Estamos em 2026 depois de Cristo. Os festivais em Portugal parecem ter sucumbido ao consumismo acelerado, à massificação da experiência e à crescente desconexão com os festivaleiros. Todos? Não! Uma vila de nome Alpendorada, povoada por irredutíveis apaixonados pela cultura e pela partilha, resiste e luta para preservar a sua identidade, dando-a a conhecer a quem ainda não teve a oportunidade de a descobrir. Nos dias 18, 19 e 20 de setembro, tive o privilégio de testemunhar esta resistência cultural, onde a comunidade, a arte e o convívio continuam a ocupar o lugar central.
Concertos Que Nunca Existiram é um festival que desperta facilmente a curiosidade de qualquer festivaleiro que se preze. O cartaz só é revelado muito perto da data, uma estratégia que, longe de afastar o público, se tornou parte do encanto do evento. Existe uma certa aura misteriosa em redor do festival que o torna ainda mais cativante, e o imprevisível parece ser um fator constante. O sucesso das edições anteriores consolidou uma reputação difícil de igualar: mesmo sem conhecer os nomes que vão subir ao palco, o festival esgota. Quem já foi confia na organização e regressa, enquanto os estreantes acabam frequentemente convencidos pelos amigos de que não podem perder mais uma edição.
Mas como consegue um festival, numa localidade cuja própria existência muitos desconhecem, reunir tanta gente e conquistar uma comunidade tão fiel?
O levantar da cortina
Alpendorada é uma localidade do concelho de Marco de Canaveses, no distrito do Porto, situada junto ao rio Douro. Mal cheguei, fiquei com a sensação de que, durante o dia, a paisagem deveria ser verdadeiramente deslumbrante.
A primeira tarefa foi descarregar os meus apetrechos no campismo improvisado no Engenho do Linho, um espaço cujas condições para acolher os festivaleiros põem muitos festivais na vergonha. Este museu, dedicado à preservação da história do engenho e da produção do linho, procura também promover atividades culturais e artísticas como esta.
Mal fiquei instalado, apercebi-me de que não seria fácil convencer os meus restantes camaradas a acompanhar-me à primeira sessão do festival: a apresentação de um livro. E, de facto, chegámos atrasados. Para nosso enorme desgosto, perdemos uma parte de um momento em que cada segundo foi precioso.
O livro apresentado nasceu de uma residência artística entre José Pereira e Dinis Santos. José, fotógrafo local, dedica a sua lente há mais de cinquenta anos a documentar a região, guardando em imagens a memória de lugares, pessoas e momentos que, de outra forma, poderiam ter caído no esquecimento. Nesta sessão, o seu arquivo foi revisitado em conjunto com Dinis Santos. Foi um momento especialmente delicioso e comovente. Entre as imagens, surgiam paisagens que já não existem, lugares transformados pela construção de barragens e rostos de pessoas que já partiram. Muitas das pessoas retratadas estavam ali presentes, a assistir à sessão e a reconhecer-se, ou a reconhecer familiares e amigos, nas imagens projetadas. Os comentários de José eram tão espontâneos e engraçados que rapidamente conquistaram o público, mantendo-o preso a cada história e tornando o ambiente ainda mais emotivo e divertido. Não é tarefa fácil captar a atenção de uma plateia numa sexta-feira à noite com a apresentação de um livro, mas José conseguiu fazê-lo com uma naturalidade admirável. Depois de um momento tão rico em histórias, emoções e cumplicidades, a fasquia ficou bastante alta.

O primeiro dia dos Concertos Que Nunca Existiram aconteceu na praia fluvial de Bitetos, junto ao Douro. A paisagem, a proximidade da água e a tranquilidade daquele lugar deram ao dia uma dimensão especial, como se o próprio cenário fizesse parte da narrativa, sendo que os concertos aconteceram mesmo no areal.
Junto à margem do Douro, a harpista espanhola Angélica Salvi proporcionou-nos uma experiência sensorial em que a música, a água e o silêncio se fundiram. Inspirada pelo movimento das marés e pelo ritmo da respiração, a sua harpa encontrou naquele lugar o espaço ideal para criar uma paisagem sonora envolvente, onde a delicadeza das cordas se cruzava com texturas, repetições e distorções que transformavam o som em algo hipnótico. Aos poucos, fomos entrando num estado de transe, conduzidos por uma música que parecia oscilar entre a serenidade e a inquietação, entre a sensação de sermos elevados para um lugar de conforto e a de nos perdermos num sonho.
A proximidade do rio tornava esta experiência ainda mais intensa. A música parecia acompanhar o ritmo da natureza, convidando-nos a abrandar e a escutar para lá do som, numa espécie de diálogo silencioso com a paisagem. Naquela praia, deixamos de ser apenas espectadores para nos tornarmos parte de um momento de contemplação coletiva. Fomos convidados a respirar, a meditar e a permanecer no presente. Por instantes, parecia que o tempo suspendia o seu curso e que a música encontrava no Douro não apenas um cenário, mas uma extensão de si própria.
A noite terminou ao som do DJ set de Pura Cadera, que, de forma discreta, foi criando o ambiente ideal para prolongar o convívio. Sem se impor, a música foi preenchendo o espaço e aos poucos, mais pessoas foram se juntando, deixando-se levar pelo ritmo e ocupando a pista de dança.
Os verdadeiros protagonistas desta última parte da noite foram, no entanto, os condutores do shuttle. Incansáveis, garantiram que os festivaleiros regressavam em segurança e lembrando-nos, com uma sensatez difícil de contrariar, que estava na hora de descansar. O dia seguinte começaria cedo e ainda havia muito festival para viver.
O sol parece que brilha ainda mais em Alpendorada
O festival foi organizado pela Rústico.Cultura Associação, que, segundo diversas fontes, se trata de um grupo de cerca de 36 amigos unidos pelo carinho que sentem por Alpendorada e pela expressão artística. Este espírito de proximidade e compromisso fez-se sentir ao longo de todo o festival e a hospitalidade e a atenção com que fomos recebidos são dignas de elogio. Naquela manhã, nem mesmo os atrasos de alguns festivaleiros impediram a organização de nos receber com a mesma disponibilidade e boa disposição de sempre. Afinal, esperava-nos uma surpresa!
O ponto de encontro voltou a ser a praia fluvial de Bitetos. À nossa chegada, explicaram-nos que estávamos à espera de um barco que nos levaria até ao local do concerto de Carla Boregas. A viagem prometia, por si só, uma experiência diferente, mas o destino revelou-se ainda mais especial: a Ilha dos Amores, um pequeno pedaço de terra no rio Douro, pertencente ao concelho de Castelo de Paiva e envolto numa paisagem de uma beleza impressionante. Desta vez, a manhã permitiu-nos finalmente contemplar toda a dimensão da paisagem que, na noite anterior, apenas tínhamos conseguido imaginar pelas silhuetas das montanhas e pela iluminação do luar. A ilha era lindíssima, e o rio, agora iluminado pelo sol, revelava uma amplitude e uma tranquilidade que tornavam aquele cenário quase irreal. Foi ali que Carla Boregas, artista brasileira, nos apresentou a sua música, numa sessão de ambient e drone, com algumas incursões pelo noise. Recorrendo ao sintetizador, ao teclado, a samples e a gravações de campo, construiu uma paisagem sonora que oscilava entre uma delicadeza inebriante e uma intensidade quase cósmica. A música desenrolava-se de forma gradual e envolvente, conduzindo-nos pelos territórios surrealistas e densamente oníricos do seu universo sonoro.

O concerto foi particularmente intenso, alternando entre momentos de inquietação, em que o som parecia ganhar uma dimensão quase física até causar tremores no corpo, e passagens mais serenas, que convidavam à respiração e à contemplação. Havia uma comunhão muito particular entre a música e a natureza. A paisagem voltou novamente a ser um elemento muito presente, integrando-se na própria experiência, enquanto o público encontrava diferentes formas de se relacionar com o concerto, entre a atenção concentrada, o repouso e a simples observação daquela paisagem extraordinária.
Infelizmente, nem tudo estava sob o controlo da organização. Houve dois elementos que dificilmente poderiam ter sido previstos: uma aula de zumba numa ilha próxima e um cruzeiro turístico no Douro, ambos equipados com sistemas de som que, por vezes, se sobrepunham à música tocada. Ainda assim, sem nunca lhe retirarem verdadeiramente o protagonismo, estes imprevistos acrescentaram uma dose de absurdo a um concerto que já tinha muito de singular. Parabéns à Carla, que conseguiu oferecer um concerto de grande intensidade e qualidade, mesmo perante estas circunstâncias e o calor particularmente exigente daquela manhã.
A programação só regressaria às 15h, pelo que tivemos algum tempo para aproveitar o café e o bagaço com mel altamente delicioso do estabelecimento que serviu como ponto de encontro para a caminhada. O percurso revelou-se extremamente agradável, repleto de sombra, vegetação e paisagens que convidavam a abrandar o passo. Mas, por entre árvores e recantos inesperados, também encontrámos músicos espalhados pelo caminho.Cruzámo-nos, em momentos distintos, com um baterista e uma violinista. Ambos viriam a integrar mais tarde o concerto da Banda que Nunca Existiu, deixando pequenas pistas da atuação da noite. “Aqui os bateristas nascem nas árvores”, retorquiu um dos guias das caminhada.
O concerto seguinte foi talvez o melhor do festival. el djinn الجن, projeto de Artur Pispalhas, apresentou-se acompanhado por Israa Shalaby, artista palestiniana, numa atuação em que as sonoridades próximas do IDM de Boards of Canada e dos trip-hops mais sombrios criaram o cenário ideal para a voz de Israa brilhar. A música era intensa, carregada de detalhes e de atmosferas densas. A envolvente natural, contrastando com a presença de uma construção nas proximidades, acrescentava uma dimensão quase brutalista à experiência, como se a música encontrasse naquela junção entre o orgânico e o construído um espaço particularmente fértil para se desenvolver. A voz de Israa era belíssima, etérea e delicada, contrastando com uma percussão impressionante e uma produção meticulosa. Havia uma atenção ao detalhe que se revelava nos pequenos ruídos, nos chiados e nas texturas que iam surgindo ao longo da atuação. Tudo naquela música tinha uma intenção, e no final resta-nos apenas sonhar com estas canções, pois ainda não estão disponíveis em nenhum local.
Depois desta atuação, a caminhada chegou ao fim no Carvalhal e Eira, um terreno cedido para a realização do festival e que acolheria os restantes momentos do dia. O espaço era extremamente agradável, com uma clareira lindíssima e vários recantos onde o público podia sentar-se, descansar as pernas e recuperar energias depois de tantas horas de música e caminhada. O ambiente convidava ao repouso, mas quem subisse ao palco a seguir teria a difícil tarefa de voltar a pôr toda a gente de pé.
Foi a Lovers & Lollypops (responsável pela co-programação do evento) que trouxe Black Wizards e Ideal Victim ao festival. O rock stoner de Black Wizards encaixou na perfeição naquele espaço ao ar livre. Num dia tão quente, a combinação de guitarras pesadas, cerveja fresca e branco maduro parecia particularmente acertada. Havia algo de muito natural naquela conjugação, como se a música tivesse encontrado o seu habitat ideal.
Com Ideal Victim, o ambiente aqueceu ainda mais. Mais pessoas começaram a levantar-se dos troncos de árvore e das mantas onde tinham encontrado algum descanso, aproveitando o concerto para se mexerem e libertarem a energia acumulada antes do jantar comunitário. Aos poucos, a clareira foi recuperando o movimento, preparando-se para um dos momentos mais importantes do festival onde músicos, produção e participantes deixariam de estar separados pelos papéis que desempenhavam para se sentarem todos à mesma mesa.Com o pôr do sol, começaram a chegar às mesas compridas as travessas de barro com um delicioso arroz com lombo, preparado pela associação com a ajuda de parceiros de Alpendorada. A comida estava deliciosa e foram várias as vezes que tive de me levantar para repetir mais um pouco daquele belo manjar e a companhia também esteve à altura. Foi durante o jantar que tive oportunidade de conversar com Juanma LoDo, artista multidisciplinar galego que, já a meio da conversa, me revelou que iria atuar no concerto da Banda que Nunca Existiu. Falámos sobre a sua relação com a música e sobre a forma como encara a criação artística. Para Juan, tudo se resume à expressão. Não necessariamente à expressão de sentimentos profundos ou de emoções intensas, mas simplesmente à possibilidade de expressar alguma coisa como pataniscas ou bolinhos de bacalhau, alguns dos temas que viriam a ser abordados no seu concerto. O convite para integrar o projeto surgiu por intermédio de Luís Sobreiro, depois de ambos se terem conhecido num Creative Camp.

A conversa acabou por ser interrompida quando chegou a sobremesa e surgiu uma nova surpresa: António Bandeiras, responsável pelo DJ set que animaria aquele jantar. Ainda havia bolos de romaria a serem servidos quando as pessoas começaram a levantar-se das mesas para se juntarem à música e foi assim que António Banderas protagonizou um dos melhores momentos do festival. Entre música eletrónica pop e muito azeitada que, fora daquele contexto, talvez provocasse algumas caretas, o DJ demonstrou uma capacidade de mistura impressionante e uma energia absolutamente contagiante. De repente, as mesas compridas, ainda cobertas por toalhas de papel manchadas de arroz, café e vinho, transformaram-se no centro de uma pista de dança improvisada. Já ninguém parecia particularmente preocupado com o jantar ou com a necessidade de descansar. Havia roupas a voar (de António), pessoas a dançar e uma alegria coletiva que tornava impossível ficar-se indiferente. A dado momento estávamos todos rendidos a um António de cuecas vermelhas justas e botas a cravar cigarros ao público enquanto dançava com uma confiança inabalável. A festa tinha ainda um motivo especial: era o aniversário de António. E, como não podia deixar de ser, houve direito a bolo, acompanhado por uma manchete com a palavra «TOP».
Terminado o jantar, abandonámos as mesas e regressamos ao recinto para aquele que seria um dos momentos mais aguardados do festival: o concerto encomendado para a ocasião da Banda Que Nunca Existiu. Se até então já tínhamos tido motivos para nos surpreender, bastou olhar para a quantidade de equipamentos espalhados pelo palc
À frente do palco encontrava-se Juanma LoDo, munido de um teclado, microfones e uma variedade de samplers. À sua volta estavam duas araras – máquinas agrícolas utilizadas para limpar e separar impurezas de cereais, milho e feijão – operadas por duas camaradas de Alpendorada, José e Carlos. No palco, Teresa Monteiro assumia o violino e Fernando Costa a bateria, os dois músicos locais que já tínhamos encontrado durante a caminhada daquela tarde. Juntava-se-lhes Nunu nos vocais, enquanto duas Ângelas asseguravam a componente da dança. As araras assumiam um papel fundamental na composição sonora. O ruído mecânico das máquinas, com o seu carácter industrial e repetitivo, cruzava-se com a bateria, o violino, os vocais e as manipulações eletrónicas de Juanma. A cada rotação, as máquinas libertavam folhas e pequenos resíduos, acrescentando ao espetáculo uma dimensão visual caótica. Todos os elementos eram conduzidos por Juan que ia dando sinal para avançarem ou fazia gestos para puxar música mais acelerada ou mais calma e todos acompanhavam.Tentem imaginar uma espécie de Marc Rebillet mas em que as letras e os temas musicais giram em torno da gastronomia tradicional portuguesa, arraiais e monte.E o público não se limitou a assistir. Um dos pormenores mais deliciosos era que as próprias máquinas dependiam da participação de quem estava a assistir, pois o público alimentava as araras, contribuindo para o funcionamento da máquina/instrumento.
Se houve um momento que sintetizou verdadeiramente o espírito d’Os Concertos Que Nunca Existiram, foi este. Não apenas pela originalidade da proposta, mas sobretudo pela forma como conseguiu reunir tantos artistas e participantes ligados à região, transformando elementos da vida quotidiana de Alpendorada em matéria-prima para uma experiência artística coletiva. As araras, os instrumentos, as vozes, a dança e o público tornaram-se parte de um mesmo organismo.
A partir daqui, o público só queria mais pedalada, e coube aos Travo manter a intensidade em alta. O quarteto bracarense trouxe o seu rock psicadélico pesado, marcado por riffs carregados de fuzz, ritmos hipnóticos e muita energia, para apresentar Wasteland, o seu trabalho mais recente. Entre explosões sonoras e momentos de tensão crescente, a banda cruzou o psicadelismo com sonoridades mais próximas do metal, sem perder o lado experimental. Foi uma excelente banda sonora para prolongar a euforia deixada pela atuação anterior: guitarras abrasivas e muito peso.O dia foi fechado por Akazie com um belo set para gastarmos as últimas pilhas que havia nas pernas na pista de dança.
Mãe, eu não quero ir para casa!
Acordei na manhã seguinte com a sensação de já ter vivido um fim de semana verdadeiramente especial. O céu estava limpo e o calor continuava a fazer-se sentir, reunindo as condições ideais para um piquenique na praia fluvial de Bitetos antes de enfrentarmos o momento mais triste do festival: a despedida.
A programação do último dia prosseguia na sede do Rústico, um espaço muito acolhedor, com um belo jardim equipado com toalhas e almofadas espalhadas à sombra, onde era possível descansar e ouvir os vários sets da Rádio Jardim. O ambiente convidava a ficar, a conversar e a prolongar um pouco mais aquele fim de semana que ninguém parecia ter grande vontade de terminar.

A determinada altura, a música foi interrompida para um breve discurso de agradecimento da associação a todos os participantes e à equipa que tornou o festival possível. O microfone ficou também à disposição de quem quisesse dizer algumas palavras ou apresentar o que lhe bem interessasse. Mas ainda havia uma última surpresa – a apresentação do lanche comunitário.
Confesso que, quando ouvi falar num lanche comunitário, não imaginava que isso significasse juntar tantas senhoras de Alpendorada para encher uma mesa com uma quantidade de comida que o meu cérebro mal conseguia processar. Cada prato tinha sido trazido por uma pessoa diferente, numa demonstração de generosidade e espírito comunitário que dizia muito sobre a identidade deste festival. Não conseguirei enumerar tudo o que estava à disposição, mas tenho de destacar as bifanas, as moelas, o bolo de carne, a bola vegetariana, o bolo de cenoura e os rojões. Estava tudo delicioso!
Um enorme obrigado a todas as senhoras que contribuíram para aquele banquete. A vossa generosidade foi a melhor forma de terminar um festival que, desde o primeiro dia, se distinguiu pela hospitalidade e pela vontade de partilhar. Podem fazer mais!
Como é que vou continuar a viver depois disto?
É difícil imaginar um festival do qual saímos mais descansados do que quando chegámos. Mas foi precisamente isso que os Concertos Que Nunca Existiram me proporcionou: um festival para abrandar o ritmo, desligar da rotina e recarregar as pilhas, que andam cada vez mais em modo de poupança graças às exigências da vida quotidiana.
A organização foi incansável no esforço de tornar a experiência o mais agradável possível para todos os participantes, pelo que me resta agradecer a todos os envolvidos. No último dia, já era visível o cansaço nos rostos de quem nos servia copos de vinho e cerveja, mas nem isso foi suficiente para lhes roubar a boa disposição e a simpatia. Muitos dos membros do Rústico estiveram também envolvidos na apresentação da sua própria arte e trocavam piadas com quem estava atrás do bar, entre elas: “Para o ano trocamos de lugar, os artistas vão para a produção”. E seria bem merecido! Porque nenhum daqueles cenários surgiu por acaso. Houve geradores para transportar de um lado para o outro, decorações para montar, espaços para transformar e, certamente, muitas dores de costas pelo caminho. A atenção ao detalhe e o cuidado em tornar cada lugar especial eram evidentes, e foi esse trabalho, muitas vezes invisível para quem apenas chega para assistir aos concertos, que ajudou a tornar o festival tão memorável.
A programação foi excelente e os momentos gastronómicos deixaram a sua marca. Confesso que, a partir de agora, quando pensar num próximo festival, vou ter dificuldade em não usar os Concertos Que Nunca Existiram como termo de comparação.
Saio de Alpendorada com a sensação de ter vivido algo genuíno, um festival onde a cultura, a comunidade e a hospitalidade se encontram de uma forma cada vez mais rara. Afinal, num mundo que parece exigir que estejamos sempre em movimento, encontrar um lugar que nos ensina a abrandar é, por si só, uma verdadeira conquista.

