Escrever sobre um concerto de Sunn O))) é um exercício ingrato. Qualquer descrição corre o risco de soar pretensiosa ou excessivamente entusiasmada. Quem esteve em Serralves no dia 10 de Julho provavelmente já sabe do que falo. Quem não esteve dificilmente vai acreditar quando eu disser, pela décima vez, que foi um dos concertos mais memoráveis que já vi. E, por muito redundante que pareça, não encontro outra forma de o dizer.
Os Sunn O))) são formados por Greg Anderson e Stephen O’Malley, duas figuras incontornáveis do metal e da música experimental, seja na forma deste mesmo projeto ou de diversas outras bandas e projetos musicais. Este ano, O’Malley tornou-se um nome particularmente presente em Portugal graças à colaboração com a Fundação de Serralves, um ciclo que inclui várias performances em parceria com diferentes músicos. Ainda à parte disso, atuou a solo no gnration, num concerto cheio. Em 2026 vi o Stephen O’Malley à minha frente cinco vezes. Cinco! Exatamente cinco vezes mais do que em todos os outros anos.
Naturalmente, as primeiras vezes que o fui ver eram motivadas por uma única referência: Sunn O))). Era praticamente a única faceta do seu trabalho que conhecia e esperava sempre encontrar algo que me remetesse para a banda. No entanto, a cada concerto, fui descobrindo um artista muito mais vasto, despertando ainda mais curiosidade pela sua obra. Por exemplo, o Stephen O’Malley, além de gostar muito de black metal, doom e sludge, também já colaborou com diversos artistas de ambient num registo totalmente diferente. E sabiam que ele é casado com a Kali Malone? Porque é que ninguém está a falar disto?
Vejamos o concerto que compôs para o Serralves em festa, que contou com cerca de uma dezena de músicos, dispersos por um jardim, às 5h45 da manhã, a tocar uma espécie de cornetas gigantes. Já no gnration, O’Malley surgiu num registo mais próximo (imaginava eu) de Sunn O))), a tocar sozinho em palco, acompanhado pela sua guitarra e uma muralha de amplificadores (concerto excelente). A imagem que me ficou desse concerto, no entanto, foi de um metaleiro caseirinho, sossegadinho, que gosta de explorar tecnologia de guitarras. A minha expectativa para o concerto de Sunn O))) era de algo semelhante, mas desta vez com o seu camarada. Para minha surpresa não era nada disto que me esperava e, de uma forma muito única, depois de várias atuações marcadas por uma solenidade quase própria de uma sala de concertos clássica, foi o concerto mais divertido que vi de Stephen O’Malley até hoje.


Greg Anderson e Stephen O’Malley, envolvidos nas suas longas túnicas, tinham uma presença absolutamente magnetizante. Vieram apresentar o último disco homónimo de Sunn O))) e durante cerca de uma hora e meia, fizeram com que cada nota parecesse fazer parte de um ritual satânico. As poses, os movimentos lentos e a forma como faziam vibrar cada corda davam realmente a sensação de que estavam a lançar um feitiço, enquanto o público permanecia completamente absorvido.
E, de facto, era impossível escapar. Cada vibração engolia por completo quem estava à frente do palco. E não digo isto num sentido figurativo como geralmente mencionam em concertos muito atmosféricos. Toda a junção de circunstâncias, sons ensurdecedores, cenários, roupas, etc transportavam-nos para uma dimensão paralela!
O cenário natural de Serralves parecia uma floresta amaldiçoada saída de um filme de fantasia negra e a atmosfera era ainda reforçada por uma máquina de fumo que garantia que o palco nunca surgia totalmente visível. Até o próprio ruído da máquina passou a integrar o espetáculo, confundindo-se com o resto da massa sonora. Soava quase como gêiseres a libertar vapor diretamente das profundezas do inferno.
Estava então num concerto completamente ensurdecedor de druidas no meio da floresta a abrir um portal para o inferno através de guitarras e amplificadores. Como é que se “ouve” um concerto destes? Durante uma hora e meia praticamente não existem refrões, ritmos marcados ou melodias que sirvam de ponto de referência. São guitarras lentíssimas, drones intermináveis e um volume físico. Quando assisto a concertos deste género, costumo concentrar-me nos instrumentos e tentar perceber o que os músicos estão a construir. É uma forma de evitar que a mente divague, algo que acontece com facilidade quando a música nos deixa tanto espaço para pensar. No entanto desta vez foi diferente, era impossível distrair-me. As ondas sonoras pareciam esmagar o corpo inteiro; por vezes dava por mim a abanar-me, não por estar a dançar, mas porque era essa a resposta mais natural ao impacto físico do som. Os ouvidos ficavam totalmente submersos naquela parede de frequências graves e a mente acabava por seguir o mesmo caminho, conduzida para imagens cada vez mais sombrias.



Sunn O))) é a personificação da música maléfica. Não por recorrer a velocidade, agressividade ou violência sonora, mas precisamente pelo contrário. A lentidão, o peso e a repetição criam uma sensação profundamente inquietante e ritualística, que parece convocar tudo o que existe de mais obscuro na imaginação humana de uma forma extremamente visual.
Greg e Stephen moviam-se com uma energia contagiante e estavam completamente entregues às suas personagens. Tinham-se transformado por completo em druidas do doom, e foi essa dedicação que tornou o concerto tão divertido.
Mesmo para quem não tem qualquer ligação ao metal ou à música experimental, a experiência vale pela dimensão física e sensorial. Sentir o corpo inteiro vibrar por causa de apenas duas guitarras é algo difícil de explicar e ainda mais difícil de encontrar noutro concerto. Não se esqueçam é de levar tampões!

