Numa sexta-feira e em horário pós-laboral, os Colegas de Trabalho de Éme reuniram-se na Galeria Zé dos Bois (em Lisboa) para um concerto que ficou na mente de todos os que lá estavam. Colegas de Trabalho é também o nome do novo e sexto disco do cantor lisboeta, novamente lançado com o selo da Cafetra Records e que é, ao mesmo tempo, uma evolução e uma síntese dos últimos trabalhos que o envolveram.
Naquela noite, a festa no Aquário do espaço do Bairro Alto começou com a banda Felizes para Sempre, que inclui membros do coletivo GRAVV., nomeadamente Diogo (c-mm e Parque dos Lírios), Jarda e Carol (Crol), esta última também baixista dos amigos que acompanharam o “cabeça de cartaz” da noite. O trio apresentou um pop desconcertante num espetáculo que se destacou pelo seu formato constantemente rotativo e multi-instrumental: guitarra, piano, bateria e baixo foram sendo tocados ao longo do concerto, com Carol a fixar-se, a certo ponto, no seu baixo.
Seguiu-se a dupla Sallim e Orca, que, ao contrário dos primeiros, não são estreantes. Depois de uma performance a abrir a última edição da Noite Fetra, Francisca Salema e Leonor Cabrita voltaram a entregar uma comunhão de vozes e instrumentos que levou o espectador a um outro local, acima do Bairro Alto e das nuvens no céu da baixa lisboeta. Durante aqueles momentos, nada mais interessava senão os coros das duas vozes a harmonizarem juntas canções de uma, da outra ou deixando um gostinho de canções a quatro mãos. No fim, as duas juntaram-se para cantar “Novo início”, faixa que fecha o EP a dor, o diagnóstico e o desejo (2023), de Sallim.

Findos os concertos de abertura, tinha chegado o grande momento da noite. Após uma pausa natural, entra no palco da ZDB Éme e a sua banda: Moxila, a sempre presente voz única; Francisca Aires Mateus, que se tinha juntado ao grupo como violinista durante os concertos de Disco Tinto (2024); Carol, baixista em segundo turno; e Kelzo, o técnico de som que assume o papel de baterista do quinteto.
Para Éme, este formato de banda não é novidade. Na mais recente Noite Fetra, em outubro de 2025, o “contador de histórias” tinha já surgido acompanhado destes camaradas. Contudo, nessa altura, ainda não havia Colegas de Trabalho. Nesta noite na Zé dos Bois, o público deu um sinal claro de que estavam lá para ver a banda completa a tocar as canções do novo disco e, claro, alguns dos “êxitos” do passado.
Colegas de Trabalho traz-nos um Éme em síntese. E com síntese, não se está a falar de uma forma reduzida ou inferior. Pelo contrário. A versão que o cantor apresenta tem muito do que ouvimos no passado (particularmente, o dos últimos anos), combinado como químicos numa placa de Petri.
De um lado, o modo Éme e Moxila (2022), com a flauta transversal sempre presente e o tom folk acústico, assinado a dois nomes e a duas vozes. Do outro, o Éme em modo Disco Tinto (2024), uma ode folk com tons e aroma a punk, à vivência na cidade de Lisboa e à morte dos bares, cafés, pastelarias e tascos que foram desaparecendo da capital na última década. Todos esses Émes cabem dentro das canções deste Colegas de Trabalho. Mas, ao contrário do que acontecia no passado, a guitarra acústica perdeu a hegemonia e a versão elétrica acompanhada da bateria deu um cheirinho do que pode ser um “Éme-rock”. Canções como “Pendente” levaram o público a saltar numa sonoridade mais dançável do que estamos habituados mas que encaixa que nem uma luva no resto da discografia.

Mesmo com os novos ramos da sua árvore musical, há algo que não muda: Éme é um cantor-cronista, um storyteller por excelência. No seu estilo tradicional, o cantor é um narrador que transita da experiência na primeira pessoa para a terceira ou para histórias que “a amiga Joana” lhe contou, como em “42”.
E na saída ao Bairro com músicos amigos, com a banda e com o público, os Colegas de Trabalho preencheram os corações daqueles que decidiram fazer da sua noite uma boate cheia de amizade. Um dos momentos altos da noite foi com “La Feria”, banger com sabor a pop e em que praticamente toda a gente cantou o refrão, que expressa esse sentimento tão universal: “Tenho imenso medo de ficar assim / Alegre para todos e triste para mim”. Apesar de tudo o que nos rodeia, garantimos que triste ninguém ficou.
Os gritos que assim o demonstraram foram tantos que o vocalista ironizou: “Tava a gozar, isto não é rock”. Pois não. É Éme.

