Se o amor é suposto ser uma “ação” e uma “emoção participativa”, como define bell hooks em Tudo do Amor, como fazer dele uma prática constante num mundo a desabar? Talvez seja essa a pergunta para a qual as Bar Aberto tentam oferecer uma resposta no seu curta-duração homónimo de estreia.
Nas quatro canções de Bar Aberto, Mariana Amaral (que já conhecíamos dos MEIA/FÉ) e Matilde Rosellò propõem constantes reflexões sobre o que é tentar amar em todas as suas plenitudes: amar em termos de amizade, amar em termos românticos, amar em termos de nós próprios. Porque para amarmos o outro, alguém, é necessário que tenhamos a coragem de deixarmos a porta entreaberta para este entrar. Implica sabermos que vamos ver esse outro no seu melhor, mas também no seu pior. E implica que esse outro também, com certeza, nos irá ver entre esses estados tal e qual um autómato interligado.
No entanto, talvez se passe mais tempo a discutir sobre amor do que efetivamente a praticá-lo (e não, não falo apenas de os mais jovens fazerem menos sexo). Muito se discute as possibilidades dos vários tipos de -gamias, mas parece que existe menos intuito de efetivamente entender o amor como algo que necessita de ser trabalhado, realizado, concretizado. Na simulação de conexões através da performance que as redes sociais possibilitam, desvanece a ideia de que existem relações (de amizade e de amor) que precisam de ser trabalhadas e mantidas. Nem toda a pessoa que parece super composta e segura através do ecrã assim o é. O amor, crucial à experiência humana que tanto as tecnologias parecem querer substituir (e, até, destruir), tornou-se também ele uma moeda de troca no jogo do capital, um estímulo de que haverá sempre uma conexão melhor, algo melhor, de que poderemos ser sempre melhores. O problema é que isto, em si, é uma lógica que opera em prol de uma certa assimilação da ideia neoliberal de que só nós, sozinhos, é que conseguimos fazer esta viagem. Não necessitamos dos outros, do outro. Eu, orgulhosamente só, consigo ultrapassar tudo. É tudo mentira. A melancolia até pode ser infinita (por muitas razões), mas a solidão é uma falácia.
Se o ser humano é um ser social inato, é natural que sentimentos e práticas como o amor – com toda a complexidade a si inerente – façam parte do nosso dia-a-dia. Tentar escapar à necessidade do toque, da conexão, da amizade, do prazer, serve apenas e só para prolongar o sofrimento que o sistema social nos impõe. Que temos de ser x ou y, que temos de seguir um determinado caminho. O amor como prática para connosco e com os outros oferece-nos como possibilidade de escape a essa prisão que nos tentam impor, pois acaba por servir como espaço de experimentação e crescimento para garantir que não sucumbimos à assimilação e ao conformismo que é tão desejável à manutenção do status quo.
No passado, Maria Reis cantou nas Pega Monstro que tudo o que tentava “nesta canção / É mostrar-te mais um dia / O que me vai no coração” (em “És Tudo o Que Eu Queria”). No presente, as Bar Aberto dão continuidade a essa ideia no seu EP de estreia. Isto são canções onde expelem cá para fora as dores e virtudes de tentar amar nos vintes, idade onde estamos perdidos, onde parece que não há rumo. Não ajuda que o futuro, esse conceito idílico, parece ter-se evaporado da nossa imaginação. A realidade prende-nos e custa imaginar algo diferente. O amor é um escape; também pode ser prisão.
Logo a abrir, “Migas” surge como uma ode à amizade feminina (“Dormimos agarradas / É tão bom saber que estás aqui / Aqui, aqui para mim / E eu aqui, aqui pra ti / Lado a lado na vida / E na desgraça, na desgraça”) e odeia-se (corretamente) os homens que não conseguem (nem querem) perceber “o que é ser mulher”. Como consequência desses desamores, as Bar Aberto voltaram a agarrar nas guitarras e saiu isto: quatro canções que nos abraçam e nos fazem chorar, quatro canções que nos relembram que vale a pena continuar a viver.
Em “LGrande” – magnífica canção, uma das melhores lançadas neste retângulo à beira-mar em 2026 – canta-se sobre a dor e a felicidade de encontrar (ou reencontrar) alguém que nos voltou a lembrar que “era tão bom gostar / Assim de alguém”. É a canção mais apaixonada do EP e, ao mesmo tempo, a mais dolorosa. Porque o problema de gostar tanto de alguém é que, enquanto o amor nos faz querer ir mais longe, surge o medo de a/o perder, de não a/o ver crescer, de não crescemos com elu. Será tudo isto, como tão bem cantam as Bar Aberto em “LGrande”, um “sinal de desgraça”, ou será que é aqui, neste momento, que a minha vida, a nossa vida, “realmente começa”? Perguntas difíceis, sem dúvida, cuja resposta tem de vir tanto do outro como de nós próprios. É sobre isso que se canta em “F9”, cantiga onde, após o pull inicial, surge a dúvida como motor de um autoquestionamento que pode deitar tudo a perder (“Eu sei que sou fraude / Faço de tudo / Nunca faço por mal”).
Nós, tal como as Bar Aberto, temos a capacidade para sermos como um “carocho” (bom uso da palavra) e só fazermos merda. Assim se escuta em “Mundo de Party”, a última canção do EP e que conclui este primeiro disco do duo da única forma que podia terminar. Guitarras dolorosas a elevarem-se em puro clímax ruidoso (as Sleater-Kinney aprovariam) enquanto se grita que, independentemente do que fizermos, do que eu fizer, parece que o resultado é sempre o mesmo: acabamo-nos sempre por nos “foder”.
Que as Bar Aberto cantem isso com uma delicadeza e uma energia tão vital, apesar de toda a incerteza e dor que a canção (e o EP) carrega, é um testemunho do seu talento e do quão necessárias são estas canções aos dias que correm. É um reflexo das complexidades essenciais para se garantir que o objetivo de bell hooks seja alcançado por cada um de nós: tornar o amor numa prática do quotidiano e do dia-a-dia. Pode ser que, ao fazermos isso, do outro lado não esteja uma prisão à nossa espera, mas um raio de sol tão necessário para escaparmos ao abismo que se tornou a regra, e não a exceção, nas nossas vidas.
As Bar Aberto tocam as canções do seu EP de estreia esta sexta-feira (22) no terraço da Casa Capitão, em Lisboa, pelas 21h30. A entrada é livre.

