dos entulhos loucos cavam sol relatado por MONCHMONCH

MONCHMONCH já não é um nome desconhecido no punk português. Conhecemo-lo por ser um performer frenético, cru e acolhedor, mas por detrás do seu último disco, MARTEMORTE, que ilustra um cenário apocalíptico e crítico de uma sociedade tecno-capitalista hiperbolizada (só um pouquinho), existe um lado mais honesto e vulnerável do artista paulista. Numa órbita entre Alex G e João Gilberto, saiu no início do mês o lado B desse álbum: dos entulhos loucos cavam sol.

Enquanto MONCHMONCH almoçava numa tasca no Porto, fizemos uma videochamada para dissecarmos faixa a faixa este outro lado da sua face. Antes disso, vamos a um pequeno contexto: MONCHMONCH confessou que este novo lado se aproxima daquilo que inicialmente quis fazer, mas preferiu não começar por aí, criando a personagem a que já estamos mais que acostumados. “Eu nunca dei seriedade às coisas”, diz. 

A ideia de se libertar dessa timidez surgiu quando a editora Saliva Diva tratava do vinil de MARTEMORTE. O número de faixas não era suficiente para fazer um disco com dois lados, por isso a mesma perguntou ao artista se não teria outras canções que pudessem ser colocadas: “aí eu falei: peraí, me dá duas semanas”, conta. Em três semanas, fecharam o outro lado com canções já feitas em formato demo e outras compostas de raiz. Estas são essas canções, relatadas por quem as escreveu.

BATATINHA

“Batatinha” é uma música que eu fiz quando tinha acabado de me mudar para Portugal. A minha transição para cá foi muito difícil. Tive muitos problemas de moradia: morar com pessoas difíceis, em situações difíceis, e aqueles esquemas de sempre em que você não consegue fazer contrato de arrendamento, porque não tinha os documentos. Então, comecei a ter muitos pesadelos. Há um em específico em que ficava assistindo de fora a um restaurante super chique com uns loiros comendo batata. E daí veio a música “batatinha”, e o videoclipe tenta reforçar a ideia. Foi por isso que escolhi “Batatinha” como primeira faixa do lado B, porque sinto que é uma música que serve de ponte entre os dois mundos, até porque as outras músicas têm um lance mais introspectivo e falam mais de morte. O videoclipe veio nessa onda da crise imobiliária, que também se reflete muito no Brasil, em São Paulo especificamente. A nossa ideia era pegar nessa relação dos prédios em cima da cidade vazia para trazer a sensação de que existem mais prédios vazios do que pessoas abrigadas.

SOL SOL SOL

É uma das que surgiram antes de pensar neste lado B. Escrevi-a quando morava em São Paulo. Veio numa fase em que o meu relacionamento, na altura, estava num momento meio difícil, e também estava no meu limbo pré-Portugal, não sabendo o que fazer com a minha vida. A letra tenta falar sobre depressão, entrar numa noite sem fim e ficar à espera do amanhecer. É uma canção inspirada na carta de tarô em que um homem está pendurado de pernas para o ar. Por isso é que a letra diz: “Cabeça no chão, dedinho no céu”. Na minha cabeça, o enforcado está preso, mas a cabeça dele está sempre iluminada. Ou seja, nessa letra falo da depressão com a noção de que alguma coisa vai mudar.

CAMBALHOTA

A “Cambalhota” escrevi já depois de ter ido para Portugal, quando estava a sentir muito esse lance da transição, de não saber qual é o meu mundo e onde estou. Em especial, porque tive de abandonar os meus quatro gatos. Lá no Brasil, sempre fui a pessoa da família que andava sempre a passear com eles. Tinha uma rotina de balançar a chave do portão, e eles iam a correr para sair. Havia ali uma coisa muito especial, e havia um líder do bando que era o José Cirquinho, ou, em inglês, quando se tratava de coisas mais profissionais, o Joseph Little Circus. Ele era um felino importante, só que, um pouco antes de eu ir para Portugal, começou a ter uns problemas de saúde sérios. Eu estava a sofrer muito por vir para cá e por não ter conseguido acompanhar a partida dele. Esta música veio muito desse lugar, dessa dor. No fim, consegui vê-lo mais uma vez. A música chama-se Cambalhota porque havia um lance: quando ele passeava, tinha um asfaltinho onde se ia atirando e dando cambalhotas e piruetas. Havia ali alguma coisa de que ele gostava muito.

(Para is interessades, os nomes do resto do bando dos gatos são: José Cirquinho, que, segundo MONCHMONCH, era um gato gay, casado com outro gato, o Coisa Linda — curiosamente, também o  nome de uma das suas músicas; temos depois a Berenilza Estricnina, uma gata caçadora; Alzira Ziraldo, um gato meio brigão, mas super; e, por último, Catuxa Nicolaeva).

PALAVRAS CRUZADAS

Inicialmente, foi uma música de amor, quase para afirmar um pacto amoroso com a minha companheira. Acho que serve para eternizar aquilo que é certo para uma vida, coisas de que não dá para a gente escapar, por escolha, sempre. Queria fazer uma música de amor sem parecer clichê, e por isso tentei fazer uma coisa que não fosse só uma música de amor, mas que tivesse ali realmente algo que a descrevesse muito. A minha companheira tem o hábito de fazer palavras cruzadas, e por isso fiz essa ponte com o hábito.

SELVA

“Selva” fala do trabalho que relações, sonhos e paixões têm de ter. É uma luta muito forte, e essa luta é personificada em dragões, uma ideia que volta a apoiar-se no tarô. Acho que há uma carta, no mitológico, o Naipe de Paus, em que vários personagens vão lutar com um dragão, é meio o desafio final da aventura deles, e depois disso são recompensados. Mas há esse dragão que é impossível de derrotar. Enfim, sonhar é uma coisa muito difícil. O nome “Selva” é uma metáfora para as paixões, coisas irracionais ou incontroláveis, e está também associado ao cenário perfeito para uma batalha com um dragão. Acho que é muito esse lugar de mata intocável para desenvolver essas paixões, de maneira a que elas não sejam controladas pela parte hiper conservadora da nossa mente ou do mundo.

Matilde Inês é uma pessoa que se emociona com os pequenos pormenores. É mais provável ouvimo-la a cantar as back vocals ou solos de guitarra, do que a letra principal. Recém licenciada em Ciências da Comunicação e que, atualmente, trabalha como radialista e jornalista na Rádio Voz de Alenquer. De vez em quando, escreve aqui e ali sobre música.
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