Entre a luz do sol a bater nas paredes, as gargalhadas entre amigos e os dias em que simplesmente se está “na merda”, Alberto Hernández — ou Luar, para quem acompanha o seu trabalho — encontra matéria-prima para criar. Depois de vários anos a ajudar outros artistas a construírem a sua identidade sonora, o produtor, compositor e agora também cantor apresenta a beleza de todas as coisas, o seu EP de estreia. Um projeto íntimo, contemplativo e profundamente honesto, que nasce da vontade de criar, mas também de compreender melhor aquilo que sente e vive. À conversa com o artista, falámos sobre crescimento, vulnerabilidade, o encanto escondido na rotina e a coragem de transformar experiências pessoais em canções.

Já tinhas ajudado muitos artistas a encontrar uma identidade sonora antes deste projeto. Foi estranho, pela primeira vez, seres tu a decidir quem é o Luar enquanto artista?
Não diria que foi estranho, porque se há alguém que conheço melhor do que todas as outras pessoas é a mim próprio [risos]. Já sabia a priori o que é que queria ouvir quando fizesse música para mim, que tipo de géneros é que queria explorar, a forma como a produção viajaria um bocado à volta da canção, etc. Sempre tive isso claro, foi só uma questão de arranjar tempo para fazê-lo. Portanto, não diria que foi um desafio assim tão grande.
Sentes que este disco nasceu mais da necessidade de dizer coisas ou da necessidade de finalmente ouvires a ti próprio?
Se calhar é um mix dos dois, mas acima de tudo parte um bocado da necessidade de criar, quer seja música, quer seja todo o universo artístico que rodeia uma canção. É isso que me preenche mais. É isso que me dá mais prazer. Por isso é que também adoro fazê-lo com outras pessoas. Mas sim, foi isso que me levou a ter o meu output criativo; o meu cantinho criativo.
Sentiste alguma dificuldade na passagem de criar para outros artistas para começares a criar para ti próprio? São processos diferentes, porque numa situação trabalhas sobre ideias de outras pessoas e, na outra, és tu quem constrói a ideia de raíz.
Honestamente, não acho que sejam processos assim tão diferentes. A única diferença está no diálogo. Num deles estás a ter um diálogo com outra pessoa ou com um grupo pessoas, ou seja, a trocar ideias e a encontrar tanto um registo como uma sonoridade que faça sentido para o projeto ou para uma canção em específico. E esse debate é feito, lá está, em congregação. No caso deste meu projeto, foi um diálogo mais interno. Neste processo, por vezes, há decisões que se tornam até mais difíceis de tomar por não ter precisamente outras pessoas com quem trocar ideias. Obviamente que tive algumas pessoas que me foram ajudando, mas as decisões finais acabaram sempre por ser minhas. E esse processo, por ser feito mais sozinho, acaba por ser muito demorado. Enfim, é difícil manter a cabeça atinada do início ao fim de um projeto a solo, porque… És só tu a ouvir as canções. São muitas decisões, e as coisas demoram o seu tempo a encaixar. Na verdade, são dois processos que partilham muito na forma de pensar e de decidir coisas.
O título a beleza de todas as coisas parece quase uma tentativa de encontrar significado até no que normalmente passa despercebido. Houve algum momento concreto da tua vida em que começaste a olhar para o quotidiano dessa forma?
Não houve propriamente um momento em específico. É mais um exercício constante que tento fazer e que vou para sempre tentar fazer. Na verdade, este projeto surgiu como lembrete disso. É um exercício que todos nós devemos tentar fazer: encontrar o encanto na rotina e na nossa vida que, embora às vezes possa parecer um pouco mundana e espetacular, tem todo o tipo de pequenos momentos especiais. Momentos esses que, por vezes, nem damos conta. E até mesmo coisas não tão boas também têm o seu papel no desenvolvimento da personagem, digamos assim. A partir dessa frase, tentei então resumir essa tentativa de ter essa perspetiva mais saudável com o mundano, que é algo que sempre me deu alguma aflição. No entanto, como já disse, é um exercício constante. Não me considero uma pessoa iluminada [risos], mas vou tentando ser mais feliz com estes lembretes.
A ideia de «beleza» no disco nunca parece superficial. Parece quase resistência. O que é que hoje ainda te faz acreditar que existe beleza nas pequenas coisas?
Tanta coisa que me aquece o coração… Gosto muito de ver a luz do sol a bater nas paredes, de ver os meus amigos a cagarem-se… Aliás, nós a cagarmo-nos a rir. Gosto muito de ficar ligeiramente bêbado, não o suficiente para estragar o dia a seguir [risos], mas o suficiente para rir um pouco mais do que é suposto, das piadas que os meus amigos fazem. Gosto de ir ao cinema sozinho. Na verdade, a lista é infinita.
Ótimos exemplos. O disco fala muito de crescimento, mas não daquele crescimento «épico». Parece mais o peso silencioso de crescer todos os dias. Isso foi intencional?
Não foi propriamente intencional, mas acabou por ser realista. O EP acaba com um tom um pouco mais pesado do que quando começa. Reflete a minha maneira de ser. Não me considero uma pessoa depressiva, mas por vezes sou um pouco mais-
Introspetivo?
Sim. Fico ali a ruminar, mas não tento fugir disso, é só uma maneira de ser. Na verdade, a beleza nem sempre é tão fácil de encontrar. Há dias em que estás só na merda e tens que lidar com isso: é permitires-te estar na merda que depois passa. Portanto, neste caso, não me faria sentido um EP que soasse totalmente inspirador com um final feliz, porque no fim acabamos sempre por ser só nós. Aliás, até há uma letra que diz isso: “Cuida bem de ti / És só tu no fim”. Pode parecer um pensamento um pouco sombrio, mas é a verdade. É o meu primeiro projeto a solo, tem músicas que comecei a escrever p’raí com 19 anos e agora tenho 26 anos. Já passou algum tempo, portanto. Este período de tempo foi muito caótico e catártico, mas não fazia sentido que acabasse de uma maneira bué positiva. Embora que acho que a última música é bonita, não é propriamente triste, é só mais introspetiva e realista. Sobre a vida que acaba por nos trazer à terra; que nem sempre é tudo como nos filmes.
Há artistas que usam o estúdio para construir personagens. No teu caso, parece-me quase o contrário: usas a música para desmontar personagens. Identificas-te com isso?
Identifico-me muito, pelo menos neste projeto que é meu. É um puzzle interno sobre como ser humano. Ou seja, a minha música acaba por se tornar uma maneira de juntar as pontas soltas, de deitar cá para fora aquilo que sinto, vivo e experiencio. É isso que tu disseste, não diria melhor, na verdade. E tem sido uma maneira incrível de me sentir mais eu, que é muito fixe.
Há uma sensação muito íntima no disco, como se estivéssemos a ouvir pensamentos antes deles serem filtrados. Tiveste medo dessa exposição?
Se não for para ser honesto com as minhas maneiras de pensar, ou com coisas que aconteceram — mesmo que as letras pareçam um pouco mais cruas —, acho que não teria assim tanto interesse em escrever. O que me dá mais pica é ver artistas que são diretos na maneira que escrevem. Na verdade, gostava de ser ainda mais e arriscar ainda mais. Aliás, a “Rotina” que foi a última música que escrevi, tem o tipo de linguagem que gostava mais de explorar: mais goofy, com referências muito diretas a coisas da minha vida, que só eu percebo. Mas acredito que essa exposição é divertida para quem ouve também e acaba por, até de certa forma, ser relatable, porque é mais honesto, mais crua… Pelo menos é o que sinto. É a maneira que me faz mais sentido escrever.
Tu sendo alguém que passa tanto tempo a construir música, o que é que te fez perceber que uma canção estava pronta para ser ouvida pelos outros e não apenas por ti?
Impossível saber [risos]. A pergunta eterna [risos]. Na verdade, há músicas em que ainda faria outras coisas [risos]. Mas chega o momento em que já chega, senão… Houve músicas que tiveram demasiadas versões e tentativas, mas que foram importantes. Como é que sei quando uma música está completa e pronta para ser ouvida? Não dá bem para explicar, é assim meio que um contrato interno que faço, e a malta que partilha este processo faz também. O que acontece é que tu vais tomando decisões, e essas decisões vão acumulando, até que chega um momento que sentes que já tens uma estrutura montada e é só afinar os detalhes. Detalhes esses que já são uma lista mais prática e, a partir do momento em que tens uma lista mais prática, é só ir fazendo os checks até estar tudo feito. O problema é que essa lista, muitas vezes, vai se estendendo demasiado [risos].

A sonoridade do projeto tem uma delicadeza muito orgânica, mas nunca soa frágil. Como é que encontraste esse equilíbrio entre proximidade emocional e construção estética?
Boa questão. Não sei se foi um processo racional; acho que foi mais uma cena subconsciente. Mas, obviamente, sempre gostei de encontrar um ponto de encontro entre o eletrónico, o experimental, o ambient e a música indie, folk e pop também, um pouco. Gosto disto tudo. Nas canções, há sempre ambiências e uma sonoridade que pode trazer alguma calma à pessoa que está a ouvir. E coloco-me num sítio mais atento, que foi um bocado a ideia da “Introdução” do EP — uma faixa instrumental que depois cola com a segunda música (“Faz Parte”). Lá está, acaba por ser uma cena estética de exploração de sons, mas que convida a pessoa que está a ouvir o EP de seguida a parar um bocadinho e a prestar atenção a esse universo em vez de bombardear logo informação. Pelo menos a minha ideia era essa.
Falando precisamente das faixas instrumentais do projeto — e tendo em conta que a primeira é instrumental — o que sentiste que não podia ser traduzido em palavras?
Já falei um pouco sobre a primeira mas, aliás, durante muito tempo, a “Introdução” estava colada à “Faz Parte”. Só que, entretanto, achei que faria sentido separar só, porque senti que era um momento meio que introdutório e queria ir ao desencontro da cultura da atenção; de termos de ter logo a voz à frente. Quero chegar a um público que não sente a necessidade de ter um refrão para continuar a ouvir. Portanto, a “Introdução” acaba por ser um teste [risos]: se tu tens paciência para ouvir isto, acho que vais ter paciência para gostar deste tipo de canções e deste tipo de produção. Sobre a outra faixa instrumental (“Mãe”), foi uma mensagem muito bonita que a minha mãe me deixou num dos meus aniversários. O que ela diz ali nunca iria conseguir traduzir numa canção. Aquele áudio consegue explicar melhor do que eu a relação que tenho com a minha mãe, que obviamente é uma pessoa importantíssima para mim. Lembro-me que assim que recebi aquela mensagem fiquei tipo “ya tenho que musicar isto de alguma forma”. E depois foi só uma questão de encontrar ali uma base que respeitasse o que ela está a dizer e viajar ali, de certa forma, com os saxofones do Tomás Martins. Sinto que estas duas canções dividem, de certa forma, o EP, porque depois as outras músicas são mais introspetivas.
No meio de tanta música feita hoje para agarrar atenção imediata, este disco parece pedir tempo e silêncio. Achas que ainda há espaço para música contemplativa em Portugal?
Gosto de acreditar que sim. Estou sempre a dizer isto, mas acho que existem uma ou outra ilha de público em Portugal. Temos a ilha que ouve música, que quer interagir com música cantada em português, que é consumidor de cultura, que gosta de apoiar as pessoas que estão a fazer música, etc. E a outra… Enfim. Infelizmente, não há muitos pontes ou barcos que vão de um sítio para o outro ou que ajudem a ligar esses dois tipos de pessoas porque, de facto, é também o nosso trabalho não só escrever canções mas também fazê-las chegar a pessoas novas porque, também infelizmente, as infraestruturas que existem não estão a fazer esse trabalho muito bem. Gosto de acreditar que num país onde o Bon Iver esgota o MEO Arena existem pessoas que gostam de música mais contemplativa e sentida. E quem diz Bon Iver… Há imensos artistas que têm vindo cá tocar que enchem salas e que cantam nestes registos. Portanto, acho que esse público existe; chegar até ele é, de facto, uma tarefa muito difícil. As redes sociais ajudam, mas não resolvem. Muitos meios de comunicação fazem o trabalho que podem, mas nem sempre é o suficiente. Aproveito para agradecer a projetos como o vosso, e ao jornalismo independente, porque realmente é das poucas plataformas que sinto que investigam mais do que os meios mais comuns.
A música “Faz Parte” — que é uma das minhas favoritas, aliás — fala muito da ideia de aceitar os dias mais escuros sem perder ternura pelo mundo. Achas que a tua música nasce mais da esperança ou da tentativa de sobreviver emocionalmente às coisas?
É, acima de tudo, da tentativa de me perceber [risos]. O que mencionei há bocado. É talvez um mix dos dois, mas um pouco mais da tentativa de sobreviver emocionalmente às coisas. Ou seja, dar sentido à minha maneira de estar, de ser e de sentir. No entanto, também há alguma esperança aí escondida no meio. Lá está, a “Faz Parte” é talvez das canções mais esperançosas. Mas, de facto, há outras que são só um desabafo que acaba por não se traduzir em nada muito positivo.
Há alguma música deste projeto que tenhas demorado muito a aceitar mostrar a alguém?
Por acaso, não costumo mostrar a outras pessoas as músicas quando estão a ser trabalhadas. É muito raro. Embora ache que o devia fazer; ganhava mais-
Mostras só no fim?
Imagina, há pessoas que tenho confiança para mostrar mesmo quando é só guitarra e voz. São poucas pessoas, mas existem. São pessoas com as quais gosto de falar sobre a canção e a letra. Aliás, foram elas que me deram este bichinho para a escrita. Mais vale dizer já quem é [risos]: é a Ana Mariano. Desde sempre que me introduziu um bichinho para prestar atenção às letras. Sinto que quando entrei no mundo da produção estava sempre muito virado para a parte instrumental e para os detalhes de produção. Tenho outras pessoas incríveis à minha volta, que vejo a maneira como escrevem, como o xtinto ou a Bia Maria. N pessoas, que são mesmo escritores e que adoram essa vertente da música, também apresentaram-me a esta perspetiva de dar mais valor à palavra e de querer ser melhor nisso também. A “Veneno” foi a música que demorei mais tempo a acabar, embora tenha sido a primeira que comecei a escrever, já há muito tempo. Só que acho que a produção era mais complexa, tinha muitas coisas a acontecer no final e, portanto, levou algum tempo a tomar decisões ou, pelo menos, a ganhar coragem para me sentar e produzi-la como deve ser. Mas é isso, quando mostro, mostro as músicas só mesmo no início dos inícios e depois quando já estou a fechar coisas e tenho bué dúvidas [risos]. Gosto de ali no meio estar na minha viagem. Mas gostava de juntar mais pessoas no processo nos próximos projetos.
Há pouco disseste que começaste a escrever algumas destas músicas aos 19 anos e referiste alguns nomes como pessoas importantes no teu percurso e na tua relação com a escrita. Alguma vez pensaste que um dia ias lançar um EP teu, com letras escritas por ti e interpretadas por ti?
Houve uma altura em que não, de todo. Até houve uma altura em que estava a trabalhar num disco como Luar, que era um disco, digamos que, mais comum de produtor: com artistas convidados a cantar por cima de instrumentais. Este projeto de que falo chegou a existir e a ter até algumas canções, mas não me sentia desafiado. Gosto de usar a criatividade como um veículo para o crescimento pessoal e para fazer coisas que são mais desconfortáveis do que o normal para mim. Naquele caso, sentia que aquilo era o que já sabia fazer: produzir para outras pessoas e criar canções com elas. A certa altura, percebi que o maior desafio que podia aceitar nesse momento era ser só eu a cantar e a escrever tudo. E essa ideia começou a entusiasmar-me mais como desafio criativo do que necessariamente fazer um álbum de produtor normal. Mas, honestamente, se me tivesses perguntado isso há uns 5 ou 6 anos atrás ou um bocadinho menos, não sei se seria uma prioridade.
Sentes que este projeto fecha uma fase da tua vida ou abre uma completamente nova?
Fecha uma coletânea de vivências e memórias de um período da minha vida mas, ao mesmo tempo, abre caminho para um novo ciclo e para nova viagem.
Isso quer dizer então que podemos esperar por mais coisas tuas no futuro?
Ah, podes ter a certeza que sim. Quero muito continuar a escrever. Houve uma fase em que estava a acabar o EP e pensava “nunca mais vou escrever canções, isto é horrível, dá muito trabalho fazer tudo sozinho”. Mas esses pensamentos duraram muito pouco tempo, porque depois comecei a ganhar muito carinho pelo processo de escrever canções, e apetite para ficar melhor e continuar a fazê-lo, mesmo que nem tudo saia cá para fora. Acho mesmo que como exercício criativo tem-me ajudado imenso. É isso, está a ser um desafio; uma coisa que estou a gostar de aprender e de ficar melhor, e isso é suficiente para querer lançar mais coisas no futuro.
Por falar em futuro, quando ouvires este disco daqui a 10 anos, o que achas que ele te vai lembrar sobre a pessoa que és hoje?
Fogo, grande pergunta. Deixa-me tentar colocar nessa posição [risos].
Estarás com 36 anos.
Que idade é essa, 36 anos? Como assim [risos]? Olha, acho que exige muita coragem na ideia de te expores, de criares e de lançares canções independentemente do resultado que elas possam ter. E, portanto, saber que, daqui a 10 anos, vou olhar para trás e perceber que o Alberto, aos 26, teve essa coragem e essa curiosidade de fazer esta viagem, acho que me vai trazer alguma felicidade, sim.
Fotografia de destaque: Lucasownview
