Editorial #67

Na semana passada fui ver Patti Smith. Em boa verdade, tinha-me esquecido que tinha bilhete—comprei-o em abril quando me apareceu um alerta de que ela vinha a Paris, ainda antes de estar listado no site oficial. E ainda bem que o fiz, porque os lugares que não custavam um rim esgotaram em questão de horas.

Enquanto a esperava sentada com mais umas boas centenas de pessoas nas Folies Bergère, apercebi-me de que este era o primeiro concerto dela que ia ver, pelo menos em nome próprio. Apanhei-a sem querer em 2013 no encerramento do Meltdown Festival, com curadoria da Yoko Ono e vários convidados (Patti Smith, Boy George, Lene Lovich, Peaches, Siouxsie) a tocarem o Double Fantasy na íntegra, mas um concerto dela a sério nunca tinha calhado assistir. Esta epifania foi-me um pouco bizarra, mas é certo que apesar da minha relação com Patti Smith já ter uns bons aninhos, aconteceu quase sempre fora do vulgar binómio artista/espectador. Além da influência que o Easter teve na minha carreira como músico tanto em Rope como em Clits, várias vezes usei referências ao seu trabalho em peças minhas quando estava em Belas Artes. E depois havia meia volta convites aleatórios ligados ao universo dela: para tocar na festa da antestreia do Dream of Life no saudoso Santiago Alquimista (uma das minhas poucas aparições a solo), para a encarnar no livro da Margarida Rodrigues sobre a Beat Generation With the Absolute Heart of the Poem of Life. Os mundos finalmente colidiram quando em 2016 tive oportunidade de estar com ela aqui em Paris para que me assinasse a minha cópia de Just Kids.

Sinto que este ciclo finalmente encerrou com o concerto de domingo passado. De certa forma, era como se estivesse a visitar uma velha amiga, não um ídolo por quem tivesse uma adoração doentia ou cuja música soubesse de trás para a frente (o que não é de todo o caso, até porque nunca fui uma fã exemplar) e sim uma espécie de monumento cujo impacto na minha vida é tão omnipresente que por vezes me esqueço ser real. Foi um set escorreito, sem demasiada nostalgia nem a acusar cansaço de qualquer espécie (o que é obra dada a enésima vaga de calor que assola Paris e o facto dela ter não só tocado no dia anterior como feito uma sessão de autógrafos nessa mesma tarde). A alma, pois claro, está toda lá; mas o mundo que a acolhe e às suas palavras virou de tal forma que uma actuação destas quase parece uma visitação do anjo do apocalipse. Ao dedicar uma música à Palestina e a fechar com “People Have the Power”, Patti Smith vai mostrando que ainda mexe, ainda faz, ainda diz. Mas soa tudo tão distante, tão ineficaz! A maior armadilha em que caímos foi termos deixado o desânimo e o cinismo apoderarem-se de nós, tecendo uma teia invisível e incapacitante que nos permite ver e saber sem termos forças para agir de forma produtiva.

Saí duma sala relativamente climatizada para uns 33 graus pouco depois das nove da noite. Final da tarde de domingo em fim-de-semana de ponte significa Paris deserta, sossegada, adormecida. Mas mais do que quietude senti a aridez do futuro, como se o tal apocalipse de que fala o anjo já tivesse acontecido e a profecia viesse com um atraso fatal.

tripeira de nascimento, parisiense por adopção. já escarafunchou muita arte, pisou muito palco, escreveu para muito sítio, e deitou muita carta. doutora em quebrar corações (e não só) e eterna electroclasher.
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