A 1 de setembro de 2018, os 800 Gondomar iniciaram um período de hiato com um concerto que, de certa forma, cimentou a lenda do power trio no underground português.

No local onde tudo começou, Rui Fonseca (bateria, voz), Alô Farooq (guitarra, voz) e Frederico Ferreira (baixo, voz) fizeram uma última festa no quintal da casa do baterista antes de seguirem com a vida para outras paragens. Meses mais tarde, em março de 2019, tocaram na Galeria Zé dos Bois, em Lisboa, mas o kayfabe já estava determinado – para todos os efeitos, os 800 Gondomar seriam sempre lembrados como a banda que encerrou a atividade com um concerto no quintal. 

Em março de 2023, quatro anos após esse último concerto na ZdB, os 800 Gondomar regressaram aos palcos. Anunciaram uma digressão pela Grécia e um concerto único no Ano Malfeito, em Fafe. Se era necessária uma confirmação de que o trio é a banda crucial para se entender o garage nortenho da década de 2010, este regresso com um concerto memorável funcionou como tal. Porém, a seguir, novo silêncio. Demoraria meio ano até percebermos o próximo passo de Rui, Alô e Fred.

Capa São Gunão
Capa São Gunão

Em outubro do ano passado, os 800 revelaram “Ax Gti”, a primeira canção lançada pelo trio desde o seu icónico longa-duração de estreia, Linhas de Baixo, editado em 2017 pela O Cão da Garagem, editora ligada aos Sunflowers. Com isso, anunciaram uma série de concertos que, sem ter sido de propósito, acabariam por celebrar os dez anos de existência da banda. Meses mais tarde, já em 2024, anunciaram um novo álbum, São Gunão, lançado no início do mês de março. Se havia dúvidas que os 800 Gondomar estavam mesmo de regresso, desapareceram. Mas até quando os teremos por cá?

Para responder a essa e a outras questões sobre o trio, fomos a Rio Tinto conversar com Rui, Alô e Fred.

Um regresso saudoso

O regresso dos 800 Gondomar em 2023 não foi a primeira vez que a banda tentou regressar ao ativo. Em 2022, fruto de um convite de Luís Salgado, programador do Maus Hábitos, sala de espetáculos portuense, os 800 Gondomar foram anunciados como parte do cartaz do Salgado Fest desse ano, festival que também funciona como festa de aniversário do programador. Porém, devido a um caso de Covid dentro da banda, os 800 Gondomar acabaram por não tocar nessa noite e voltaram a “arrumar as botas”. A história podia ter ficado por aí.

“Acho que esse concerto não tem muita influência no nosso regresso, mas na altura fiquei triste por não acontecer”, revela Rui. “Lembro-me de ir à rua do Maus nesse dia porque já tinha os chakras alinhados para esse concerto”, conta o baterista, assinalando que não era ele que tinha testado positivo à Covid-19. “Mesmo assim, a seguir a isso estivemos quase um ano sem voltar a pensar no assunto”, refere. “Esse concerto pode ter potenciado o nosso regresso, mas acho que as nossas vidas iam levar-nos a este culminar de qualquer forma”, comenta Fred.

Em 2017, ao Ípsilon, os 800 Gondomar referiam que não eram eles quem decidia os discos, mas sim a sua vida que decidia por eles. Em 2024, sete anos depois de Linhas de Baixo, a vida dos 800 mudou consideravelmente. Durante o hiato, Fred passou a fazer parte da formação dos Sunflowers; Alô, como referiu a Timeout, dedicou-se ao cinema; e Rui foi viver uns tempos para a Grécia, tocou com a banda de call center e abandonou o Porto para regressar a – adivinhe-se – Rio Tinto.

800 Gondomar no Estádio do Dragão. Fotografia: Inês Aleixo
800 Gondomar no Estádio do Dragão. Fotografia: Inês Aleixo

“Não são só os temas das músicas que são escolhidos pela vida”, indica o baterista que, no underground, também é conhecido como querido líder. “Quando voltei para Rio Tinto, se calhar isso contribuiu para que sentisse vontade de ir voltar a buscar estas histórias e de enterrar a nível pessoal a plasticidade que ainda existe neste local”, reflete Rui.

“Nós nunca deixamos de ser amigos nem nunca deixamos de fazer música de uma forma ou doutra, mas houve um momento em que decidimos que fazia sentido voltar a algumas das coisas dos 800”, conta Rui. “Passamos todos por mudanças a nível pessoal, mas sinto que somos praticamente as mesmas pessoas”, reflete. “O que mudou é que estamos com uma maturidade diferente”, acrescenta.

Comparativamente com Linhas de Baixo, São Gunão é um disco mais pensado, abraçando sem dúvida o clichê de segundo álbum de banda rock mais maduro. Talvez seja por isso que o disco, apesar de ser um belíssimo longa-duração, fique um patamar abaixo da crueza garage punk do seu predecessor. Em São Gunão, ainda há tesão e coração para dar e vender, mas também existe um maior espaço de reflexão onde os 800 Gondomar escolhem melhor as suas lutas e como as querem lutar. Se Linhas de Baixo foi um disco onde a banda tentava escapar a toda a velocidade para o Porto, prosseguindo a linha de pensamento de urgência do EP de estreia homónimo (2014) e Circunvalação (2016), São Gunão é o disco onde regressam às suas origens – Rio Tinto. Só é pena que também lá já não dê “para viver”.

Rio Tinto: uma fonte de inspiração

“Desde o primeiro dia que utilizamos Rio Tinto como uma figura de estilo”, conta Rui. “Nesse sentido, Rio Tinto é inesgotável, até porque está numa transformação abusiva e constante”, reflete. “Se estiveres atento, tens sempre coisas sobre o que escrever”.

São Gunão é, de todos os discos dos 800 Gondomar, aquele que está mais próximo de Rio Tinto. É um longa-duração onde, devido à tal maior maturidade, a banda se revela mais capacitada a “falar” dos seus “sentimentos”. Se até agora os 800 Gondomar pareciam estar a arranjar forma de escapar aos seus traumas, São Gunão é o som de uma banda a abraçar esses traumas e esse passado como parte fulcral da sua identidade. Parte disso acaba por surgir devido à sensibilidade de Rui que, em São Gunão, é o único autor das letras (no passado, a escrita foi dividida entre os três). “Foi mais por uma questão de disponibilidade do que outra coisa”, esclarece. “Daqui para a frente, vamos voltar a partilhar a tarefa”, revela o baterista.

Se Agustina Bessa-Luís dizia que o Porto era um sentimento, Alô Farooq diz que Rio Tinto é um estado de espírito. “A forma como pensamos no disco é como se estivéssemos a retomar esse estado de espírito de quando paramos e vemos como reagimos a ele [estado de espírito] agora depois de tudo o que mudou”, esclarece o guitarrista.

800 Gondomar em Rio Tinto. Fotografia: Inês Aleixo
800 Gondomar em Rio Tinto. Fotografia: Inês Aleixo

“Gosto de pensar que o nosso trabalho serve como uma espécie de arquivo da cidade”, afirma Rui. “Há locais que escolhemos para fotos e videoclipes”, como é o caso do prédio de “Sou Cidadão”, “que já mudaram bastante ou já nem sequer existem”, conta. “E nós nem somos tão ativos quanto isso”, brinca o baterista.

Sem Rio Tinto, os 800 Gondomar não seriam os 800 Gondomar. Porém, se os 800 Gondomar mudaram muito ao longo destes dez anos e picos de existência, Rio Tinto também sofreu profundas alterações. Aquilo que outrora era visto como um local mal frequentado da periferia do Porto, tornou-se destino de eleição para quem não consegue viver na Cidade Invicta devido, particularmente, à crise imobiliária e à gentrificação que se faz sentir no interior do Porto. Os próprios 800 Gondomar não são imunes a isto.

Em “Rio Tinto”, canção que abre o disco, os 800 Gondomar falam de como a especulação imobiliária os empurrou de volta para este local (“Eu não sei mas ouvi dizer / Que aqui já não dá para viver / Eu não sei mas ouvi falar / Que eu vou ter de me mudar”). Alô Farooq também revela como a especulação imobiliária afetou a sua família. “A meu lado paterno sempre viveu em ilhas no centro do Porto, mas recentemente a família de um primo meu, que vivia num sítio desses, ficou sem casa. Depois disso, não quiseram continuar a viver no Porto e foram para Gondomar”, indica o guitarrista, ele que é o único dos três membros da banda que não cresceu em Rio Tinto: Alô nasceu em Ovar, mas passou grande parte da sua vida no Porto.

“Rio Tinto é hoje um local muito mais aliciante para se fazer vida do que era há seis anos”, esclarece Rui. “Nos últimos anos, a forma como encaramos as cidades mudou completamente e isso também afetou Rio Tinto”, conta Fred que, desde que trocou Rio Tinto pelo centro do Porto quando entrou na faculdade, não regressou de forma permanente à localidade. “Usamos a imagem de Rio Tinto para falar desses problemas que não só nos afetam, como também afetam as outras pessoas da cidade”, indica o baixista.

Contudo, apesar da forma mais pensada com que os 800 Gondomar abordam temas mais “sérios” como a gentrificação, o burnout em massa na efervescente “Erva Daninha” (“Bro só tou tou / Tamos tamos tamos / Todos arrebentados”) ou a tensão social na melosa “Balada do Cancelado” não esquecem o humor e as temáticas que marcaram a carreira da banda. Cantam sobre amores e desamores (na balada emocional “Não Há Mal”), sobre um guna que levou “um estouro nos cornos” (na pop cirúrgica lo-fi de “Mataram o Fábio”), sobre substâncias ilícitas disfarçadas de amor aos melhores calhambeques do aço da década de 90 (durante a entrevista, ouvimos três desses a fazer barulho com a panela furada) na ruidosa “Ax Gti”. E é preciso sequer explicar sobre o que é “Poppers Paraíso”?

Como se isso não bastasse, o título do álbum – São Gunão – surgiu quando a banda avistou uma estátua gigante de um guna no festival Boom. “Por muito triste que seja, é verdade que o título do disco veio daí”, revela Rui. Mas esclarece entre risos: “Não se fez um disco por causa dessa estátua ou por causa do Boom”. A razão para isso é outra.

Impulsividade e aventuras gregas

Os 800 Gondomar não demoraram muito tempo a fazer São Gunão. Quando se auto-propuseram a gravar o álbum entre o final de 2022 e início de 2023, tinham muito pouco material composto. Do passado, resgataram uma ou outra canção, mas praticamente todo o segundo longa-duração do trio foi composto num curto espaço de tempo. “Os instrumentais foram feitos rapidamente”, conta Alô.

Carlos de Jesus (Sunflowers), creditado com a gravação do disco (com a ajuda de Rui Rebelo) e a sua produção (com o trio), conta como as sessões aconteceram com relativa facilidade a partir do momento em que a banda percebeu qual era o álbum que queriam fazer. “Tivemos bastantes conversas sobre que tipo de álbum queriam e que mensagem queriam passar, mesmo antes das músicas estarem prontas”, afirma. “São uma banda com uma dinâmica muito própria no processo de criação e eu não queria estragar esse processo, mas sim permitir que cada um entregasse o melhor de si”, acrescenta. “Penso que conseguimos fazer um ótimo trabalho no final”, conclui.

Os 800 Gondomar tiveram todo o cuidado em transmitir o que queriam e contar as histórias que desejavam no universo de São Gunão. Por causa disso, as letras das canções de São Gunão demoraram algum tempo até estarem prontas – o processo foi mais demorado comparativamente com criar os instrumentais das malhas.

800 Gondomar em Rio Tinto. Fotografia: Inês Aleixo
800 Gondomar em Rio Tinto. Fotografia: Inês Aleixo

Quando os 800 partiram para a digressão na Grécia, no final do primeiro trimestre de 2023, com a intenção de experimentarem o novo material, praticamente não tinham letras nenhumas. Por terras gregas, chegaram a tocar “Ax Gti” com uma letra apenas construída por nomes de marcas de automóveis. Mas tudo isto levanta uma questão – porquê uma aventura na Grécia?

“Nós fomos tocar para a Grécia porque não tínhamos letras nenhumas”, brinca Rui. “Se fossemos cantar aqui o que cantamos lá, acabava a nossa carreira”, afirma.

Na realidade, brincadeiras à parte, os 800 Gondomar foram para a Grécia porque queriam “tentar perceber como seria o desafio de tocar músicas novas num país em que nem sequer percebiam o que estávamos a dizer”, revela Alô. “Ao início, a ideia era irmos a Israel”, conta o guitarrista (a banda esclarece que não se revê na política de apartheid israelita e que apoia incondicionalmente a Palestina durante a conversa), mas eventualmente essa ideia desapareceu e surgiu a ideia alternativa. Porém, ninguém se lembra muito bem como desapareceu a ideia israelita e surgiu a ideia grega.

“O circuito grego é complicado porque não existem muitos canais de comunicação entre as várias cidades”, conta Rui. Porém, os 800 Gondomar necessitavam de um desafio – e nada melhor do que uma aventura deste género para terem a certeza de que este regresso fazia sentido. “Foi o último grande desafio para percebermos se queríamos avançar com o resto que tínhamos planeado”, conta Alô. “Há bastante tempo que não estávamos todos tanto tempo uns com os outros e precisávamos de perceber se isso também funcionava”, revela Rui. “Acabou por funcionar como uma espécie de team building essa digressão”, brinca Fred.

“Isto de seres músico e de teres uma banda não se trata só de compor músicas”, explica Rui. “Trata-se também da audácia de te colocares neste tipo de situações”, elabora. “Tínhamos que nos mandar para um sítio muito inusitado e difícil de conquistar para conseguirmos empoderar-nos outra vez”, revela.

A impulsividade sempre fez parte do modus operandi dos 800 Gondomar. Foi isso que tornou a sua música urgente em primeiro lugar e que alimentou a obra da banda até ao momento. Se a aventura na Grécia serviu para algo – além de garantir que São Gunão será editado em cassete pela editora grega Patari Records algures este ano –, foi para provar à banda que o seu espírito aventureiro enquanto unidade se mantinha vivo apesar de todos se estarem a aproximar dos seus 30s e verem a sua vida consumida por 9-to-5s aborrecidos.

800 Gondomar no Porto. Fotografia: Inês Aleixo
800 Gondomar no Porto. Fotografia: Inês Aleixo

“Pessoalmente, sou um gajo muito mais passivo agora do que alguma vez fui”, conta Rui. “Sinto que perdi muitas das minhas vertentes ativistas e tentei recuperá-las com as letras deste disco para fazer com que consiga estar mais presente nessas lutas na minha vida”, elabora. “Este disco não pretende ser um sucesso de vendas, de plays ou de outra coisa qualquer”, esclarece Rui. Pelo contrário, este disco tem apenas e só um objetivo – colocar de novo os 800 Gondomar “no ativo”. Enquanto banda, claro, mas também no ato do combate anticapitalista e na celebração da vida em simultâneo.

“É muito importante que não falemos só de problemas onde achamos presunçosamente que eles devem existir”, afirma Rui. Esta ideia, talvez a maior máxima por trás de São Gunão, acaba a ser exposta na canção que encerra o disco, “Sexta-À-Noite Com O Monstro”. É uma malha onde, com a ajuda de um acordeão colocado lado-a-lado com o rock apunkalhado lo-fi que caracteriza o som do grupo, os 800 Gondomar nos fazem dançar. Em São Gunão, os 800 Gondomar propõem que continuemos a resistir, mas também relembram que é preciso celebrar antes que seja tarde demais. Acima de tudo, não querem que nos tornemos apáticos, esgotados e, por fim, em monstros “que se comem uns aos outros”.

Uma década de 800 Gondomar

Os 800 Gondomar, desde que começaram a sua atividade no final de 2013, mudaram bastante. Da formação original, restam apenas Fred e Rui; Alô só se juntou à banda oficialmente entre o lançamento do EP de estreia homónimo e Circunvalação, já depois de ter tocado um ou outro concerto com os 800. Antes de Alô, passaram por vários membros até o line-up atual se consolidar. Inicialmente, os 800 eram quatro tipos – ou pretendiam ser quatro.

“Muitas vezes, as mudanças nas bandas surgem a partir de razões completamente grandiosas, mas as nossas ocorreram por motivos puramente suburbanos”, conta Rui.

Quando começaram a tocar juntos, Rui e Fred tinham cerca de 17 anos e nenhum deles sabia tocar os seus instrumentos. “É importante perceber que, quando começamos a fazer este tipo de música, começamos porque genuinamente não conseguíamos tocar mais nada”, refere Rui. “Não tínhamos skills, destreza nem conhecimento de mais nada que não fosse isto”, conta. “Na altura, nos poucos concertos que dávamos, acabávamos a trocar os instrumentos entre todos porque às vezes havia músicas que só um conseguia tocar”, relembra o baterista.

Ao lado de Rui e Fred nesses primeiros tempos de banda, estava Diogo, o segundo guitarrista de 800 Gondomar. Diogo ainda gravou o primeiro EP da banda, mas entre esse e Circunvalação, abandonaria a banda para se dedicar a ser catequista e conselheiro espiritual após a morte do seu pai. “Ele teve de se dedicar a ser homem de família e foi mais ou menos na altura em que estávamos a entrar na faculdade”, recorda Fred. “A música para ele não era uma prioridade de todo nessa altura”, acrescenta o baixista da banda.

Porém, a saída de Diogo é o momento mais “normal” da timeline de entradas e saídas dos 800 Gondomar. Logo ao início, um tal de Ed, colega de turma de Rui em Rio Tinto, disse que viria aos ensaios, mas nunca apareceu. Depois, juntou-se um novo membro que só tinha tempo livre aos domingos, mas que aos domingos também não dava porque tinha almoço de família – portanto, também não resultou com essa personagem. “O rock não dava porque havia almoço de família – um gajo respeitou”, brinca Rui.

Mas a história mais caricata dos 800 Gondomar envolve o primeiro baixista da banda – Baixinho. Originalmente um pianista, Baixinho foi recrutado para tocar baixo, mas nunca pareceu propriamente feliz a fazê-lo. Quando os 800 Gondomar estavam a tentar gravar o primeiro EP, Baixinho não aparecia nas gravações e, quando apareceu, foi porque a restante banda o perseguiu para conseguir que este viesse gravar a sua parte.

“Eu e o Fred estávamos a bazar um dia do estúdio, que era uma casinha que pertencia aos Sunflowers, e vimos o gajo dentro do metro e fomos atrás dele”, relembra Rui, entre risos. “Só nos faltava gravar o baixo e acabamos a arrancá-lo do metro para o levar para o estúdio”, conta. “Corremos para aí 15 minutos pela Circunvalação para chegar ao estúdio e aquilo foi quase uma situação de refém onde três pessoas estavam a obrigar uma quarta a gravar”, recorda. “Depois, aquilo ficou a soar como se um esquilo estivesse a morrer”, conta. “Não sei se ele sabe, mas o Fred acabou por regravar as linhas de baixo todas”, relembra. “Demoramos bué tempo a gravar o primeiro EP”, recorda Fred. “Se tu nem sabes por onde andam os membros da tua banda, é um bocado difícil gravar coisas”, brinca Rui.

800 Gondomar em Rinto. Fotografia: Inês Aleixo
800 Gondomar em Rinto. Fotografia: Inês Aleixo

Por incrível que pareça, o “sequestro improvisado” não foi a razão pela qual Baixinho saiu dos 800 Gondomar. Essa razão é talvez a mais surreal de todas. O pianista virado baixista improvisado foi recrutado para tocar piano na banda de uma atriz da TVI que vivia em Gaia e que decidiu tentar ingressar numa carreira musical. O projeto acabou por não dar nada, mas Baixinho não regressaria aos 800. “Mas é um tipo impecável, ainda somos hoje amigos”, conta Rui. “Ainda aparece nos concertos de vez em quando”, revela Fred.

800 Gondomar: uma banda de culto?

Este tipo de histórias revela algo crucial para entender a obra dos 800 Gondomar. Existe, no ethos da banda, uma genuinidade que dá um brilho extra à sua música. Os 800 Gondomar existem entre o neo-kitsch suburbano de David Bruno e a ode à margem dos Glockenwise, foram um dos primeiros grupos do período de revivalismo de garage rock português de meados de 2010 a definirem uma identidade que os tem acompanhado ao longo do seu percurso e, curiosamente, já contam com vários hiatos. “Quando o Diogo bazou, estivemos parados bué tempo”, conta Alô. “Só quando apareceu a proposta de sermos bookados pela Pointlist é que nos voltamos a juntar”, recorda o guitarrista. “Esse ano foi maluco porque passamos de cinco concertos num ano para cinquenta”, relembra Fred.

Esta sinceridade, aliada ao caos energético e suado dos seus espetáculos ao vivo, tornou os 800 Gondomar num farol para o underground português. Com Linhas de Baixo e hinos como “Coração”, “Preguiça”, “Sou Cidadão” ou “Cabeçudo” (do primeiro EP), os 800 Gondomar cimentaram o seu estatuto de banda de culto. São hoje admirados por vários dos seus contemporâneos e várias bandas que surgiram durante o seu período de hiato citam-nos como inspiração.

Alô Farooq. Fotografia: Inês Aleixo
Alô Farooq. Fotografia: Inês Aleixo
Frederico Ferreira. Fotografia: Inês Aleixo
Frederico Ferreira. Fotografia: Inês Aleixo
Rui Fonseca. Fotografia: Inês Aleixo
Rui Fonseca. Fotografia: Inês Aleixo

Halison Peres, baterista dos MAQUINA., conta como os 800 Gondomar inspiraram o trio de kraut’n’roll lisboeta. “Eles são uma das nossas grandes influências desde o início porque mostraram que era possível fazer muitas coisas com muito pouco”, refere.  “Ainda antes de gravarmos as nossas primeiras músicas, foi através deles que surgiu a motivação de fazermos algo e não esperarmos pelos outros”, recorda o baterista. “É uma honra poder chamar-lhes de amigos, trabalhar na mesma agência [Pointlist] e dividir palcos e momentos com eles”, remata Halison.

Afonso Mateus, que assina a solo como Afonso Afonso e integra a banda lisboeta Tasque, fala de como os 800 Gondomar mudaram a sua visão artística. “Os 800, ao lado dos Glockenwise e das Pega Monstro, influenciaram imensamente a forma como penso música e performance”, revela o cantautor natural do Porto. “Tive a sorte de estar presente no primeiro concerto deles em Portugal depois do regresso, em Fafe, e foi uma noite inesquecível”, conta. “A energia dentro da sala era incrível e até consegui ficar com uma cassete ao vivo desse concerto”, relembra. Luís Barreto, membro do duo de pós-música de intervenção Triunfo dos Acéfalos, também esteve presente nesse concerto dos 800 Gondomar em Fafe e fala de uma noite onde assistiu a concerto como já não via há muito tempo. “Os 800 Gondomar tiveram o poder de, durante a sua primeira curta incarnação, inspirarem muita gente a abandonar o psicadelismo e a fazer música para moshpits”, relembra Luís.

André Amado, vocalista e guitarrista da banda barreirense Walter Walter, fala em tom semelhante da sua primeira experiência ao encontrar a música dos 800 Gondomar. “A primeira vez que ouvi falar da banda foi por terem tocado no Barreiro Rocks e percebi exatamente o porquê quando ouvi a música deles”, recorda André. “Eram energéticos, crus e não tinham papas na língua, e isso era algo que caracterizava todas as bandas que passavam pelo festival”, assinala. “Depois de anos a ouvir o Linhas de Baixo e o Circunvalação, consegui vê-los o ano passado em Évora no Black Bass e confesso que tudo o que eu imaginava que pudesse acontecer num concerto de 800 Gondomar aconteceu nessa noite”, relembra.

Tiago Mogege, amigo de longa data da banda, fala de como considera os 800 Gondomar como uma banda catártica. “Tu consegues ver um concerto ou ouvir um disco deles e sentir uma vasta quantidade de sentimentos”, opina Tiago. “Isso tem muito a ver com o genuíno que eles são”, salienta, “três indivíduos de Rio Tinto que contam a vida deles, o que resulta numa espécie de família e companheirismo nas pessoas com quem se relacionam e com a forma deles de se expressarem”, conta. Luís Barreto refere algo semelhante. “Os 800 representam aquilo que uma banda deve ser: javardice, amizade e entrega total à música.”, denota o membro do duo de Santo Tirso. “Se todos os gajos do rock fossem como o Fred, o Rui e o Alô, talvez o mundo finalmente andasse para a frente”, acrescenta.

Carlos de Jesus, responsável pela gravação de todos os discos de 800 Gondomar à exceção de Linhas de Baixo, fala do que o levou a apaixonar-se pela banda. “Os temas que cantavam e a atitude em palco serviam para criar uma imagem daquilo que nós enquanto jovens estávamos a viver, e isso fez com que muita gente se revisse nos temas e letras da banda”, revela. Essa admiração levou a que a editora associada aos seus Sunflowers, a Cão de Garagem, editasse todos os trabalhos do trio à exceção de São Gunão, e foi também Carlos de Jesus que apresentou o trio à Pointlist, agência que ainda hoje é responsável pelo booking dos 800 Gondomar. “Tudo porque acreditava (e acredito!) na banda e no seu potencial”, destaca Carlos.

800 Gondomar no Porto. Fotografia: Inês Aleixo
800 Gondomar no Porto. Fotografia: Inês Aleixo

Quando confrontados com o seu estatuto de culto, Rui, Alô e Fred tentam fugir ao seu suposto legado. “Para nós, é mesmo difícil vermo-nos genuinamente nessa posição”, afirma Rui. “Fico mesmo contente de perceber que há bandas de diferentes estilos e com abordagens bastantes distintas a conseguirem identificar-se com o nosso trabalho seja pela sonoridade, ou pelo modus operandi. Acho que isso é a coisa mais bonita de todas”, admite o baterista.

“Quando começamos a tocar, não havia propriamente um circuito de garage em Portugal”, relembra Rui. “Ele depois passou a existir, mas morreu muito rapidamente”, recorda. “Posso estar redondamente enganado, mas quando começamos a tocar no início de 2014 só me lembro de haver os Glockenwise e as Pega Monstro”, reflete Rui. “Portanto, para nós, até pelo curto período de tempo que passou, nunca nos pusemos nesse papel, até porque achamos que ainda é um bocado cedo para fazer retrospetivas nesse sentido”, constata o baterista.

O passado, porém, serve apenas como combustível para os 800 Gondomar não se repetirem. Não se envergonham daquilo que já fizeram – pelo contrário. Os seus tempos de “Miúdos Muito Jovens” servem como memória para pensar na criação de espaços futuros onde aquilo que constitui a história da banda continue a conviver com o seu presente. “Tens de estar ciente das coisas que queres mudar e deves ter em conta isso com todas as outras variáveis dessa equação para que não voltes a cometer os mesmos erros do passado, para que não tenhas memória curta”, reflete Rui. “Os nossos discos funcionam como arquivo de quem nós éramos em cada altura e é bonito olharmos para trás e vermos as lutas que estávamos a travar, mais do que propriamente as conclusões absurdas a que achávamos termos chegado”, assinala.

O presente do trio, por agora, é levar São Gunão em digressão por Portugal e, quiçá, outra vez pela Grécia. Depois disso, o futuro voltará a ser incerto. Mas é natural que para os 800 Gondomar assim seja. “Somos estrategas péssimos”, reflete Rui. “Não é que não tenhamos nada preparado, mas acho que as histórias que agora se podem escrever nos 800 Gondomar são temas de maior maturidade e se calhar unidos a outras zonas geográficas”, conclui.

Os 800 Gondomar vão levar São Gunão em digressão por Portugal e Espanha. Na próxima quinta-feira (16), tocam no B.Leza, em Lisboa. Os bilhetes podem ser adquiridos aqui. A abertura do concerto fica encarregue ao duo Agressive Girls.

Fotografia de destaque: Inês Aleixo

Cucujanense de gema, lisboeta por necessidade. Concluiu um curso de engenharia, mas lá se lembrou que era no jornalismo musical e na comunicação onde estava a sua vocação. Escreveu no Bandcamp Daily, Stereogum, The Guardian, Comunidade Cultura e Arte, Shifter, A Cabine e Público, foi outrora co-criador e autor da rubrica À Escuta, no Espalha-Factos, e atualmente assina textos no Rimas e Batidas e, claro está, na Playback, onde é um dos fundadores e editores.
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