Editorial #14

Quando o Ricardo chegou às portas do Céu empunhando a sua Fender Telecaster, nem queria acreditar que ia finalmente conhecer e—quiçá!—poder tocar com os seus maiores ídolos. 

Ao aproximar-se dos portões, reparou na enorme fila para entrar. Bem, agora tinha todo o tempo do mundo, não era? Esperou pacientemente pela sua vez, que não tardou em chegar. À porta estava um velhote de barba comprida e vestido cor-de-rosa que, escrevinhando furiosamente num bloco de notas, lhe dirigiu a palavra sem sequer levantar os olhos do papel:

– És o Ricardo, não é? Olá, eu sou o Pedro, o teu agente.

– O meu… agente?

– Sim, claro. Toda a gente talentosa que vem aqui parar é reencaminhada para um agente.

– E vais arranjar-me concertos, e um contrato discográfico, e promoção na imprensa, e tudo isso?

– Tudo isso. Só tens de assinar aqui nesta linha.

O Ricardo estava prestes a assinar sem ler quando reparou numa cláusula estranha.

– Espera. Aqui diz que eu cedo os meus direitos de autor na totalidade.

– Pois, aqui partilhamos tudo, somos uma comunidade.

– E que só recebo 0,0001% por stream?

– Não sejas materialista.

– E que a minha música pode ser retirada sem pré-aviso de qualquer plataforma em caso de aquisição e/ou fusão com uma empresa diferente?

– Claro, não queremos impedir o funcionamento do mercado livre, pois não?

O Ricardo suspirou.

– Bem, ao menos tenho liberdade criativa total?

– Completamente. Quer dizer, a menos que sejas demasiado activista nessas causas perdidas tipo Palestina e não sei quê, não queremos ter de lidar com cancelamentos que isso é um bocado chato para o negócio, percebes.

Hesitou por um momento antes de pegar na caneta rainbow que Pedro lhe estendia.

– E então? Assina lá, lá por isto ser a eternidade não quer dizer que possa ficar aqui o dia todo.

– Espera, só mais uma pergunta. Continuo a ter acesso a 100% dos meus lucros nas Bandcamp Fridays, certo?

– Ah, não sabes? A Bandcamp fechou.

O Ricardo deu um grito e acordou no chão, suando frio. Olhou para o relógio: faltavam cinco minutos para o alarme tocar. Era a primeira sexta-feira do mês.

tripeira de nascimento, parisiense por adopção. já escarafunchou muita arte, pisou muito palco, escreveu para muito sítio, e deitou muita carta. doutora em quebrar corações (e não só) e eterna electroclasher.
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