O Que Podemos Aprender com o Futebol Total

Uma das minhas primeiras recordações vívidas data do ano de 2006. Trata-se de uma agenda vermelha que decidi utilizar para tirar apontamentos sobre os jogos do Mundial de Futebol desse ano. Lembro-me muito bem de apontar o nome do Pauleta quando marcou o primeiro golo de Portugal na competição, contra Angola, após uma bela arrancada do Luís Figo. Ficou-me na memória. Foi no verão de 2006 que ganhei consciência da minha existência.

De certa maneira, o futebol sempre fez parte da minha vida. O meu pai foi futebolista durante grande parte da sua vida e, desde que me lembro, o meu vibrar pelo desporto-rei sempre esteve presente. Não me lembro do Euro 2004 nem da vitória do “meu” Futebol Clube do Porto na Taça UEFA (2003) ou na Liga dos Campeões (2004), mas lembro-me de querer escolher o FCP quando joguei pela primeira vez Pro Evolution Soccer. Também devia correr o ano de 2006.

Numa era onde o slop nostálgico reina, é preciso ter cuidado quando se fala de futebol. Muitos dizem que o futebol de há 20 anos era melhor que o de agora. Que o futebol de agora está contaminado. Isso é verdade, mas não era propriamente menos verdade há 20 anos. O que aconteceu nestas duas décadas, porém, deu continuidade ao processo de comodificação do “ópio das massas”. A história dos clubes e das ligas deixou de existir, substituída pela mesma narrativa do pós-verdade que passou a reinar o discurso público. Os clubes deixaram de pertencer aos sócios/adeptos (será que alguma vez pertenceram?). Os jogadores tornaram-se mercadoria pronta a ser trocada. A crescente americanização e capitalização do desporto tudo piorou. Fundos de investimento no futebol? A sua presença só afunda mais os pregos no caixão do “joga bonito”, cada vez mais dominado pelas incestuosas e negligentes SADs e pelo valor simulado de um jogador face ao seu rendimento. Um espelho do mundo, portanto, onde as apostas e a mão invisível do mercado especulativo manipulam a realidade à mercê da classe trabalhadora (queers, degenerados, imigrantes, pessoas negras), sempre a primeira a ser impactada pelas brincadeiras de multimilionários ego maníacos – futebolistas incluídos.

A decorrer neste momento nos EUA, México e Canadá, o Mundial de Futebol de 2026 possui os contornos de tudo aquilo que está errado com o futebol hoje. Como escreveu Luís Cristóvão na Shifter, a organização da mais recente edição da competição encontra-se marcada “por um Presidente que se sente todo-poderoso, uma estrutura que se faz subserviente para animar o seu lucro, e arrebatando com outros estados de duvidosa promoção dos direitos humanos”. O caminho traçado pelos Mundiais na Rússia (2018) e Qatar (2022) prossegue, em particular, nos Estados Unidos, um país onde decorre grande parte dos jogos da edição deste ano. E como qualquer império em decadência, os abutres americanos tentam extrair o que ainda resta de sentimental no desporto-rei. Afinal, o futebol será um dos últimos redutos de uma monocultura que já não existe.

As invenções da FIFA, organismo máximo do futebol, para tentar aumentar ainda mais o seu lucro, transformaram o Mundial de 2026 num verdadeiro vendaval de exploração. É a maior e mais cara edição de sempre. Mais seleções, mais jogos, mais anúncios, mais capital a circular. Os bilhetes são caríssimos, na casa dos milhares, inalcançáveis pelo comum dos mortais. As transmissões estão cada vez mais escondidas atrás de subscrições enfadonhas e dispendiosas, e a análise do jogo convertida em sociedade de espetáculo é depois espelhada na política, na sociedade e no mundo. O caso de Portugal é imperativo neste aspeto; basta lembrar onde, ainda antes de debitar umas coisas xenófobas, o líder do CHEGA começou a traçar o seu destino – como comentador do Benfica. Está tudo ligado.

Porém, escondidas nas entrelinhas de vinte-e-dois-idiotas a correrem atrás de uma bola, ainda existem histórias a ser contadas. Quando a França joga contra o Senegal ou contra a Argélia, é impossível ignorar as histórias das atrocidades cometidas pela primeira nestes dois países durante o seu período de domínio colonial. O mesmo pode ser dito sobre Portugal e Angola, Portugal e Moçambique, Portugal e Cabo Verde. Podemos falar das tensões entre os velhos países que outrora constituíram a Jugoslávia, ou do porquê de existirem tantos argentinos e paraguaios com apelidos alemães. O futebol ao serviço da educação. Raramente assim o é.

Quando comecei a ler sobre futebol na minha adolescência, este serviu de porta de entrada para outras temáticas que mais tarde se revelariam influentes. Ler sobre o presente e passado do desporto apresentou-me a figuras como Che Guevara (através do Thierry Henry), Fidel Castro (através de Diego Maradona), Antonio Gramsci (através de Sócrates) ou Ken Loach (através do maravilhoso À Procura de Eric). Também tenho a certeza que foi a partir do futebol que entendi pela primeira vez o que era um sindicato. Apesar de tudo o que está de errado com o futebol, existe na bola a rolar um potencial educativo pouco explorado pelos movimentos progressistas. Em 2018, os Parquet Courts entenderam isso. A partir destas ideias, A. Savage (guitarra, voz, teclas), Austin Brown (guitarra, voz e teclas), Max Savage (percussão e voz) e Sean Yeaton (baixo e voz) conceberam aquele que é o seu melhor disco, Wide Awake!, e a melhor faixa da sua discografia: “Total Football”.

Numa entrevista à NME em 2018, A. Savage revelou que o corpo ideológico de Wide Awake! partiu da ideia de jogo do “futebol total” (total football). Popularizada em meados de década de 70 pelo Ajax e pela Laranja Mecânica de Rinus Michels (treinador) e Johan Cruyff (jogador), a ideia do futebol total vem da fluidez possível de se obter dos 11 jogadores em campo. Cada um deverá ser capaz de se movimentar para ocupar a posição de um colega caso este se movimente para outro local do campo, e vice-versa. Portanto, pretende-se manter uma certa estrutura organizada apesar da liberdade existente dentro dessa estrutura. Nesse sentido, a ideia do futebol total revela-se uma anarquia perfeita. Uma utopia assente na cooperação e liberdade, e a resvalar numa linha muito ténue entre confiança, experimentação e controlo. Funciona. Um futuro diferente é possível a partir daí.

Estas são ideias que os Parquet Courts exploram em Wide Awake! O disco não se poupa a rodeios e revela-se um dos manifestos mais mordazes, precisos e emocionantes sobre a nossa existência contemporânea. Os The Clash adorariam ter feito este disco, e Wide Awake! está no mesmo patamar do panteão punk que London Calling (1979). “Violence” reitera como a violência se tornou parte do contrato social por defeito, sem a questionarmos; “Normalisation” revela o quanto a realidade se transformou numa prisão em que somos forçados a aceitar o status quo sem o questionarmos; “Extinction” contempla a ideia da nossa existência como algo tão alienante e da sabotagem como apenas e só a verdade máxima. É tudo culpa nossa, do indivíduo, não da doutrina neoliberal pós-Thatcher e Reagan. Para existir é preciso sabotar algo, alguém, nós mesmos, o planeta.

Se tudo isto parecia sombrio em 2018, talvez fosse porque muitos ainda não tinham sentido na pele o que tantos sentem desde o seu primeiro choro. Minorias exploradas, uma classe trabalhadora fustigada pela austeridade, imigrantes deportados sem razão, genocídios a decorrer em função do capital e da exploração neocolonial: tudo isto já acontecia antes, mas por cima era colocado um véu que permitia a muito boa gente ignorar o assunto. Mas como todo o boomerang, este acaba por regressar ao sítio de onde partiu. Aimé Césaire tinha toda a razão.

Contudo, se a nível temático Wide Awake! resvala para uma existência dormente, a sua música clama por um futuro diferente. Grande parte das canções operam num registo otimista, influenciado por bandas como os Talking Heads, os Television, ou os Death (os meninos afro-americanos do punk de Detroit, não a banda de metal). Mesmo os momentos mais melancólicos, como “Before The Water Gets Too High” (sobre os desastres climáticos que se aproximam) ou “Back to Earth”, ecoam uma tentativa de querer fazer algo de diferente. E as bases desse sentimento surgem, em particular, nas canções que iniciam e encerram o disco: “Total Football” e “Tenderness”.

Em “Tenderness”, A. Savage declara que já perdeu a conta a quantas vezes deixou o niilismo vencer (“Well, I can’t count how many times I’ve been outdone by nihilism”) e que são necessárias práticas que não nos deixem presos nesses sentimentos (“Open up your mouth, pollinate your peers”): o coletivo acima dos números de cada um, a luta como um reflexo de que nu sta djuntu, nu sta forti. O fascismo dos fins dos tempos cavalga, acima de tudo, na apatia alienante que se tornou comum à nossa existência. A experiência humana clivada a partir da hiper customização que a realidade de cada um se tornou a partir dos fragmentos que permitimos ao capitalismo de vigilância consumir. Existe um nós, real, que interage com o mundo, e que tenta fazer sentido daquilo que nos rodeia. E existe uma simulação desse nós, digital, que vive apenas como uma assombração de quem éramos há cinco minutos.

Porém, para chegar às conclusões de “Tenderness”, “Total Football” inicia-nos ao manifesto principal de Wide Awake! Das primeiras guitarradas aguerridas que se escutam explode uma bruta canção impossível de ignorar. O baixo galopa, as guitarras dançam entre um punk influenciado pelo hardcore e pela new wave, e A. Savage grita para nos indicar a direção à necessária coletivização. Nos refrões, clama pelos rebeldes, professores, poetas, defesas, atacantes e bloqueadores. Diz que todos estes estão mais protegidos juntos do que separados. Em sindicatos, associações, coletivos, publicações (como esta), terceiros lugares onde se pode iniciar a desconstrução de toda a propaganda eficaz que nos atinge desde o momento em que somos expelidos para este mundo. Dizem-nos que isto é a única realidade possível e que temos de obedecer. Estão errados.

É por isso que os Parquet Courts terminam “Total Football” com um conjunto de afirmações que refletem não só o princípio tático que dá nome à canção, mas também um conjunto de ideias que nos mostram um futuro (coletivo) possível ao virar da esquina. Coletivismo e autonomia não são mutuamente exclusivos (“Collectivism and autonomy are not mutually exclusive”); trocar de papéis com um camarada, seja de género ou de outra coisa qualquer, é a emancipação a crescer em nós face à expectativa da assimilação normativa (“Swapping parts and roles is not acting, but rather emancipation from expectation”). Todos aqueles que nos tentam derrotar à medida que nos aproximamos da nossa libertação não serão desculpados (“Those who find discomfort in your goals of liberation will be issued no apology”).

O melhor tempo para agir é sempre o próximo, e o próximo é o agora. Temos de reconhecer que ainda nem sequer estamos em tempo de descontos nesta luta, de regressar ao campo com uma nova visão de jogo para que, tal como no futebol total, a revolução parta sempre da ideia de que é infinita e constante. Quando um camarada cai, outro simplesmente ocupa o seu lugar. A estrutura mantém-se. A luta continua e a vitória aproxima-se. Desistir não é opção – não temos nada a perder. Como cantou o GAC outrora: “Nós vamos combater toda a vossa canalha / E vamos entregar a terra a quem trabalha”. E quando isso acontecer, a bola irá bater no fundo das redes e toda a gente irá gritar com esse golo da vitória.

Cucujanense de gema, lisboeta por necessidade. Concluiu um curso de engenharia, mas lá se lembrou que era no jornalismo musical e na comunicação onde estava a sua vocação. Escreveu no Bandcamp Daily, Stereogum, The Guardian, Comunidade Cultura e Arte, Shifter, A Cabine e Público, foi outrora co-criador e autor da rubrica À Escuta, no Espalha-Factos, e atualmente assina textos no Rimas e Batidas e, claro está, na Playback, onde é um dos fundadores e editores.
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Bola, resistência, e Parquet Courts.

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