Editorial #59

Repetir a mesma coisa ad infinitum e esperar resultados diferentes é um ciclo sem fim aparente. E o presente parece ter-se transformado nesse dogma: repetir o passado sem pudor à espera que as coisas mudem para, depois, voltarem exatamente ao mesmo.

O desastre que ocorreu no centro do país, à semelhança do que têm sido os desastres dos incêndios em verões sucessivos, é a consequência derradeira daquilo que pretende ser a realidade capitalista eterna imposta pelo neoliberalismo. Não restam dúvidas de que esta catástrofe poderá ser a primeira de muitas, e se esperança pudesse existir na existência de um Estado que nos protegesse, desenganem-se. O estado das coisas é a imposição da ideia central ao neoliberalismo da sobrevivência do mais forte. A função do governo atual, liderado por indivíduos incompetentes com muita competência a cumprir o seu objetivo (destruir o Estado), não é proteger-nos. É garantir que essa ordem seja imposta. Tudo o resto é paisagem e tudo o resto é demagogia.

Que tanta emoção seja depositada sobre aquilo que ocorreu no centro do país esta semana demonstra que, apesar de tanta destruição e tanta dor, uma possibilidade de futuro se abre por entre os escombros daquilo que caiu e desapareceu. Os mecanismos de solidariedade criados a partir daqui não serão esquecidos. É uma pena que tenhamos de chegar ao limite dos limites da destruição e do colapso para que estes passem a existir.

No centro do país, ainda há muita gente a necessitar de telhas, lonas, e abrigo. Quem puder, faça o favor de ajudar e doar. Até o Texas Bar necessita de ajuda. Afinal, parece mesmo que só o povo poderá salvar o povo.

Há ainda recolhas a ocorrer em vários pontos pelo país, e começam-se a multiplicar os eventos de beneficência em prol das vítimas. A 11 de fevereiro, decorre na Casa Capitão, em Lisboa, o concerto solidário Amor ao Centro, cujo valor da bilheteira e donativos revertem para as associações ATLAS e Sharing Love, que desenvolvem trabalho em vários dos municípios impactados pela tempestade Kristin. Mesmo que não possam comparecer ao concerto, a compra do bilhete já será suficiente para ajudarem. Custa 20€, mas é por uma causa necessária. Podem adquirir o ingresso aqui.

Cartaz Amor Ao Centro
Cartaz Amor Ao Centro
Cucujanense de gema, lisboeta por necessidade. Concluiu um curso de engenharia, mas lá se lembrou que era no jornalismo musical e na comunicação onde estava a sua vocação. Escreveu no Bandcamp Daily, Stereogum, The Guardian, Comunidade Cultura e Arte, Shifter, A Cabine e Público, foi outrora co-criador e autor da rubrica À Escuta, no Espalha-Factos, e atualmente assina textos no Rimas e Batidas e, claro está, na Playback, onde é um dos fundadores e editores.
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