Elísio Donas e o Fim da Canção

Lembro-me bem de ver os Ornatos deambular pelas salas de pintura da FBAUP, devia correr o ano de 2003. Em hiato indeterminado há cerca de um ano, pareciam meninos perdidos em busca duma origem, dum conjunto de referentes que lhes mostrasse de onde tinham vindo, na esperança de conseguirem assim perceber para onde iam.

Nas minhas memórias estão sempre mais presentes o Manel e o Peixe pelo à-vontade com o qual se moviam pela alma mater; mas a comunidade artística do Porto é tão pequena e incestuosa que seria impossível não me lembrar também do Elísio. Pausado, num equilíbrio quase desconcertante entre serenidade e furacão, encarnando com unhas e dentes e coração e tudo aquela coluna vertebral que fornecia a um dos mais admiráveis corpos musicais a sair da invicta e mui nobre nestas últimas décadas.

Apesar destas coisas serem feitas de encontros e coincidências, nunca nos cruzámos nas lides de palco. Nos dez anos de pausa de Ornatos, Elísio foi alimentar outros mundos, e acabei por apanhá-lo nas Noites Ritual com um dos vinte e cinco mil projectos-satélite dos irmãos Praça, os Grace; repudie-se (ou não) todo o romantismo foleiro-nostálgico que possa gerar a “High On You” (Paulo, não te chateies comigo que já te disse isto), são os teclados do Elísio que a fazem fugir ao cliché cansado e a transportam para aquela dimensão mágica onde não sabes como ir ter—só reconheces quando já lá chegaste.

Não me vou perder a enumerar os contributos do Elísio para o Monstro, quando é tão estupidamente óbvio que o álbum lhe pertence. “Dia Mau”. “Pára de Olhar Para Mim”. “Capitão Romance”. E claro, “Ouvi Dizer”, naquela que é talvez uma das mais identificáveis linhas de teclado da música portuguesa, essa espécie de espectro entre o sublime e a ironia sobre a qual Victor Espadinha fez o seu grande comeback à relevância pop nacional.

Nestas alturas, não há abraços que cheguem. Não há lágrimas que bastem. Há só um vazio partilhado que se impõe como ruído de fundo, substituindo o choque e a incredulidade iniciais, e que se vai esbatendo a uma velocidade arbitrária. Mas como diz o meu amigo Miguel Ramos, baixista de SuperNada, meu colega de carteira na primária e companheiro das minhas primeiras brincadeiras musicais, “Quem morre é quem fica; quem parte, transcende.”

E nós que tínhamos tantos planos para depois.

 

Elísio Donas, 1974-2023

 

tripeira de nascimento, parisiense por adopção. já escarafunchou muita arte, pisou muito palco, escreveu para muito sítio, e deitou muita carta. doutora em quebrar corações (e não só) e eterna electroclasher.
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