O lugar de Dora Morelenbaum é o nosso

Pode um concerto levar o Rio de Janeiro desaguar à beira do Tejo? Essa foi a questão que ficou do concerto da cantora e compositora brasileira Dora Morelenbaum, que passou pela Casa Capitão, em Lisboa, no passado dia 28, para aquele que foi o penúltimo concerto em banda da sua tour europeia.

Para Morelenbaum e a sua banda, este concerto foi um regresso à capital portuguesa, por onde já passou várias vezes. Como a própria tão bem lembrou, apresentou Pique (2024), o seu álbum de estreia a solo, no Musicbox poucas semanas após o seu lançamento. Em agosto de 2025, voltou a Portugal para um espetáculo à beira de outro rio, o Taboão, dentro das festividades do festival Vodafone Paredes de Coura. Antes disso, já tinha também tocado na BOTA, no festival MIL e, claro, visitado Lisboa lado a lado com a banda que a revelou ao mundo: os Bala Desejo.

Este concerto na Casa Capitão serviu para Dora nos levar de volta à sonoridade de Pique: um pop aliado ao funk e ao jazz fluido e sensual que encaixa perfeitamente na nova onda da música brasileira – uma grande tenda que junta nomes como Zé Ibarra (que tocou com Dora em Bala Desejo), Ana Frango Elétrico (que produziu Pique e colaborou com Dora noutros projetos), Tom Veloso, ou mesmo Sophia Chablau (já lá iremos).

Tal como o disco, o concerto abriu com “Não Vou Te Esquecer”, uma canção suave que flui ao sabor da voz de Morelenbaum e que funciona como uma entrada para a refeição musical que irá continuar a ser servida. No mesmo sentido, “A Melhor Saída” mantém um ritmo calmo e uma letra sobre um fim de relação que despedaçou o coração do sujeito poético, um fim de amor que se percebe depois como falso.

Fotografia: Matilde Rodrigues
Fotografia: Matilde Rodrigues

As estórias de Pique contam vários amores de várias formas. Em “VW Blue”, o lado mais jazz entra em cena num instrumental imparável escrito por Dora a pensar no seu carro. Já em “Petricor”, a percussão parece a chuva cujo cheiro – o dito petricor – se mistura com o da companheira romântica da letra.

Como a própria reconheceu no concerto, Dora pediu ajuda a uma série de companheiros para ajudar a escrever as letras e as canções do disco. Ainda assim, incorporou-as na sua voz e na sua presença de palco de forma magistral, para além de tocar guitarra e teclado. Com ela, tocou ainda uma banda irrepreensível: Guilherme Lírio (guitarra e direção musical), Pedro Dantas (baixo) e Daniel Conceição (bateria).

Em “Essa Confusão”, a banda trouxe ao de cima um pontilhado de teclados, baixo e guitarra que acompanharam a voz sensual e incrivelmente aguda de Dora. E porque nem só de Pique se faz um concerto de Dora Morelenbaum, as canções “Japão”, um single de 2022 em tributo ao compositor japonês Ryuichi Sakamoto; “Onda”, uma cover do ícone Cassiano; e “Dó a Dó”, single de 2020 da cantora carioca. Mas o nome que se repetiu duas vezes em palco foi o da cantora-compositora Sophia Chablau, que se tem destacado em Sophia Chablau e uma Enorme Perda de Tempo e no projeto com Felipe Vaqueiro, vocalista de Tangolo Mangos, que em 2025 editou o seu álbum de estreia: Handycam.

Foram duas as músicas escritas por Sophia e apresentadas por Morelenbaum na Casa Capitão, incluindo “Jogados no Chão”, uma canção assumidamente política para fugir às “11 canções de amor” de Pique e não esquecer, com a própria colocou, as “cenas de horror” que cada vez são mais no mundo e que a paz é cada vez mais “uma ilusão” num mundo em guerra. 

Mais à frente, a banda tocou uma cover surpresa de “Delícia/Luxúria” – canção do primeiro disco de Sophia Chablau e uma Enorme Perda de Tempo – que embalou tudo na fase em que o concerto estava a entrar na sua fase final.

No fim, os hits “Venha Comigo” e “Caco” deram-nos mais duas histórias sobre querer estar bem e com a pessoa que mais amamos, seja em sofrimento, seja a escapar para o Ceará. Em “Caco”, o refrão em crescendo da “sola do sapato a descolar” pareceu brincar como se se tratasse do descolar de um foguetão para o espaço.

Fotografia: Matilde Rodrigues
Fotografia: Matilde Rodrigues

No fim, o reprise. Se “Não Vou te Esquecer” é a primeira parte, “Nem te procurar” é para dançar e cantar e gritar, a catarse de um concerto que falou de amor, de tristeza, de desespero, e da beleza de nos sentirmos em casa com alguém que amamos: tema tão bem cantado na música “I Must Be in a Good Place Now” num dueto entre Morelenbaum e Guilherme Lírio.

Para quem foi a este concerto, esse “good place“ foi o rés-do-chão da Casa Capitão. Durante essas duas horas, Dora Morelenbaum e a sua banda deixaram um bocadinho de Rio de Janeiro na capital portuguesa e fizeram – tal como a própria escreveu em “Japão” – do nosso lugar o lugar deles.

Em O Principezinho, Antoine de Saint Exupéry escreve que quem passa por nós deixa “um pouco de si” e leva “um pouco de nós”. Por cá, esperamos que Dora Morelenbaum e a sua banda voltem rápido para deixar mais. E cá estaremos para nos deixarmos levar. Uma e outra vez.

Nasceu e cresceu no Seixal, onde lhe passaram-lhe a Clint Eastwood dos Gorillaz por bluetooth e a sua vida nunca mais foi a mesma. Jornalista de profissão, passou pelas redações do Público e do Observador, onde experimentou escrever sobre música, que adora ouvir e ver ser tocada
Artigos criados 2

Artigos relacionados

Digite acima o seu termo de pesquisa e prima Enter para pesquisar. Prima ESC para cancelar.

Voltar ao topo