No meio do lodo e do degredo, no fundo do Poço de Braga, encontram-se os Tape. Quando lhes pedi um rótulo ou alguma referência encolheram os ombros e responderam simplesmente: “música pesada”. É o suficiente para caber tudo lá dentro: metal, noise rock, pós-hardcore e tensão crua que parece sempre prestes a rebentar.
Há quem diga que soam aos Chat Pile e a comparação surge recorrentemente: os riffs de guitarra badalhocos, baixo a empurrar tudo para a frente e vocais que parecem narrar o apocalipse arrastado. A ironia é que os próprios Tape só descobriram os Chat Pile depois de alguém lhes apontar a semelhança. As coincidências não ficam por aí. Os norte-americanos têm uma música chamada “Tape” no disco Cool World, e o single de estreia dos bracarenses, “CAO”, parece ser uma resposta a “I am Dog Now”. Mas tudo isso foi mesmo só “coincidência”, explicam.
A história da banda começa bem antes destes lançamentos, logo após a quarentena, no verão de 2022. Nessa altura, existia um projeto de rock psicadélico chamado Rosa Vacina, que rapidamente se dissolveu. Foi nesse circuito que Gabriel Silva (guitarra) e Eduardo Marques (baixo) começaram a juntar ideias e se juntaram a Luís Peixoto (voz) que convivia no mesmo espaço. O nome Tape foi-lhes atribuído pelo anfitrião do espaço onde ensaiavam, puramente porque gostava de como soava. Faltava apenas um baterista. Chamaram Sina, que acabaria por ser o primeiro a ocupar o lugar.
Peixoto, que sempre esteve mais ligado à música pesada, puxou a banda nessa direção. “Não precisava de ser metal puro, mas claro que queria puxar visceral”, diz. E é precisamente essa sensação que define a música dos Tape: riffs repetitivos e tensos, como um motor que começa a aquecer demais, enquanto o baixo segura o peso e a bateria mantém tudo num ritmo quase industrial.

Estando formada a banda, não perderam tempo e começaram um processo muito eficiente de composição, sendo que em pouco mais de seis meses já tinham um live set preparado. O processo de composição foi rápido, principalmente por ser onde a banda se sente mais confortável. “O primeiro [live] set da banda nasceu dessa urgência. Havia entusiasmo, riffs a aparecer todas as semanas e uma vontade enorme de tocar ao vivo”, afirma Gabi.
Infelizmente, este período estava tão carregado de entusiasmo como de instabilidade. Enquanto tentavam descobrir o seu som, também tentavam simplesmente continuar a existir. Após cerca de cinco concertos, Gabriel mudou-se para a Polónia durante cerca de um ano e, pouco depois, Sina mudou-se para o Reino Unido. Para uma banda que mal tinha começado, eram mudanças suficientes para fazer tudo desmoronar. Não aconteceu.
Mesmo ao sair, Sina deixou uma porta aberta para a entrada de novos bateristas e Gabi insistiu que a banda continuasse marcando ensaios quando vinha a Portugal, com o objetivo de quando regressasse continuar como guitarrista. Entretanto, começaram a convidar amigos para substituições, tanto para a guitarra como para a bateria, até que um deles acabou por ficar: Israel Machado, o baterista que viria a estabilizar definitivamente a formação.
“Quando o Isra entrou, sentimos logo que havia um flow diferente”, recordam. “Foi aí que pensamos: ok, agora isto já é mesmo o nosso som.” Embora pudessem ter simplesmente mudado o nome da banda, como queriam manter a missão de fazer música pesada focada na inconformidade, decadência social e violência, sentiram que a essência era a mesma. O nome ficou igual. Esse teimoso instinto de continuar acabou por definir a identidade do grupo.
Com o regresso de Gabriel de vez, a formação tornou-se fixa – Peixoto, Gabriel, Eduardo e Isra – e a banda começou finalmente a respirar, entrando novamente num processo de composição intenso. A guitarra ganhou novas texturas, o baixo ficou mais agressivo e a bateria trouxe um groove mais direto, abandonando a vertente mais experimental que vinha de Sina, que recorria frequentemente a samples nas músicas. Embora descartem Chat Pile como uma referência direta, precisamente por não terem conhecido a banda durante o momento de composição, referem 37500 yens e Blacklisters como as principais referências da banda.
Ao olhar para trás, admitem que, apesar da confiança que tinham no som na fase inicial da banda, “estava tudo muito all over the place”, dizem entre risos. “Queríamos compor, estávamos cheios de pica e simplesmente fazíamos.” E ainda bem.
Apesar de recusarem rótulos, os Tape sempre circularam muito próximos da cena metal bracarense. Parte disso vem da ligação da banda ao coletivo Cantigas do Poço. Ainda assim, a banda prefere ver o seu som como algo mais aberto. “Se puxamos seis subgéneros diferentes dentro do metal… então o que é que nós somos?”, perguntam. A resposta nunca chega a ser definitiva – e talvez seja melhor assim. O público, pelo menos, parece não ter problemas com isso. “Eles têm de estar preparados”, dizem entre risos. “Estamos cá agressivos e ao fim e ao cabo é isso que importa”, diz Peixoto.
O primeiro concerto dos Tape aconteceu em setembro de 2023, mas a banda demorou a sentir que tinha algo pronto para gravar: “Só quisemos lançar quando sentimos estabilidade”. No entanto, consideram que “era importante passar pela experiência de fazer um disco, para evoluirmos como banda”. O resultado foi o EP Quantos Queres, lançado a 31 de dezembro de 2025.
As quatro músicas do curta-duração foram escritas pouco depois da entrada de Isra. Desde então, a banda limitou-se a maturá-las ao vivo. O EP acabou por funcionar também como uma espécie de declaração de identidade: “Serviu para apresentar o nosso novo som e afastar-nos um bocado da fase inicial”, conta Eduardo. Em dois anos, perceberam que tinham feito algo curioso. Construíram dois sets totalmente diferentes durante esse período e, mesmo assim, já estão fartos de os tocar a ambos.
As gravações para o EP aconteceram na própria sala de ensaios dos Tape, no centro comercial Galécia, mantendo o espírito DIY que a banda sempre quis preservar. A demora para lançar Quantos Queres deveu-se principalmente à inexperiência da banda neste departamento. “Envolve pensar em capas, distribuição, formatos físicos… mil e uma coisas”, dizem. “Parece fácil, mas não é.” Por isso também precisaram de tempo (e de concertos) para reunirem o financiamento necessário.
O conceito que inspirou Quantos Queres nasceu da indecisão da banda. Não sabiam quais das novas faixas escolher, nem sequer quantas queriam incluir. Assim surgiu o título do curta-duração, que opera como um convite à escuta, mas também como uma provocação, mais ou menos violenta, dependendo de quem a recebe.

As quatro músicas escolhidas são bastante distintas entre si. O som do EP é marcado sobretudo por riffs densos e sinistros, que se arrastam com peso suficiente para criar uma atmosfera opressiva. A base rítmica mantém batidas rápidas e nervosas, mas a energia nunca é polida. Pelo contrário; soa crua, suja e abrasiva, muitas vezes a puxar para territórios próximos do sludge. Há violência constante entre velocidade e peso e momentos em que a música parece pronta para explodir em fúria, seguidos de mudanças de tempo que fazem tudo cair num arrasto pesado e viscoso. Essa dinâmica cria uma sensação de instabilidade que impede o típico impulso de mosh contínuo.
O primeiro single apresentado foi “CAO”, acompanhado por um videoclipe que amplifica o espírito da faixa. A música nasceu a pensar nas “pessoas que são os cães da internet” – aqueles que vivem à base de comentários, ataques e reações instantâneas. “A merda do TikTok”, responde Gabi. O videoclipe traduz essa ideia de forma quase sufocante: uma sucessão frenética de estímulos, imagens e referências que espelham o ritmo caótico do consumo digital. Destaco nesta música o belo riff de baixo que não me sai da cabeça.
O disco também tem uma dimensão local muito clara: “Somos de Braga, então o disco tinha de falar de Braga.” A relação da banda com a cidade atravessa várias das letras e surge sem qualquer tentativa de romantização. Longe disso – aparece marcada por uma ambivalência assumida: “Braga tem de ser mostrada ao mundo… é um amor-ódio. É saber não romantizar o roto, mas abraçar essa merda”. Essa ligação torna-se ainda mais evidente nos concertos. Em palco, os Tape assumem uma postura próxima da lógica do hip-hop quando gritam “253 Braga”.
Com o EP finalmente cá fora, os Tape voltam ao ponto de partida: a sala de ensaios no Galécia. É ali que a banda realmente acontece. “Agora é voltar para lá e fazer o que mais gostamos: compor.” Se a história recente servir de exemplo, não deverá demorar muito até surgirem novas músicas, talvez mais pesadas, talvez mais estranhas, talvez mais tudo ao mesmo tempo. No fundo, o processo mantém-se simples. “Não há receita mágica. É ensaiar uma vez por semana, mandar riffs no WhatsApp… e ver no que dá”.
Os Tape tocam a 21 de março na Cooperativa Mula, no Barreiro, com os Mouthful Of Grief, Roy Batty e Prado.
Fotografia de destaque: Sam De Nicoló
