dez anos acedendo a memórias aleatoriamente.

Tenho uma playlist no YouTube dedicada a vídeos que me fazem chorar instantaneamente quando sinto que preciso de abrir a torneira. Entre gatinhos a serem resgatados e o Big Bird a cantar a “It’s Not Easy Being Green” no funeral do Jim Henson, está o clip com a reacção dos Daft Punk quando é anunciado que Random Access Memories ganhou o Grammy de Álbum do Ano.

Não é difícil perceber o porquê deste momento ser tão emocional: normalmente mudos, frios, e sem expressão como bons robots que são (eram), Thomas e Guy-Man partilham um abraço íntimo no centro do furacão que os aplaude, demorando-se nos braços um do outro como se o mundo tivesse desaparecido e estivessem sozinhos a samplar discos despreocupadamente nos dez metros quadrados do quarto de Bengalter onde Homework foi concebido, gestado, e parido.

Não o sabíamos na altura—e daí, talvez desconfiássemos—, mas foi nesse momento que a volta ficou completa e o ciclo se fechou. Uma aventura que tinha começado duas décadas antes atingiu o seu apogeu, e toda a gente sabe que o apogeu também significa o princípio do fim: quando já se subiu tudo, o único caminho possível é para baixo. Claro que também faz parte do jogo saber fintar a decadência, mas já lá vamos.

Comecemos por “Get Lucky”. Nesse saudoso verão do ano da graça de 2013, trabalhava eu na equipa de off-air da MTV Portugal como digital media executive (que é apenas um nome fancy para dizer que tudo o que corre mal em estratégia online é culpa tua, mas tudo o que corre bem é uma vitória de todes) quando me apercebi que havia ali dois ou três singles em alta rotação que não me faziam querer arrancar os tímpanos com um saca-rolhas. Um deles era precisamente “Get Lucky”, aquele feel-good hit que ainda hoje defendo ter sido o último suspiro dum consenso pop verdadeiramente universal: críticos aprovavam, multidões amavam, eruditos anuíam, MTVs desta vida (algumas ainda teimosamente insistindo no M de Música) marketizavam, e até avós assobiavam. Porque a pop é mesmo isso, é omnipresença e saturação sem fronteiras nem classe.

Depois veio “Lose Yourself To Dance” a querer espreitar na categoria de prémio de consolação—ou, como diriam as más línguas, numa espécie de pára-quedas sobressalente, não fosse o principal não abrir; “Give Life Back To Music” oscilando vertiginosamente entre o cool e o foleiro como toda a French Touch decente; “Within” e “The Game of Love” rasgando em tiques de banda sonora dum porno italiano de sábado à tarde; o smörgåsbord auto/hetero-referencial de “Contact”, de “Touch”, de “Doin’ It Right”; e tudo o resto, atado por esse laçarote vermelho-vivo chamado “Giorgio By Moroder” que se impõe como hino e homenagem, sintoma e cura, insanidade e eloquência.

De repente, em Random Access Memories, toda a gente é pai—e, de facto, muitos são os que passam na prova de ADN. Basta olhar para a multidão em palco nesses mesmos Grammys, com Moroder a representar a italo, Paul Williams a relembrar a influência que Phantom of the Paradise teve na estética dos robots, Pharrell em nome da nova genialidade multitasker, Nile Rodgers como totem dessa arte máxima chamada disco, Todd Edwards e todos os outros partilhando um panteão onde cada um é simultaneamente deus e mero mortal.

E, no entanto, Random Access Memories é um álbum que está longe de ser perfeito. Nem sequer é o melhor álbum dos Daft Punk, o topo alternando entre os puristas de Homework, os diferentões de Human After All, e os nostálgicos de Discovery. Com uma boa dose de dor de coto, até é possível desdenhar-se Random Access Memories e acusá-lo de disco arquitectado milimetricamente para conquistar o mercado americano—um pecado que faria qualquer francês que se preze bolsar a jambon fromage enfardada ao almoço. Um sofisma, sem dúvida, desdobrável entre o que se pode, o que se quer, e o que se consegue; e é mais do que óbvio que, com Random Access Memories, os Daft Punk tornam essas três coisas numa só.

Claro que há sempre a velha cantiga da valorização da vanguarda—embora Random Access Memories seja, bem espremido, tudo menos progresso. O que o álbum consegue de forma brilhante (e que é muito provavelmente um dos segredos do seu enorme sucesso) é metamorfosear o passado de maneira a que este soe a futuro. Numa época alimentada primariamente a nostalgia e regurgitação, é rei e senhor quem conseguir convencer as massas a entusiasmar-se por adquirir algo que já tem.

Quem ler isto assim meio de rajada até poderia ficar a pensar que não gosto de Random Access Memories, quando isso não poderia estar mais longe da verdade. Afinal, eu faço parte desse supergrupo que ama comer vintage às colheres, que se espuma todo com violinos à la Casablanca Records, e que se vem como um puto de treze anos ao mero toque duma linha de baixo pulsando sobre um four-on-the-floor. Se calhar até é isso: Random Access Memories é tão familiar que a primeira audição bate como se tivéssemos pegado no álbum de fotografias do casamento dos nossos avós. Não estavas lá na altura, mas sabes que é dali que vens; e até as referências que à partida não te dizem nada pertencem a uma ignorância partilhada, a uma espécie de cloud interligada sabe-se lá com quem numa promiscuidade de corpo e de alma que quase escandaliza por não ser tabu.

Em dez anos de memórias acedidas de maneira aleatória, o que muda é a sequenciação. No fundo, só contam as deliciosas mecânicas do nosso cérebro, repletas de artimanhas e recheadas de ilusões, desenrolando-se tal e qual como um sample: cortadas, recortadas, reformatadas, e repetidas até à exaustão, perdendo todo e qualquer sentido inicial à medida que ganham uma nova vida em jeito de palimpsesto sagrado, providenciando um humilde espelho para esse papiro ancestral que contém toda a sabedoria do universo sucessivamente gravada e apagada até ficar só o rasto. Random Access Memories é exactamente isso: é rasto, é aura, é conexão imaterial. Uma energia que irrompe a intervalos regulares para lembrar que contém mil pedaços de mundo, enquanto te goza por acreditares que existe alguma pertinência naquilo que representa.

E, por fim, a implosão. Porque o que ficou por dizer importa sempre mais do que aquilo que foi dito; mas sem aquilo que foi dito, não terias nunca acesso ao que ficou por dizer.

tripeira de nascimento, parisiense por adopção. já escarafunchou muita arte, pisou muito palco, escreveu para muito sítio, e deitou muita carta. doutora em quebrar corações (e não só) e eterna electroclasher.
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Random Access Memories dos Daft Punk celebra uma década este mês.

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