Se estão familiarizados com as discussões online sobre música, é provável que tenham ouvido falar dos Angine de Poitrine. É muito provável que os algoritmos, sejam o do Youtube, o do TikTok ou o do Instagram, vos tenham colocado à frente clipes da sessão que estes gravaram para a KEXP no festival francês Trans Musicales. No momento em que escrevo este texto, esse vídeo publicado no canal da KEXP tem quase 7 milhões de visualizações (quando este texto for publicado, já tem mais de 10 milhões de visualizações). Para termos noção da escala destes números, os MÁQUINA. também gravaram uma sessão para a KEXP no Trans Musicales, publicada na semana seguinte da sessão dos Angine de Poitrine. Tem “apenas” cerca de 140 mil visualizações na altura da escrita deste artigo.
Não me lembro da última vez que a KEXP teve uma sessão a tornar-se tão viral. Portanto, decidi vê-la. Na generalidade, duvido de algo quando fica assim tão popular do nada. Questiono se pode ser assim tão bom. As pessoas estão a exagerar. Às vezes, o faro engana, e o hype, afinal, é justificado. Neste caso, não enganou. Será que estou a ficar louco? Talvez, mas essa conversa não é para aqui chamada.
Contudo, o facto é o seguinte: a música dos Angine de Poitrine não é particularmente incrível. Nem sei se lhe consigo chamar diferente. O que os distingue são as fatiotas e o combo guitarra/baixo tocado por um dos integrantes do duo formado por Khn de Poitrine (guitarra, baixo, loops, voz) e Klek de Poitrine (bateria, voz). Foi a primeira coisa em que reparei quando o Youtube me recomendou a sessão dos canadianos pela primeira vez e tenho a certeza que essa foi a razão pela qual muita gente clicou na sessão da KEXP. Pensei: estes gajos têm de fazer música super frita para se vestirem assim. Certo? Bem… eles não fazem música frita. Isto é math rock profundamente estéril – não “antra-Rock Dada Pythagorean-Cubist Orchestra”. Super bem tocado, não haja dúvida disso. Quem quer que seja que está debaixo das máscaras é mais do que proficiente naquilo que faz. Mas a música do duo soa como se tudo aquilo que é interessante no math rock e na música microtonal fosse passada por um filtro de Muzak. Mas se calhar a Taylor Swift tinha razão: “It’s me, Hi, I’m the problem”.
Já vi tantos vídeos e reels de pessoas a falarem sobre os Angine de Poitrine como se fossem os “salvadores” do rock ou, pior ainda, da música (olá Rick Beato). Vi e li pessoas a dizerem que isto é música que não podia ser gerada por “inteligência artificial”. Amigos mandaram-me mensagem a dizer que era incrível. Pessoas pelas quais tenho o mais profundo respeito, como o Daniel Dias e o Rui Miguel Abreu, desdobraram-se em elogios ao concerto que o duo deu na mais recente edição do Tremor. No Público, o primeiro descreveu a música dos canadianos como “um rock instrumental verdadeiramente matemático, cheio de ritmos complexos, compassos invulgares, rigor maquinal, técnica apuradíssima, melodias hipnóticas, riffs circulares que giram e giram em torno do seu próprio eixo sem nunca se cansarem”. No Rimas e Batidas, o segundo escreveu que o uso do duo “de uma guitarra e baixo com afinações microtonais e de uma bateria alinhada com a ética motorik do krautrock sobeja-lhes para criarem uma música altamente dinâmica, fortemente propulsiva e francamente original”.
Fazendo de advogado de mim mesmo, é verdade que não estive no Tremor e só terei a oportunidade de ver os Angine de Poitrine ao vivo quando regressarem a Portugal no final de agosto (vão tocar no MEO Kalorama). Portanto, não posso afirmar com toda a certeza que os meus camaradas estão errados sobre aquilo que viram. Todavia, isso não me impede de achar, com base naquilo que vi na sessão ao vivo da KEXP e do que ouvi nos discos do duo, que estão. Isto é o tipo de cena que ocorre quando existe uma tentativa de simular uma monocultura quando ela já não existe. Os Angine de Poitrine não vão tornar-se estrelas à escala mundial de um dia para o outro, mesmo que a sua viralidade num nicho específico assim o faça parecer.
A música dos Angine de Poitrine situa-se, a meu ver, algures entre os Khruangbin e os Glass Beams. Sim, conseguimos escutar ecos de krautrock na sua abordagem rítmica, mas nem isso retira o facto de que as faixas dos canadianos operam mais através de vibes do que outra coisa. Tal como os Khruangbin, existe a exploração de microtonais e de ritmos não tão comuns na música ocidental. E tal como os Glass Beams, as fatiotas e estética sui generis escondem uma abordagem musical ao psicadélico que roça o suficientemente interessante para soar diferenciada, quando, na realidade, não o é. Só aparenta ser. Música bem tocada e fácil de escutar é diferente de boa música.
O que me leva ao novo disco dos Angine de Poitrine. Depois de Vol.1 em 2024, Vol.II apresenta-nos o segundo capítulo desta banda que nasceu no seio da “pequena” cena artística de Saguenay, no Quebec. Em 2023, altura em que Khn e Klek decidiram levar isto dos Angine de Poitrine mais a sério (aparentemente, tocaram pela primeira vez juntos há mais de 20 anos), criaram estas fatiotas como uma piada para conseguirem tocar duas vezes na mesma semana numa venue que só permitia um concerto por banda por semana. Verdade ou não, é uma história engraçada para ter como lore.
Nos melhores momentos de Vol.II, os Angine de Poitrine cativam-me. Nos piores, irritam-me. É um disco, sem dúvida, melhor que Vol.1. No primeiro álbum da banda, há duas certezas. A primeira é que os Angine de Potritine sabem criar grooves e mantê-los. Para bater o pé, é ideal. Nisso, a Pitchfork tem razão quando descreve a banda como música de dança para “festas estranhas”. A segunda é que falta alguma coisa à música dos Angine de Poitrine quando não carregam no pedal de distorção. “Sherpa”, a primeira canção de Vol.1, é onde os Angine de Poitrine se distinguem. É uma malha onde a música alcança a qualidade das fatiotas. “Tamesbz” é outro bom exemplo disso. Começa mais limpa, mas acaba mais intensa. Funciona bem. No resto do disco, além do groove e intensidade, pouco dá para escapar à noção de que estamos a escutar música que funciona melhor como música de fundo para bater o pé do que math rock que nos estimula.
Em Vol.II, encontramos mais momentos que se aproximam da efervescência de “Sherpa” ou “Tamesbz”. “Mata Zyklel” é uma malha que coça a parte do meu cérebro que procura polirritmia javarda e guitarras espicaçadas. “Yor Zarad” também consegue chegar lá, mesmo que seja uma faixa (à semelhança de “Tamesbz”) algo inconsistente. “Fabienk”, um dos singles, tem uma groove bem orelhuda, mas volta a sofrer de um dos grandes incómodos que tenho com a música dos Angine de Poitrine: soa-me tudo demasiado imaculado e “limpinho”. Mesmo quando a distorção surge e as canções aceleram, sinto que falta sujidade para transformar isto naquilo que, para mim, parece ser o objetivo: fazer música de dança freaky, esquisita, entusiasmante. Os MÁQUINA., por exemplo, operam muito melhor nesse quadrante. São “sujos” o suficiente para isso.
Outro problema que tenho com a música dos Angine de Poitrine é não entender onde acaba a “piada” e onde começa a seriedade do projeto. “Utzp” é uma excelente demonstração da existência deste binómio. Raios e coriscos se esta faixa não me lembra “We Are Number One”, a clássica faixa atribuída à personagem de Robbie Reles em Vila Moleza. É em canções como essa ou “Ababa Hotel” (de Vol.1) onde sinto que, por muito que dê para dançar com algumas destas canções, não me fazem sentir nada.
Quando falei há pouco dos Khruangbin e dos Glass Beams, omiti deliberadamente a banda que me parece ser a referência principal dos Angine de Poitrine: os King Gizzard & The Lizard Wizard. Em particular, os álbuns onde os australianos exploram microtonais e polirritmias: Nonagon Infinity (2016), Flying Microtonal Banana (2017), K.G. (2020) e L.W. (2021). É neste exercício de comparação onde a fachada dos Angine de Poitrine começa verdadeiramente a abanar.
Quando os Angine de Poitrine aceleram em canções como “Utzp”, é impossível não escutar o quanto Stu Mckenzie e companhia influenciaram o duo canadiano. A abordagem à guitarra, em particular, é bastante semelhante. Comparar o resultado das explorações microtonais dos australianos com aquilo que escutamos em Vol.II ou Vol.1 é como comparar uma grande dose de bolonhesa com massa cozida sem sal. Além do mais, quando comparamos o trabalho desenvolvido por outros duos de math rock do passado, como por exemplo os Battles, os Lightning Bolt, ou os Hella, é preciso ainda que os Angine de Potritine comam muita sopa para chegarem ao nível dessas bandas.
Ambição, claro, não lhes falta. Em entrevista à Flood Magazine, referiram que a missão da banda é conseguir introduzir “ideias frescas” na música e “estimular o cérebro com elementos surpreendentes enquanto mantêm as coisas simples”. Até dado ponto, esse objetivo é cumprido. Porém, talvez o problema seja o quão “simples” efetivamente soam estas canções complexas. Falta algo e esse algo é impossível de ignorar.
Contudo, talvez o que me incomoda nisto tudo é perceber o quanto as pessoas estão simplesmente à “espera” do algoritmo. Não têm interesse em descobrir mais. Os Angine de Potritine só parecem ser os salvadores de alguma coisa porque a curiosidade morreu – ou se não morreu, está prestes a ser enterrada com o fim da história – e preferimos que sejam as recomendações das redes sociais e plataformas de streaming a dizerem-nos o que devemos ou não ouvir. Se assim não fosse, os Angine de Poitrine não soariam tanto a novidade, mas apenas e só a mais uma banda de math rock que por aí anda. Por acaso, até tocam com umas fatiotas meio engraçadas. Não são salvadores de coisa nenhuma.

