Quem são os Neurosis que regressaram após um hiato de dez anos, em que Scott Kelly, um dos membros fundadores da banda, saiu devido a acusações de violência doméstica e Aaron Turner, dos Isis, entrou para o seu lugar?
Se Souls At Zero (1992) foi um disco determinante no desenvolvimento da banda e na arquitectura sonora do pós-metal, cujas variações atmosféricas residem em Burzum, sem o devido crédito dado o historial violento e fascista de Varg Vikernes, e mesmo exercendo influência em Isis, nem por isso representou o teste às fronteiras da música que a banda ambicionava.
Não obstante a inspiração dos Crass, citados por Steve Von Till ao Guardian em 2016 como uma das principais influências por não se esgotarem na mera raiva e sim alimentando-se dela para a demolição da opressão e dos seus mastins, o experimentalismo chegaria mais tarde a partir de Through Silver in Blood (1996). A partir dessa altura, o crust como fonte estética secundarizou-se e os Neurosis pagaram o preço da decisão ao encontrarem-se excluídos do panteão dos mais puristas do punk e do metal, ambos géneros conservadores, por serem demasiado abrangentes para ambos numa altura em que os limites eram relativamente estanques.
Nem por isso, em 2026, os Neurosis de An Undying Love for a Burning World deixam de se encostar à parede de som dos Discharge de Hear Nothing See Nothing Say Nothing (1982) como se estivéssemos no 1982 de Margaret Thatcher e não no 1984 de George Orwell. E mesmo com outra intensidade e velocidade, essa circularidade harmónica, simultaneamente hipnótica e destrutiva, permanece cúmplice das melodias dos Subhumans, da excentricidade dos Rudimentary Peni, da densidade dos Black Sabbath, do psicadelismo dos Pink Floyd e da intensidade dos Swans. Nessa amálgama, agora com a inegável assinatura de Turner, o improviso, geralmente associado a outras sonoridades mais eruditas, ganhou cada vez mais espaço no mundo dos Neurosis.
É precisamente nesse espaço sónico, geográfico e pessoal, rasgado pela banda num mundo com cada vez menos amplitude, que os Neurosis têm progredido, afirmando-se como mais do que apenas uma banda ao veicularem uma filosofia no sentido contrário ao da tendência dominante da mercantilização totalizante e rejeitarem colocar a música ao serviço do fetichismo da mercadoria. A conduta da banda tem sido a de exercer controlo absoluto sobre todas as áreas da sua vida, optando por dar poucos concertos muito intensos e rejeitar o modelo disco/digressão/disco. Para evitar a circunscrição do acto criativo à previsibilidade da regurgitação mecânica e consumível dos concertos, os Neurosis têm optado, em vez de compor música no sentido tradicional do termo, pelo imprevisto sonoro como experiência holística, envolvendo corpo e mente sem cair no lugar comum das texturas new age, aqui convertidas em intensidade carnal e rendição emocional.
Apresentada desta forma, a ideia de espiritualidade – palavra usada pela própria banda – que anima a sua música pode facilmente ser confundida com uma festa ecstatic dance, uma cerimónia ayahuasca ou até com a corporativização mindfulness para melhor adequação do explorado à situação de servidão E, provavelmente por isso, a própria banda tem sido vaga e ambígua na definição. Porém, a definição espiritual dos Neurosis tem-se marcado pela oposição ao mercado global e a qualquer ideia de religião, advogando um primitivismo a funcionar como autenticidade estética no modo como o som envolve o ouvinte mas também como forma de vida, ambas equivalentes a Thoreau na procura deliberada da vida no bosque, onde Steve Von Till vive há vários anos isolado em Idaho com um estúdio no celeiro.
É menos no seu discurso do que na própria música e nas atitudes que a banda rejeita os clichés inócuos da espiritualidade moderna e comodificada, mesmo sendo óbvias as influências da psicologia do inconsciente colectivo de Jung aliadas a uma certa ideia de xamanismo a que Jim Morrison não seria estranho. Juntam-se influências pagãs tanto celtas como nórdicas que tendem a influenciar mais a extrema-direita do que as tendências libertárias, onde se encontram elementos como lobos, corvos, árvores, pedras e espirais, geralmente arquétipos de morte e renascimento. Também o fogo surge, não enquanto símbolo do inferno cristão mas como purificação e transformação da matéria em espírito, aplicado frequentemente na forma de paisagens queimadas ou explosões. Já a ligação ao budismo está presente no universo da banda pelo menos desde o disco com Jarboe (Neurosis & Jarboe, de 2003), assente em temas que se tornaram quase permanentes para os Neurosis, como a transcendência, o sofrimento e a dissolução do ego, num eco da Primeira Nobre Verdade do budismo, ou Dukkha: a da existência humana ser inerentemente marcada por insatisfação, dor, velhice, doença e morte, tédio, desilusão, e a compreensão de que nada neste mundo é permanente ou totalmente satisfatório.
Enquanto bandas de hardcore cristão da editora Tooth & Nail como os Zao ou os Bible Toons (em Portugal, de Tiago Guillul) se formavam para espalhar a palavra de Deus, e bandas de krishnacore como os 108 ou Shelter chamaram a si a representação da divindade azul, os Neurosis não proclamam causas nem sofrem de qualquer síndrome Rousseau ao acreditar numa humanidade cuja pureza foi corrompida pela sociedade. Menos ainda defendem a espiritualidade como salvação. O único exercício que propõem, em particular neste An Undying Love for a Burning World, é a utilização de ondas sónicas de purificação como abertura de um canal para o desconhecido através da música pesada e primal como reflexo emocional, abstracto, livre de dogmas, símbolos ou mensagens concretas, negando a própria noção de tempo na economia da atenção individual dele dependente.

