Devia ser a nossa forma de viver: 40 anos de Dar & Receber

Aniversários têm sempre um aftertaste agridoce, principalmente quando juntam celebração e saudade. Em jeito redondinho, quarenta é o número mágico que confere ao evento um je ne sais quoi extra grave; como o meu pai costuma dizer, uma pessoa entra nos “entas” e já não sai a menos que chegue aos cem. Para o António, que partiu cerca de seis meses antes dessa meta, 1984 foi simultaneamente annus mirabilis e annus horribilis, marcado por uma consagração pública que o corpo não conseguiu acompanhar.

Dar & Receber, o segundo e último álbum de António Variações, pode ser visto como a metade nocturna duma dualidade musical que, dois anos antes, tinha presenteado o mundo com um ovni-maravilha chamado Anjo da Guarda. Claro que para esta percepção muito contribuiu não só o teor melódico e poético das canções escolhidas, mas também (senão especialmente) a produção com que cada registo foi vestido: enquanto que os GNR serviram de fiel acompanhantes na estreia, a roupagem do disco seguinte esteve a cargo dos Heróis do Mar. Até na dedicatória esta dinâmica de binómios se notou, encapsulando de forma sumária todo o ethos duma portugalidade que tanta tinta fez, faz, e fará correr ao justapor a devoção popular por Amália e o misticismo literário de Pessoa. O António era, afinal, produto orgânico-sintetizado dessa saudade intemporal que se actualiza a cada maré.

É por estas e por outras que se torna impossível definir qual é a obra-prima suprema e inquestionável ao olharmos para o legado musical (infelizmente diminuto) que nos deixou o António. De certa forma, Dar & Receber nunca poderia ter existido sem Anjo da Guarda, nem Anjo da Guarda atingiria resolução emocional efectiva sem Dar & Receber. Anjo da Guarda evade enquanto Dar & Receber reflecte, concretizando algumas promessas e lamentando todas aquelas que ficariam eternamente por cumprir.

Claro que ambos os álbuns possuem hinos ao tempus fugit, até porque este tipo de preocupação raramente chega só e apenas com a epifania de finitude iminente: a urgência de “É P’ra Amanhã…” soa a prelúdio de “Canção do Engate”, assim como a segunda pessoa contemplativa de “Sempre Ausente” se torna rapidamente no sujeito de “Perdi a Memória”, este último firmemente investido em pôr a casa em ordem antes que venham fazê-lo por ele. Paralelismos semelhantes ocorrem com a mitologia fantástica de “Visões-ficções (Nostradamus)” e “Canção” (talvez a minha faixa preferida de Dar & Receber, muito devido às teclas de Carlos Maria Trindade), a impermanência sagitariana de “Estou Além” e “Olhei Para Trás”, ou ainda a homenagem sentimental de “Voz-Amália-de-nós” e “Deolinda de Jesus”, respectivamente fechando cada disco ao mesmo tempo que constituem as únicas vezes em que uma figura feminina adquire proeminência na lírica do António.

Dar & Receber saiu em fevereiro após um parto relativamente difícil devido a um estado de saúde já bastante debilitado. Por esse mesmo motivo, pouca promoção se fez: além de duas ou três actuações espaçadas, houve apenas oportunidade para fechar um ciclo iniciado no cabeleireiro do Imaviz cerca de três anos antes, quando Júlio Isidro recebeu a cassete que levou ao fadado lançamento no seu Passeio dos Alegres. Na sua derradeira aparição televisiva, António levava vestido o mesmo pijama de ursinhos que tinha envergado na muito antecipada estreia, mas a energia era outra: desculpando-se por estar “adoentado,” preferiu não trazer nenhuma das novas faixas e cantou (em playback) “É P’ra Amanhã…” do primeiro álbum. Com o rápido desenrolar de acontecimentos que se seguiu, esta escolha tornar-se-ia tristemente profética.

Quarenta anos depois, Dar & Receber permanece extraordinariamente actual—como todo o legado do António, aliás. Não é só a proto-fusão involuntária de tradição de modernidade que se tornou numa espécie de género por excelência da pop portuguesa, nem apenas a sensibilidade estética e performativa de quem agia por instinto, de forma humilde e genuína, desarmando públicos dos 7 aos 70 com um sorriso aberto e um refrão orelhudo. É também a capacidade de falar por todo um povo, de encarnar uma espécie de fado colectivo tão omnipresente quanto indefinível, e de fazê-lo com a mesma energia cósmica do cometa que ilumina e explode numa questão de segundos. O António deu-se sem reservas, e só nos resta agora devolver na mesma moeda, dançando e cantando Variações com o êxtase e abandono duma pista do Trumps vazia à hora de fecho na última noite na terra.

tripeira de nascimento, parisiense por adopção. já escarafunchou muita arte, pisou muito palco, escreveu para muito sítio, e deitou muita carta. doutora em quebrar corações (e não só) e eterna electroclasher.
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