Nasceu em Inglaterra, passou a sua infância e primeiros anos da adolescência em Cabanas de Viriato, vila do distrito de Viseu, e regressou a Londres, onde faz a sua vida hoje. Assim foi a vida de Sónia Bernardo, que mais conhecemos como Bernardo.

Ao longo da última década, a produtora e multi-instrumentista luso-britânica tem traçado um percurso através do qual, a pouco e pouco, tem ganhado notoriedade com a sua neo-soul adornada por jazz, pós-punk ou trip hop. Dos lugares luminosos dos seus dois primeiros EPs – Tender, de 2016, e Panic Prayers, de 2019 – brotaram as reflexões introspetivas e sombrias de Wasn’t There, Someone Told Me (2021), agora ampliadas no seu álbum de estreia, Secrets of Six-Figure Women, editado pela “sua” Liquid Warble em setembro de 2025.

É esse disco que justifica o regresso de Bernardo a Portugal, com dois concertos a ocorrer na próxima semana em Lisboa (na BOTA), a 5 de março, e no Porto (no Ferro Bar, com os entusiasmantes Berma encarregues da primeira parte), a 6. Pelo meio da introspeção e questionamento que paira sobre um álbum erguido por Bernardo com a ajuda de Dave Maclean (dos Django Django), parceiro musical da artista desde Panic Prayers, surge uma luz que nos pode indicar o caminho a um lugar mais risonho. Que tempos sombrios são estes que vivemos? Em Secrets of Six-Figure Women, Bernardo tenta encontrar a(s) sua(s) resposta(s). Conversamos com ela.

Capa Secrets Of Six-Figure Women
Descobri a tua música em 2019, com o EP Panic Prayers. Sinto que esse EP é importante na definição da tua trajetória musical. O que é que o Panic Prayers mudou para ti?

O EP que lancei antes do Panic Prayers, o Tender, fiz-lo no meu quarto e foi uma cena que não foi nem mixada nem masterizada. Só queria lançar aquilo, estás a ver? O Panic Prayers teve mais intenção. Eu queria ter um cartão de visita e acho que o Panic Prayers funcionou para isso e para eu começar a desenvolver a minha sonoridade. Tinha influências de jazz, porque cantei em bandas de jazz durante algum tempo, a vertente mais soul, mas soava ainda bastante indie, que adoro. Consigo agora dizer que aquelas canções não são ainda totalmente a minha cena, mas foi um começo.

Bernardo: “Para mim, tem de existir uma ideia base para querer assumir que quero fazer um disco”

Acho que isso está relacionado com a maneira como passei a construir as canções. No Panic Prayers, as canções foram muito pensadas para soarem de uma determinada maneira – entre a soul e o jazz. É por isso que as canções soam algo felizes. Acho que a “S.H.M.” já soava um bocadinho mais sombria, mas não tem nada a ver com o que veio a seguir e com o que virá daqui para a frente.

O Panic Prayers também marcou o início da tua colaboração com o Dave Maclean, dos Django Django, que se estende até este Secrets of Six-Figure Women. Como é que ele surgiu na tua vida?

Depois de fazer o Tender, tive a sorte de começar a escrever para bandas. É assim que conheço muita gente da indústria – se é que podemos chamar “indústria” a tudo isto atualmente, quando estamos todos a lutar pelas nossas vidas. Eu tinha uma canção chamada “One Inch Punch” e achei que ela podia ser gravada por uma banda, porque não gostava muito dela. Porém, muitos dos meus amigos gostavam dela e diziam-me para lançá-la. Eu acabei por lançá-la no Soundcloud e o Dave e o Vini [Vincent Neff] dos Django Django ouviram-na e ficaram interessados nela. Queriam ver se faziam algo com ela no estúdio, mas acabaram por decidir ajudar-me a gravar algo. A minha colaboração com o Dave começou aí e ficamos super amigos. Passado uns meses, passei a fazer parte do estúdio deles e a colaborar mais com eles. Escrevi e participei em algumas músicas dos Django Django e o Dave começou a fazer parte da minha jornada. Tem sido incrível [risos].

Sentes que o teu processo de escrita para fazer as canções deste Secrets of Six-Figure Women foi menos cerebral que no passado?

Para mim, tem de existir uma ideia-base para querer assumir que quero fazer um disco. E essa ideia tem de conectar as canções todas. Eu não queria fazer um álbum que fosse só uma coleção de músicas que escrevi. Não quero que a minha música seja vápida, percebes? Nos EPs houve sempre uma ideia, mas para o álbum custou-me perceber o que queria comunicar. Comecei a escrever canções, e escrevi e escrevi até perceber o que queria dizer ao mundo. Quando entendi, percebi sobre o que seria o álbum e que canções fariam parte. Por exemplo, quando fiz a “Go Blue”, percebi logo que aquilo era a primeira canção porque delineava tudo o que vinha a seguir no álbum. Pode não ser explícito, mas a ideia do álbum está nessa canção. Depois, a ordem do resto das canções faz todo o sentido, pelo menos na minha cabeça. Acho que algo que também mudou é que muito do meu trabalho anterior, particularmente o Wasn’t There, Someone Told Me, era sobre como eu me sentia como uma outsider. Seja no meu grupo de amigos, no trabalho, na indústria, em Portugal… Em Portugal, e não é que tenha muitos amigos em Portugal, se falar com alguém, sou sempre “aquela que está em Inglaterra”. Não faço parte de nenhuma cena, nem em Portugal nem aqui. Aqui, sou aquela que, às vezes [risos], canta em português. Acho que o álbum não tem muito isso presente. Fala de outras coisas, de outras ideias. Fui mais intencional no que queria dizer, acho eu.

Sentes uma certa distância com aquilo que está a acontecer ao nível da música em Portugal?

Acho que por estar longe as pessoas não estão muito interessadas em mim. E eu considero-me uma pessoa um bocado estranha [risos]. Não sou uma pessoa de interagir muito, nem sequer online. Mesmo que haja pessoas que estão a fazer cenas que possam ser semelhantes à minha, eu não as conheço. E como ninguém tentou falar comigo para fazermos cenas juntos… [Risos]

Tu pareces ter uma ligação maior a algumas cenas musicais do Brasil que a Portugal. Editaste uma versão tua de uma canção da Maria Bethânia [“Volta Por Cima”] pela Seloki Records e colaboraste com o Apeles, que lançou o álbum [ESTASIS] pela Balaclava Records.

Esse pessoal da Seloki, da Balaclava e também da selo RISCO é todo excelente. Dizem-me todos: “Sónia, você é muito foda!” [risos]. Eles ajudam imenso e arranjam-me sempre concertos quando um artista deles vem tocar a Londres. Já abri para a Ana Frango Elétrico uma ou duas vezes à pala destas ligações, e o baterista dela, o Pedro Fonte, gravou umas percussões para a “Tom Zé, Mon Chéri”. Mas isto tudo só aconteceu porque eles vieram falar comigo. Eu não fui atrás de nenhum pessoal do Brasil. Em Portugal, isso nunca aconteceu. Nunca ninguém falou comigo a convidar-me para fazer alguma cena. Mesmo agora para estes concertos, tive de explicar quem era e o que já tinha feito, e mesmo assim, houve rejeições [risos]. No Brasil, espero conseguir tocar lá em breve. Esteve para acontecer em 2025 com a ajuda da Seloki e da Balaclava, mas aconteceu-me tanta coisa no ano passado que tive de deixar essa ideia de lado para 2026. Vamos ver se acontece!

Sinto que o título do álbum, Secrets of Six-Figure Women, é ligeiramente tongue in cheek. Acho que o disco, ao contrário do livro de onde tiraste o título, não é sobre como ficar rico. Aliás, e isto talvez seja um bocadinho a minha cabeça a inventar teorias, sinto que o disco tem muito presente esta ideia de homenagem às mulheres da tua vida. A “What, If Not The Family?” tem muito essa ideia presente. Que tens a dizer sobre isso?

Nunca tinha pensado nisso. É interessante essa tua observação. O título do Secrets of Six-Figure Women veio de um livro que apanhei na estrada e que era um livro de autoajuda horrível [risos]. Mas ajudou-me a pensar. Debati comigo mesma e isso inspirou a ideia que liga todas as canções do álbum. Tentei encontrar uma resposta à pergunta “qual é o meu valor na sociedade de hoje?” com o Secrets Of Six-Figure Women. Porque é assim, eu faço música há vários anos e-

Tu fazes música a tempo inteiro?

Não [risos]. Trabalho como project manager numa empresa. Tem de ser. Tenho de ter um emprego a tempo inteiro para garantir que pago a renda. Então, quando estava a fazer o álbum, muitas vezes ia para o estúdio às seis da manhã trabalhar no álbum e depois ia trabalhar. Ao final do dia, voltava ao estúdio para gravar mais coisas. Estou eu a fazer isto e as pessoas à minha volta… estão a casar-se, têm uma carreira de sucesso na sua vida corporativa. Alguns estão mesmo a ganhar seis dígitos [risos]. E eu sou só uma artista que nem consegue sê-lo a tempo inteiro, estás a ver? É impossível. Não sei como há pessoas que conseguem. Eu trabalho com várias bandas que tocam, por exemplo, no Primavera Sound, e que têm hype, e mesmo assim, têm trabalhos, mesmo que seja em regime de tempo parcial. Portanto, quis pensar sobre isso. Estou a usar o meu tempo apropriadamente? Estou a ir para algum lado? É suposto eu conseguir chegar a algum lado num mundo que está preso num capitalismo merdoso que suga a vida de todas as ideias a não ser que venhas de riqueza? Eu não venho de dinheiro. O dinheiro que gasto no estúdio e na minha música sai do meu salário. Então, será que devia estar a gastar o meu dinheiro em música ou estar a poupar para comprar uma casa?

Fotografia: José Sarmento Matos
O dilema: seguir ou não o caminho normal, pré-determinado pela sociedade.

Sim. E enquanto mulher, há várias questões que te começam a fazer quando fazes 30 anos, que é a minha idade. Vais ter bebés? Vais comprar uma casa? A tua vida é só música, música, música? Numa família portuguesa, então… Não sei se algum dia vou atingir o sucesso que eles acham, e que se calhar até eu acho, que devia atingir. Então, questionei-me: qual é o valor da mulher artista nos dias de hoje? E a cena do six-figure… Na realidade, quando peguei no livro, achei que a sua temática seria algo parecido ao Multitudes, o álbum da Feist, que é sobre as várias multitudes que tem uma mulher. E não. Era sobre como ganhar dinheiro. Na realidade, só queria questionar: o que estou a fazer com a minha vida? [Risos]. Portanto, apesar de uma certa ironia no título do álbum, queria mesmo debater comigo mesma estas ideias todas. Hoje, é tudo sobre como consegues ser mais produtivo e como consegues ser “melhor”. Tudo é autoajuda. É uma treta! Eu não quero saber disso. Quero viver uma vida bonita. Isso é o meu sonho. Tenho ambição, sim, mas como é possível encaixar essa minha ambição num mundo como este? A “What, If Not The Family?” tem a ver com o quão fortes são a minha mãe e a minha avó, que infelizmente já morreu. Há muitos questionamentos que surgem na minha cabeça por causa delas. Porque estou tão longe delas? A minha família está em Portugal e eu estou aqui, tão longe, sem uma família minha.

Sentes que em Londres é complicado furar se não vieres de famílias com conexões à priori?

Há muitas coisas diferentes a acontecer em Londres. Há muitas cenas musicais diferentes, mas há algo comum em todas. Se existe hype, há dinheiro envolvido. Eu faço parte de um conjunto de artistas que tentam ser DIY quase a 100%. Somos mais do que artistas independentes. Tentamos mesmo fazer tudo nós. Os visuais, a música, etc. Agora, há casos de pessoas do DIY, ou que aparentam ser DIY, que têm mesmo muito dinheiro. Costumam ser filhos de pais ricos ou de pais com muitas conexões. Às vezes, essa malta tenta fingir um bocadinho que é o underdog, mas não é. Nunca foram. Mas que podemos fazer? É este o sistema. Não sei se temos a capacidade de o mudar. É um bocado insano, mas eu tenho de esperar que a sorte me bata à porta [risos].

O problema é esta prisão: parece que só existe uma via. Tens de seguir este caminho para conseguir algum tipo de sustentabilidade. Mas é um engodo. E a sorte tem muito que se lhe diga. Quantos artistas que tiveram a sorte de explodir com a ajuda dos algoritmos não tinham bastante dinheiro envolvido? Também tens a opção de tocar ao vivo infinitamente, mas isso garante-te um burnout. Bonitas opções estas.

E alguém está a fazer dinheiro com isto tudo, não é? Mas claro que não são os artistas independentes. E aqui em Inglaterra, como existem tantas pessoas envolvidas na cena musical, existe muita mão de obra disponível para trabalhar na indústria de graça. E podem fazê-lo porque são pessoas que não necessitam desse dinheiro para viver. Há muitas editoras que funcionam com a ajuda deste tipo de negociatas, onde os estagiários aceitam estas condições porque não precisam do dinheiro. Vivem bem na mesma sem terem um salário. O sistema foi assim montado e não sei se é possível contrariá-lo.

A “Turn Around, Keep Going” tem direito a uma remistura assinada pela Laetitia Sadier, dos Stereolab. Como é que isso aconteceu?

Eu sou grande fã dos Stereolab e tive a sorte [risos] de a conhecer e de ficarmos amigas. Sabia que os Stereolab estavam em digressão e que ela estava ocupada, mas decidi arriscar e perguntar-lhe se ela não queria fazer uma remistura de uma das canções do álbum. Ela disse logo que sim. Dei-lhe a escutar e ela disse logo que queria fazer uma remistura da “Turn Around, Keep Going”. Ela ajuda muitas pessoas que ainda estão com o estatuto de emergente e é um amor de pessoa. Icónica.

Quando vi a capa do Tender, pensei logo na estética de pastel associada ao Tumblr. A Internet já serviu de refúgio para ti ou ajudou a desenvolver a tua identidade artística de alguma maneira?

Eu tive a sorte de ter um irmão mais velho que sabia mexer com a Internet. Ele fazia download das músicas que eu pedia, mas também fazia alguma curadoria. Todas as semanas, fazíamos uma review da música que tinha no meu MP3 e ele atualizava conforme o que era fixe. Ele moldou, e ainda molda muito, do meu gosto musical. Ele está sempre a encontrar e a mandar-me bandas e cenas novas para ouvir. Ele mostrou-me de tudo. Rock, jazz e música brasileira. Ele dizia: isto é o que é fixe de se ouvir e mostrava-me. Comecei a gostar de mais coisas além da pop da qual já gostava. Depois, quando comecei a aprender a mexer na Internet, encontrei referências que me deram vontade também de fazer música. Por exemplo, a Lykke Li, que também chegou a viver em Portugal. Eu encontrei a música dela online quando ela ainda estava a começar e ela foi uma das artistas que me deu imensa vontade de começar também a fazer música.

Sentes que o programa de rádio que tens na Soho Radio impacta o teu processo musical?

Isso é uma boa pergunta. Não sei se tem algum impacto. Sinto que sim, mas não sei bem como [risos]. Eu mostro muitas das canções que ando a ouvir mais, mas deixo propositadamente algumas de fora para não ser demasiado óbvio quais são as minhas influências para fazer uma determinada canção. Não quero que seja óbvio para as pessoas perceber aquilo que me influenciou a determinado momento ou fazerem comparações óbvias. Tipo, a “Nada, Nada, Nada”. As pessoas vão ouvir a influência de trip hop na canção e dizer logo Massive Attack. E tipo, não. Se calhar, não foi Massive Attack em quem estava a pensar. Não gosto que as pessoas façam esse tipo de ligações preguiçosas. Mas preparar os programas da rádio sem dúvida ajuda-me a descobrir música nova. E quando tenho convidados, são os programas mais fixes. Eles mostram-me sempre artistas que não conheço.

O que é a Liquid Warble?

É a minha editora [risos]. O disco ia sair por uma editora, mas após conversar com o manager dos Stereolab, ele sugeriu-me que se calhar saía mais a ganhar se fizesse mesmo as cenas por mim, tal como eles fizeram. Ele sugeriu-me criar o meu próprio selo e pronto. Surgiu a Liquid Warble.

Os concertos que vais tocar em Portugal vão ser com banda?

Infelizmente, não. Vou ser só eu. Não existe hipótese de trazer a minha banda. A nível monetário, é provável que vá já perder dinheiro, e sou só eu. Imagina agora com a banda. Da última vez que toquei na BOTA, em Lisboa, toquei em formato de trio, e foi fixe. Foi uma cena diferente, em que não houve muitos ensaios porque não podia estar em Portugal. Agora, vai ser um concerto stripped down. Porque vou ser só eu.

Vais ser só tu e a tua guitarra?

Guitarra, teclados e samples.

Guitarra, teclados e samples.Um one-woman show, então.

Sim, vai ser [risos]. Mesmo que esteja a pensar que o pessoal não vai gostar por ser um concerto mais despido, estou entusiasmada.


Bernardo apresenta Secrets of Six-Figure Women em Lisboa, na BOTA, a 5 de março, e no Porto, no Ferro Bar, a 6 de março. Os bilhetes podem ser adquiridos aqui e aqui.

Fotografia de destaque: José Sarmento Matos

Cucujanense de gema, lisboeta por necessidade. Concluiu um curso de engenharia, mas lá se lembrou que era no jornalismo musical e na comunicação onde estava a sua vocação. Escreveu no Bandcamp Daily, Stereogum, The Guardian, Comunidade Cultura e Arte, Shifter, A Cabine e Público, foi outrora co-criador e autor da rubrica À Escuta, no Espalha-Factos, e atualmente assina textos no Rimas e Batidas e, claro está, na Playback, onde é um dos fundadores e editores.
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