mas também me fez perceber o quão fodido estou. Dei por mim a sentir-me ansioso se não tivesse algo para fazer. Quer dizer: ficar ansioso com o facto de não estar a trabalhar?

Eu padeço dessa doença. Chamo-lhe de “síndrome de Instituto Superior Técnico”.

Eu só estive lá um semestre! [Risos] Em 2016, em engenharia eletrotécnica. Depois bazei e fui para Ciências da Comunicação na FCSH. Mas isto não foi do Técnico [risos], um semestre não foi suficiente para isso. Foi mesmo algo autoinduzido pelo sentimento de culpa que senti pelos meus últimos anos. Por Londres não ter sido o que estava à espera, por sentir que não sei muito bem o que estou a fazer, e por acabar a estudar web design e a descobrir uma área que muita gente já descobriu mais cedo e sabe mais do que eu. Então, havia toda essa culpa acumulada e que está muito patente na falta de alegria que sentia na minha vida nesse preciso momento. O é sobre tentar reaprender a encontrar alegria na minha vida. É um processo complicado essa reaprendizagem. Preciso de reaprender a parar, a reaprender a ouvir música-

Na Carte Blanche que escreveste, falaste disso.

Sim. Tenho noção que este álbum, além de muito pessoal, é muito narcisista. É a minha vida que está a ser cantada. Porém, o que sinto que não me fez ter muita vergonha em escrever tanto sobre mim mesmo é achar que existe um espelho do que é a vida de tanta gente nestas sensações. De forma consciente ou não, sentimos que a nossa existência se tornou num inferno. Mesmo neste momento, esta sensação de querer reaprender a reaproveitar, também faz parte desta doença que nos contaminou. É um paradoxo! O jogo é o mesmo.

São ideias muito ligadas à ideia de constante e eterna melhoria a que o capitalismo e o neoliberalismo nos subjugou. É tudo uma chachada.

Há momentos que podem não servir para nada, percebes? Podes só estar a existir e está tudo ok com isso. Para mim, isto vai além do capitalismo. Sim, tem culpa, mas não é tudo. Há coisas que me deixam mesmo frustrado. Por exemplo, hoje tudo tem um nome e uma definição. Procuramos tentar definir de forma consciente atos mecânicos que faziam parte da experiência de estarmos neste mundo. Agora, são espaços de “debate”. Também é interessante que assim o seja, atenção, mas essa constante presença destas ideias meta discursivas levantam problemáticas profundas na nossa psique.

A “canção de não-intervenção”, em particular, caminha alguns destes troços que falas. Até que ponto uma canção de intervenção hoje tem significado? Que melhorias propõe para a nossa vida? Que futuro alternativo promete ao Deus capital? Se olharmos para as canções do Zeca Afonso ou do José Mário Branco, há ali um futuro diferente prometido face àquilo que eram as condições materiais pré-25 de abril.

A “canção de não-intervenção” é curiosa porque foi uma das canções do disco que foram feitas com o processo mais próximo daquilo que geralmente é o ato criativo para mim: feito de rajada. Quando me vem uma ideia, vem. E tenho adorado a vida que ela vai tendo, porque reparei que ela foi parar a duas playlists de música de intervenção. Fico lisonjeado, mas dá-me vontade de rir. Esta canção é zero de intervenção. É uma canção sobre a existência atomizada da própria intervenção e acaba por ser sobre a nossa alienação coletiva. É tudo menos, com muitas aspas mesmo, “política”. Porque a malta que se autodenomina cantor de intervenção atualmente – não toda, mas alguns… – é uma caricatura do passado. Música de intervenção como a conhecemos não existe hoje. Não pode existir porque é impossível de replicar. A linguagem empregue naquilo que é a canção de intervenção à imagem da música dos anos 60 e 70 não pertence à nossa realidade atual. As canções de intervenção dessa altura chocavam com uma realidade em que existia um risco diferente. Hoje, não existe – pelo menos ainda – risco nenhum inerente a cantar certas coisas. A subtileza sofre com isso.

Eu falei disto com O Triunfo dos Acéfalos e eles disseram que o que quer que seja a canção de intervenção hoje tem de “romper com aquilo que te rodeia para realmente teres algo a dizer sobre o que te rodeia”.

Concordo. A intervenção tem de ser violenta, percebes? Tens de chamar os filhos da puta de filhos da puta, mas também tens de descobrir uma forma de dizeres outras coisas de maneira mais subtil.

Se disseres algo de forma tão direta como alguns dizem, estás só a pregar aos convertidos e esvazia completamente a ideia de intervenção. Estás a intervir para quem? O que estás a propor de diferente?

Este é um jogo que me leva à loucura. Tentar entender como navegar nesta corda bamba. E atenção: não estou a tentar reinventar a intervenção. Longe, muito longe disso. Para mim, escrever uma música sobre qualquer temática envolve encontrar um equilíbrio entre a minha realidade pessoal e aquilo que me rodeia.

Por acaso, até sinto que o teu disco tem uma conexão com o novo disco da Catarina Branco [Acordava cansada]. Ambos representam uma sensação muito real de solidão e cansaço infinito, de nos sentirmos tão próximos e distantes dos outros ao mesmo tempo, de nos sentirmos todos arrebentados. A nossa vida foi consumida por esta constante presença que nos faz sentir sempre ausentes.

Por acaso, quando ouvi o disco da Catarina senti que estávamos a tocar nos mesmos pontos. Muita gente sente e está a sofrer com isto.

Achas que o teu disco é um bocadinho emo?

Sem dúvida [risos]. Acho que é possível abordar a tristeza e a melancolia de várias maneiras. Para mim, escrever coisas interessantes implica sentir uma comichão qualquer e a tristeza e a melancolia são grandes comichões. Neste álbum, senti mesmo que precisei de descer ao fundo do poço. Precisei mesmo de aceitar que isto ia ser um disco triste porque eu estou triste. Estou triste com várias coisas da minha vida e com todas as cenas horríveis que estão a acontecer no mundo. Às vezes, até por ter ouvido tantas vezes a crescer que há sempre alguém pior que tu, sinto que não dou valor suficiente à tristeza que posso sentir. Com este álbum, tentei contrariar isso. Se é este o corpo que me permite entrar em contacto com o mundo, como é que vou ter uma relação saudável com o mundo se em primeira instância estou infeliz como a merda? Como é que consigo?

Há dias em que quero sentir-me triste, mas tenho de meter um sorriso na cara e continuar a trabalhar porque há contas para pagar.

Pois. Para conseguirmos ter uma presença positiva e ativa no mundo à nossa volta, temos de conseguir lidar com nós próprios. Para mim, este álbum serviu para me lembrar disso também. A vida é uma batalha e eu preciso de espaço e tempo para lidar com as minhas dores. Isso é ok e é normal. Tens de ter espaço e tempo para sofrer também. É mesmo um sentimento repressivo a sensação de que vamos em direção a um abismo qualquer e sermos incapazes de o impedir. Estamos esgotados e sem energia. Portanto, é mesmo necessário libertarmo-nos da nossa própria tristeza e dores para conseguirmos imaginar outra coisa para o futuro.

Sentes que escreves para lidar com o teu sofrimento ou para reviveres esse sofrimento e aprenderes com ele?

Ambas, mas mais a segunda instância. Eu procuro dar sentido às coisas. Passo muito tempo a analisar o que me acontece. Mais do que ter espaço para absorver o que me rodeia, gasto muito tempo a analisar o que me acontece e o que me aconteceu. Sinto que estas músicas servem também como retrospetiva para conseguir sentir que já arrumei a casa com muita cena do meu passado.

Estas canções fizeram-te ponderar que era necessário aceitar o passado como ele é?

Apesar de toda a cena introspetiva do disco, mais do que ser um exercício de catarse, é suposto ser um exercício que segue a ideia de colocar em palavras um processo que já foi feito. Sinto que até faço esse processo mais ou menos à medida que vivo a vida. Espero não me contradizer aqui [risos].

A contradição faz parte da nossa existência.

Concordo. A contradição faz parte das minhas canções. Digo uma coisa num momento e, logo a seguir, digo o contrário. Faz-me sentido porque reflete o processo de eu fazer o contraponto a mim mesmo. Também gosto quando alguém vem falar comigo sobre a interpretação que fizeram de uma canção. Como escrevo as cenas um bocado de rajada, às vezes nem penso muito no que significa aquilo que escrevi. Está aberto à interpretação. Não tem significado fechado e pode mudar com o tempo. Adoro isso.

Isso é uma contradição engraçada porque, no início desta conversa, disseste que não acreditas na cena de inspiração divina, mas aqui revelas que escreves muitas canções de rajada sem pensares muito no assunto.

[Risos] É verdade. Acho que não é divino, mas é necessário mandar o nosso polícia interior dar uma volta. Há uma certa intuição no processo que me permite entrar em contacto com emoções muito intensas, mas ainda sinto muitas vezes um certo policiamento que não me agrada. Na criação e em outras experiências da minha vida.

Fotografia: Isis Goncalves
Fotografia: Isis Goncalves
Sinto que, para este , desenvolveste um trabalho muito interessante de produção com o Metamito, com quem já colaboras desde os tempos do Mui Nobres Intenções. Como decorreu esse processo?

Como referi, senti mesmo que era necessário escrever canções que não eram muito complexas. Tive mesmo de criar um processo em que cumpria isso, que sentia que era algo que precisava, e mesmo assim ser capaz de fazer jus às ideias a que queria dar corpo. Foi um equilíbrio complexo de encontrar. Nunca fui uma pessoa de gravar muitos takes. Prefiro que tenha erros do que soe perfeito. Inversamente, o Metamito é um gajo super perfeccionista, além de ser um grande produtor e músico. Ao mesmo tempo, ele percebe como eu funciono porque já trabalhamos juntos há imenso tempo. Ele acredita neste projeto desde o início mesmo. E como ele não tem papas na língua sobre o que gosta ou não gosta, sei que se ele gosta certamente a cena está fixe e bem feita. Ouvir o feedback dele é crucial para a concretização de bonança enquanto projeto.

Por último: o que significa o Sweeney Todd para ti?

Caraças. O Sweeney Todd foi a primeira peça em que participei no secundário. Mudou a minha vida. Mas de onde é que veio essa pergunta? Como encontraste essa informação?

Está na tua página de concorrente do The Voice. Não foi assim tão difícil de encontrar [risos].

Foste escavar [risos]. Foi a minha mãe, que é professora na Escola Secundária Miguel Torga, em Monte Abraão, que me convenceu. Ela também era coordenadora do grupo de teatro da escola e eles tiveram esta ideia louca de fazer o Sweeney Todd e eram precisas imensas pessoas para concretizar aquilo. Ela, desesperada para achar pessoas, achava que eu tinha talento para a música e convenceu-me. Foi genuinamente uma das melhores experiências da minha vida. Se não tivesse participado nessa produção, não estaria hoje aqui, a fazer música. Devo imenso à minha mãe e ao Lucas Lopes, que foi quem convenceu as pessoas a fazer o Sweeney Todd e traduziu a peça, por essa experiência absolutamente louca e insana. E é curioso que tenhas perguntado isso porque a “só”, que é a música central deste disco, é em parte baseada em experiências dessa altura. Aliás, fazem parte da canção alguns samples que são gravações da nossa versão do Sweeney Todd. E lá está. Tudo o que aconteceu nessa altura já analisei e processei, mas fez-me sentido voltar e fazer uma homenagem a essa experiência.

bonança irá apresentar só ao vivo com uma digressão a solo que se inicia a 14 de maio com um concerto na Casa Capitão, em Lisboa. Podes encontrar as restantes datas aqui.

Fotografia de destaque: Isis Gonçalves

Cucujanense de gema, lisboeta por necessidade. Concluiu um curso de engenharia, mas lá se lembrou que era no jornalismo musical e na comunicação onde estava a sua vocação. Escreveu no Bandcamp Daily, Stereogum, The Guardian, Comunidade Cultura e Arte, Shifter, A Cabine e Público, foi outrora co-criador e autor da rubrica À Escuta, no Espalha-Factos, e atualmente assina textos no Rimas e Batidas e, claro está, na Playback, onde é um dos fundadores e editores.
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