Aos Converge, o amor não chega

Os Converge estão-se nas tintas se o estado actual do mundo dificulta, quando não impede completamente, a nossa disponibilidade para ouvir um disco completo. Quanto mais dois.

Dois. Foi esse o número de discos lançados pela banda de Massachusetts em 2026. O primeiro, Love Is Not Enough, e o segundo, poucos meses depois, Hum of Hurt. Love Is Not Enough é a vertente Nomeansno da banda e Hum of Hurt a vertente Slayer – nas palavras dos próprios quando participaram na rubrica do Youtube da histórica loja de música americana, Amoeba, intitulada What’s In My Bag.

É nessa aparição dos Converge onde percebemos a disparidade de influências da banda. Algumas delas são imprevistas, que constroem a identidade da banda cujo paralelismo apenas se pode estabelecer com os Catharsis, Neurosis, Integrity ou Blood Incantation (nenhum dos quais figura na selecção de Jacob Bannon e Nate Newton, já agora). Já Bolt Thrower, King Crimson, Darkthrone, Dead Moon, The Hellacopters, Trouble, Embrace, At The Gates, Marty Robbins, Robin Trower, Throbbing Gristle e Gil Scott-Heron estão presentes, juntamente com os Cro-Mags, não do expectável The Age of Quarrel mas de Alpha Omega, uma espécie de híbrido de Voivod e Bad Brains em modo pós-crossover de inícios de 90.

Essa bastardização de géneros numa banda cuja base de fãs é tão tradicionalista como só os adeptos do hardcore e do metal conseguem ser coloca-os numa terra de ninguém com menos habitantes ainda do que os Isis, pois onde estes aplicavam de forma magistral a dinâmica peso-textura com uma matemática de fazer inveja a Pitágoras, já os Converge são os reis das bolas curvas.

Se foi ao quarto disco, Jane Doe, que a banda se afirmou, consolidando daí em diante o seu percurso, é sem dúvida agora, na meia idade e depois de mais de 30 anos de estrada, que os Converge estão no seu momento mais vigoroso. Não pelo mero facto de editarem dois discos no mesmo ano (isso em si seria apenas notícia para quem está interessado em factoides), mas porque a sua dobradinha, ao mesmo tempo que nos desafia pela já tradicional falta de gratificação imediata da banda, oferece retribuição em abundância a quem se entregar a explorar as diversas camadas, linguagens, estéticas e mudanças de direcção de Love Is Not Enough e de Hum of Hurt.

Basta uma disponibilidade mínima para ser-se arrancado da passividade da era digital pela prece, misto de tumulto e desalento que é a faixa homónima de abertura do primeiro disco. Nessa “Love Is Not Enough”, Jacob suplica que reconheçamos a insuficiência do amor em parar os necrófagos, sem fim à vista num tempo para sempre errado. Parecem assim responder à nova tendência do punk se newageificar, afirmando o amor como revolução quando não passa de mercadoria como tudo o resto. O amor não chega, a sua afirmação ainda menos. Primeiro precisamos de criar os espaços onde ele possa ser praticado de todas as formas possíveis.

Em nenhum momento da sua existência os Converge foram uma banda panfletária ou sequer directa em relação ao seu posicionamento político, partindo de um lugar extremamente pessoal para fazer o que pode ser interpretado como crítica social ambígua o suficiente para semear a dúvida. Por isso, conhecer o contexto da banda é determinante na sua leitura, e o louvor de Nate, em What’s In My Bag, a Embrace, a banda de Ian Mackaye depois dos Minor Threat e antes dos Fugazi (se descontarmos o projecto Egg Hunt) e a Revolution Summer da cena punk hardcore de Washington em 1984, ajuda a compreender a linguagem dos Converge.

As influências dessa sonoridade proto-emo surgem também na parelha de discos de 2026, onde se cruzam com o skramz, o thrash, o hardcore new school na sua versão pré-metalcore, o crust em modo black metal, tudo alinhavado com uma inesperada sensibilidade pop cerzida com texturas próximas das atmosferas de uns Alcest nos seus primórdios.

Nada disto é novidade para quem segue os Converge. Ambos os discos servem como a continuidade lógica do trabalho da banda, agora cristalizado numa estética onde as influências deixam de ser âncoras para passar a pesca de arrasto, chegando a esboçar uma aproximação à nova vaga do heavy metal britânico do início da década de 80 com com “Hum of Hurt”, a faixa título do segundo disco.

É em situações como essa ou como “We were never the same”, onde o ecletismo da banda se materializa em composições orelhudas, que os Converge exercem o seu poder de arrasador magnetismo, ao alcance apenas dos que lhes dedicam a intensidade de escuta que a sua música exige, da qual qualquer relação com significado se alimenta. E como em tudo, a crescente cumplicidade e familiaridade do ouvinte com o universo da banda, influi, felizmente, na relação.

Nesse sentido, uma óptima peça de acompanhamento para Love Is Not Enough e Hum of Hurt, passando assim do díptico a tríptico, é a entrevista de hora e meia que Jacob Bannon concedeu à revista Revolver. Nela, aceita os Converge como o seu inescapável desígnio e manifesta indiferença perante a possibilidade de poder ganhar mais dinheiro com outro trabalho, preferindo desdobrar-se em múltiplos empregos precários e ser um tarefeiro da banda, que faz tudo desde embalar discos até ao design do merchandising, como – e o próprio reconhece-o – se estes ainda fossem os anos 90, confirmando assim a possibilidade de zonas autónomas forjadas pelo amor nos arrabaldes do todo devorador império mercantil.

Essa quase abnegação, estampada em toda a postura da banda, é afinal uma decisão consciente que comporta uma dose de dor e solidão, ambas transmutadas no poder dos Converge dotado do potencial de criar empatia a quem experimenta o mesmo isolamento colectivo. Esses, que o melhor a que conseguem almejar é o alívio temporário do vazio, uma vez rejeitada a simulação do seu preenchimento, sabem que é verdade. O amor não chega. Mas nele começa a refrega.

Hugo Filipe Lopes aka Cobramor.
Autor. Tradutor. Editor.
Antitudo.
Copy criativo. Sociólogo.
O necessário para um precário.
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