Custa-nos ver os nossos artistas favoritos envelhecer. Não porque não queremos permitir que envelheçam, mas porque envelhecer significa que acabaremos por deixar de os poder ver. Ficarão para sempre imortalizados nas suas obras, mas, se desse para pagarmos todos 120 euros para os ver atuar mais uma vez numa sala de concertos, certamente fá-lo-íamos, estejam no estado em que estiverem. Tudo depende do nosso fanatismo. E este mesmo fanatismo leva-nos, muitas vezes, a tomar decisões irracionais. Porque nem todos os artistas têm uma caminhada alegre e honrada pelo show business durante o seu envelhecimento. Por um lado, temos artistas cujas performances envelhecem como um vinho do Porto delicado, que ganha novas texturas e aromas. Já não é o mesmo vinho que bebemos na primeira colheita, mas tornou-se outra coisa: mais calma, mais ponderada, talvez até mais complexa, e que, no momento certo, é capaz de nos levar à lua.
Por outro lado, temos artistas que se arrastam pelo palco enquanto os fãs agitam notas no ar e gritam “Toca o Primeiro Dia”, como se de um macaquinho dançante que toca por uns troquitos se tratasse.Sérgio Godinho, artista que dispensa qualquer tipo de apresentação, atuou no dia 14 de agosto no palco principal do Vodafone Paredes de Coura, às 18h40. Este palco tem já um belo histórico de elevar qualquer tipo de atuação fofinha ao seu potencial máximo. Este ano não foi exceção. Patrick Watson, Benjamin Clementine e First Breath After Coma fizeram parte de um cartaz particularmente generoso em nomes que as nossas mães iriam adorar ver naquela bela colina. No entanto, Sérgio destacava-se dos demais pelo fator “lenda da música portuguesa”.
Naquele fim de tarde, o recinto estava completamente à pinha. Famílias, festivaleiros, curiosos, fãs de longa data e gente que provavelmente só conhecia o banger das novelas estavam ali para ver Sérgio Godinho & Os Assessores. O céu estava limpíssimo, o sol sorria para todos e estavam reunidas, aparentemente, todas as condições ideais para um grande concerto.
Sérgio Godinho é um daqueles nomes que saltam pelas bocas de toda a gente. Mesmo para os mais desinteressados em música de intervenção, entra facilmente no ouvido. Tem uma forma relativamente pop de se apresentar e, acima de tudo, nos tempos que correm, “fica muito melhor” num story do Instagram do que um José Mário Branco ou um José Afonso. É sério o suficiente para aumentar o ego de qualquer jovem que se acha anti-sistema, mas acessível o suficiente para que ninguém tenha de fazer grande esforço para perceber aquilo que está a ouvir.
No palco, cinco fotografias diferentes percorriam, por ordem cronológica, várias fases da carreira de Sérgio Godinho. Uma celebração de seis décadas de carreira, ou uma maneira bastante eficaz de nos lembrar que o Sérgio está velho para caralho. E o concerto foi, desde o primeiro momento, um ritual à memória de tudo aquilo que Sérgio Godinho já foi.
Sabiam que Sérgio foi importante para a liberdade em Portugal? Não se preocupem. Caso se tenham esquecido, desde que começou a sua carreira, ele volta a relembrar. E sabiam que o 25 de Abril foi há 52 anos? Se não sabiam, ele também volta a relembrar. Tal como relembrou em todos os outros concertos que deu. Não há propriamente um problema em falar do 25 de Abril, mas a verdade é que o Sérgio dá mesmo o seu melhor para apresentar a sua carreira como um museu de si próprio. Porque é isso que este concerto me pareceu ser: uma viagem de montanha russa pela carreira dele. Pagas o bilhete e por momentos recuas no tempo e és também um revolucionário como ele. Um pequeno momento em que podemos fingir que toda a gente que está naquela colina se importa profundamente com a liberdade, com a igualdade, com a democracia e com todas as palavras bonitas que Sérgio Godinho gosta de dizer. Durante pouco menos de uma hora, podemos todos ser contra o sistema. Não é preciso saber exatamente qual sistema. Não é preciso sequer fazer nada contra ele. Basta cantar.
Sérgio foi acompanhado pelos Assessores, uma banda que fez um bom trabalho a adaptar o seu repertório à dimensão de um palco desta natureza. Houve arranjos com distorção, momentos acústicos e uma solidez musical que, em vários momentos, salvou o concerto de cair completamente no formato de karaoke intergeracional. A banda sabe tocar estas músicas e sabe, sobretudo, quando deve ocupar espaço e quando deve deixar Sérgio sozinho com as palavras. Mas até uma boa banda pode tornar-se cúmplice de um problema maior: quando tudo está demasiado bem preparado para funcionar, há pouco espaço para aquilo que torna um concerto verdadeiramente vivo. O desfile de convidados tornou essa sensação ainda mais evidente. Ana Lua Caiano, Samuel Úria, Capicua, A Garota Não, Milhanas e Manuela Azevedo foram entrando e saindo do palco, apresentando-se como uma espécie de Vingadores do politicamente correto (com a importante exceção de Manuela Azevedo, muito respeito por ela). Parecia que estávamos a ver uma espécie de Panda e os Caricas a cantar sobre a liberdade ser fixe. Tudo muito mastigado, muito simpático, muito bem iluminado e, lá no fundo, sem grande conteúdo. A rebeldia transformada num produto familiar. A contestação transformada numa experiência de festival. O anti-sistema vendido dentro do sistema, com merchandising, cerveja e dezenas de milhares de euros de produção.
Sérgio mexia-se como podia em palco. Afinal de contas, tem 81 anos. E seria ridículo exigir-lhe a energia física de alguém com 30. O problema não é o corpo de Sérgio Godinho ter envelhecido. O problema é o espetáculo parecer, por vezes, não saber muito bem o que fazer com esse envelhecimento. Os convidados davam o seu melhor para não o ofuscarem, embora nem sempre esse esforço fosse suficiente devido ao entusiasmo por estarem a tocar com o homem que, para muitos, representa uma das grandes figuras da música portuguesa. As músicas de Sérgio, pelo menos, funcionaram por si próprias. “Cuidado Com as Imitações”, “Liberdade” e “Com um Brilhozinho nos Olhos” foram acompanhadas por uma parte considerável do público.
O momento mais aguardado seria, inevitavelmente, “O Primeiro Dia”. Quando são tocadas as primeiras notas do piano, centenas de telemóveis levantaram-se obedecendo a uma coreografia já ensaiada, o público desatou aos abraços a chorar. Missão cumprida! Imaginem se não tivesse tocado esta música. Os motins que teria havido.
Não saí de lá a achar que Sérgio Godinho é irrelevante. Não acho que ele já não seja capaz de se apresentar em palco e de segurar uma multidão. As músicas aguentaram o teste do tempo e o público está disposto a ouvi-las e abraçá-las seja em que formato for. Mas acredito que exista alguma forma mais desafiante de as escutarmos. Um concerto de Sérgio Godinho não precisa de ser tão fácil e não o devia ser. E ele próprio não devia estar constantemente a relembrar-nos de quem é, nem de trazer artistas de novas gerações que mostrem aprovação por ele. Ele ainda está vivo, de boa saúde e com muito para dar. O que seria verdadeiramente interessante agora não é voltar a celebrar o que Sérgio Godinho já foi, mas descobrir até onde ainda pode ir.

