Onde esteve, afinal, Conan Osiris estes anos todos? Não é como se o autor de ADORO BOLOS (2017) tivesse estado ausente desde que quase encheu o Coliseu dos Recreios em dezembro de 2019. Apareceu quando lhe apetecia, nas faixas de outros, sempre pronto para matar o feat, ou para comentar algo mirabolante nas suas redes sociais. Mas música nova? Nicles. Assim, Tiago Miranda, na figura de Conan Osiris, transformou-se, nestes últimos anos, num espectro a pairar por cima da música portuguesa. O impacto de ADORO BOLOS continuou a ser sentido – pelos melhores e piores motivos –, mas a probabilidade de escutar música nova ligada primeiramente ao nome de Conan Osiris não parecia ser alta.
Até que o seguinte ocorreu: do nada, tal como ADORO BOLOS tinha caído como uma pedra no charco na música feita em Portugal nos últimos dias de 2017, Conan Osiris largou duas oferendas para nós, meros mortais, nos derradeiros momentos de 2025. A primeira foi o mini-álbum MUSICÆ MMXV, onde Conan reúne um conjunto de instrumentais que revelam o quanto estava (e ainda está) à frente do seu tempo. Datam de 2015, ano de transição para o artista, na altura perdido entre a experimentação de SILK (2014), o seu curta-duração de estreia, e a confiança incremental apresentada no mui-experimental (e assim-assim) MUSICA, NORMAL (2016), um passo necessário para aquilo que seria o cocktail multigénero de ADORO BOLOS. A segunda foi XENONEXO, o muito esperado sucessor de ADORO BOLOS.
Por onde começar a falar sobre XENONEXO? Tal como Mário Lopes declarou no Ípsilon, há “muito para ouvir, descobrir, decifrar” no regresso de Conan Osiris aos álbuns. São 20 canções e uma hora de Conan a não poupar, mais uma vez, nas palavras. Se ADORO BOLOS era um álbum onde o cuidado de Conan se notava tanto na escolha das melodias como na escolha das palavras, XENONEXO é um trabalho onde isso se volta a repetir. Há muita intenção em tudo aquilo que é comunicado e em tudo aquilo que é pretendido ser destruído. Se se Conan Osiris transformou num espectro que ocasionalmente fazia uma aparição quase divina em canções de outros – Nuno Ribeiro, Karetus, João Maia Ferreira, ben yosei, Ana Moura, PZ, Expresso Transatlântico e Scúru Fitchàdu –, a pergunta que se seguia a qualquer um destes avistamentos era sempre: quando é que o Conan volta a lançar música dele?
Parte da razão pela qual Tiago Miranda se tornou num assombramento para a música portuguesa era a existência insistente desse desejo, agora cumprido, de o ver a lançar nova música. Afinal, como poderia Conan Osiris fazer um disco depois de ADORO BOLOS, obra-prima que transformou a música portuguesa em seu redor? O adjetivo de disruptivo pouco jus faz ao impacto do disco. E tudo isto afetou Conan Osiris. Como era suposto lidar com a expectativa do possível falhanço de não conseguir corresponder às expectativas de como poderia soar o sucessor de ADORO BOLOS?
Além disso, a vida de Conan Osiris deu um 180 após a saída do seu segundo álbum. Os delírios do boca-a-boca, os concertos, a vitória no Festival da Canção com a incrível “TELEMÓVEIS” (que, curiosamente, faz parte do alinhamento de XENONEXO) e a participação no Festival Eurovisão da Canção em 2019 – tudo aconteceu tão rápido. Como era possível para Tiago conseguir lidar com isto tudo quando, apenas dois anos antes, estava a trabalhar numa sex shop e a absorver tudo aquilo que ouvia para conseguir fazer as canções de ADORO BOLOS? É impossível para o comum mortal, e especialmente se o comum mortal, de repente, começa a ser comparado a alguns dos grandes da história da música composta em Portugal, como Carlos Paião ou António Variações. Se um artista tem uma presença queer, as comparações com António Variações começam logo a chover. É um clichê.
Contudo, a música de Conan Osiris tem bastante de Paião (pelo dom da palavra e pelo uso de trocadilhos, paronímias e expressões populares) e de Variações (pela forma como compõe e como canta). Tal como também tem de Amália Rodrigues, Omar Souleyman, Björk, Evanescence, eletrónica da Linha de Sintra (Conan cresceu no Cacém), pimba balcã, música romântica brasileira. Quando despida das suas camadas, a música de ADORO BOLOS é, na sua essência, música de baile. Com aura de ter sido feita numa cave, sem dúvida influenciada pelos confins da Internet terminalmente online. É a partir desta colisão de tantos mundos e gerações que a descrição de “extraterrestre” para Tiago parece quase correta. Nesse sentido, Conan Osiris é menos Variações e Paião e muito mais Farinha Master (dono dos Ocaso Épico). Não sou o primeiro a dizer isto. Em 2023, Davide Pinheiro afirmou que Carlos Cordeiro (nome de batismo de Farinha Master) “podia chamar-se Tiago Miranda” e ser um “alien cá do burgo como Conan Osiris”.
Em ambos os casos, a sua música é pautada por um humor intencional e cirúrgico. Um surrealismo sarcástico que tece críticas à sociedade portuguesa em todo o seu esplendor através da ideia do que pode ser a música pop portuguesa num mundo globalizado. A exploração de uma suposta cultura popular portuguesa – os sons, as banalidades, a génese coletiva inconsciente – através da colisão desta com tudo aquilo que foi absorvendo ao longo da sua vida. Música feita por outsiders para outsiders, sem dúvida. Tudo propositado e pensado. Consequências? Só se pensa nelas após ocorrerem. Todavia, se no caso de Farinha Master a sua obra caiu (injustamente) no quasi-esquecimento, a Conan Osiris não saiu essa fava. ADORO BOLOS mudou o jogo. Conan Osiris tem cem por cento consciência disso. Na explosiva “FUJA MESMO SFF”, um bitaite revela mais sobre as intenções de Conan Osiris nos últimos anos do que qualquer outro presente nas faixas de XENONEXO: “Adufe pode ser que me ajude, né? / Palminhas vai dar mais atitude, né? / Se eu disser ‘Oioai’ 300 vezes por minuto há de haver alguém que me acude, né?” Hora de falar de portugalidade (outra vez).
Não há dúvidas de que ADORO BOLOS é um disco onde os pormenores mais “xunga”, “aquizombados” e “aciganados”, como lhes chamou Rui Miguel Abreu no Rimas e Batidas, não são “menorizados face aos elementos mais ‘sérios” de algumas linguagens mais próximas de uma ideia comum de ‘bom gosto’”. A análise do Rui estava correta; o que ninguém esperava é que a capacidade de Conan Osiris em colocar todas essas esferas no mesmo plano estivesse prestes a fazer abrir uma caixa de pandora. Se a explosão do fenómeno Conan Osiris rompeu pelo meio da linha que estava a ser traçada por figuras como Mike El Nite ou David Bruno (e o seu Conjunto Corona), o rasto largado por ADORO BOLOS é demasiado grande para ser ignorado. O problema é onde essa influência nos levou. Entre o impacto de Conan Osiris e a consequente devoção de muitos, demasiados, a malta como ROSALÍA e C. Tangana, uma portugalidade bafienta passou a ser a nova máxima da pop portuguesa. De repente, ser-se parolo ou chunga – ou aparentar ser-se parolo ou chunga – passou a estar na moda. Conan não tem culpa nesse cartório, mas a sua presença em canções de artistas como Nuno Ribeiro (um dos intérpretes da execrável “Maria Joana”) ou dos Karetus revela como o próprio tem noção do seu impacto e pretendia desconstruí-lo – e até mesmo destruí-lo.
Em parte, o olhar mais cínico e crítico que surge nas canções de XENONEXO vem da ideia de que Conan está a tentar reconstruir a sua identidade a partir de tudo o que ocorreu nos últimos anos na sua vida: o seu impacto, a sua liberdade artística renegada e transformada em pressão diária para colocar nova música cá fora, as suas frustrações, a sua saúde (física e mental), a imagem simulada de figuras públicas de um país mais próximo do abismo do que se acha. Conan conseguiu estimular, sem grande intenção, uma autêntica simulação de portugalidade em figuras como Ana Moura e Pedro Mafama, e fê-lo a partir da sua maior qualidade e, se calhar, defeito: ser ele mesmo. É por isso que em “PRINTSCESAS” admite isso: “Dicas à Barreiros, Quim / Ninguém faz igual a mim / Casei pimba com pintim / Eu tenho centenárias a torcer por mim / Reconhecerem-te a ti, mano, eu duvido”. Ele sabe que é a ROSALÍA portuguesa.
Se há algo que distingue Conan Osiris de muitas das figuras que lhe sucederam a tentar cruzar os multiversos dinâmicos da música portuguesa, é a sua sinceridade e honestidade. Em XENONEXO, é esse seu lado que Conan Osiris tenta reencontrar ao, mais uma vez, ser uma esponja capaz de absorver tudo e mais alguma coisa. Escutamos recortes de hyperpop em canções como “FORMIGA2” e “CARTOMANCIA”; os refrões multiplicam-se em faixas como “BAZA NAO FALAR”, “π-NOQUIO” (grande, grande canção), “DONA GLUTEUDA” e “DOIS CISNES”. Em “SAUDADE X SAUDADE”, Conan brinca com o estereótipo da “saudade” na música cantada em português ao apresentar uma canção mais próxima dos Model/Actriz se estes curtissem de Calema. É um dos pontos altos de XENONEXO.
Outro dos pontos altos de XENONEXO surge logo a abrir. Em “RECREYO”, Conan Osiris apresenta um leitmotiv que surge noutros momentos do disco: um beef com alguém. Com quem não sabemos ao certo, mas em XENONEXO a língua de Tiago aparece bem afiada. Na canção que inicia o álbum, diz: “Juro, tu tens / A mania que eu não bato bem”; em “CARTOMANCIA”, provoca: “Se quiseres descobrir / Será que eu ainda te vou mandar p’o baralho”; em “P-AMOR-D-DEUS”, indica: “Tu tens problemas / E tens problemas se um deles sou eu”; e em “π-NOQUIO”, atira com despudor: “Eles queriam apagar o Conaninho / ‘Tá-me a dar bué graça / Com borracha, bué devagarinho”.
Ninguém conseguiu apagar Conan Osiris, apesar de parecer que a pessoa com mais vontade de o ter feito ter sido ele mesmo. Que este tenha reaparecido como uma fénix pronta a reerguer-se das cinzas revela que ele próprio estava ciente da sua “presença fantasmática”, como Mário Lopes lhe chamou no Ípsilon. Essa autoconsciência gigante que habita dentro de Conan Osiris é o que lhe permite disparar um dardo certo como o é XENONEXO. Mesmo nas canções mais desinteressantes do álbum, como é o caso de “1 BRUXINHA” ou “OLHOS!PANOS!”, há sempre um charme que permite distinguir Conan Osiris de todas as cópias baratas que surgiram entretanto.
Mesmo se XENONEXO fosse um mau álbum, que não é, ou um “ADORO BOLOS 2”, que também não é, isso pouco importaria. A função do disco é plena no seu propósito de tentar quebrar todos os mitos que existiam da figura espectral que se tornou Conan Osiris. A pergunta é: com XENONEXO, consegue fazer isso ou alimenta-os ainda mais? Só o próprio Conan poderá determinar isso. Se há algo sobre o qual parece estar bem ciente, é o seguinte: ninguém é capaz de fazer a música que ele faz, por muito que tente. Assim, o mito, de certa forma, perdurará. Conan Osiris continuará a ser um extraterrestre à solta.

